Crítica | Animais Fantásticos e Onde Habitam (Sem Spoilers)

animais fantásticos e onde habitam

estrelas 4

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Harry Potter é o grande fenômeno de uma geração, algo que pode ser comparado apenas com o impacto que Star Wars teve em seu período de geração – tanto na trilogia original na década 70 quanto as prequels nos anos 2000. E assim como ocorreu com a saga de Darth Vader, chegou a vez do universo mágico de J.K. Rowling se expandir e explorar a história por trás dos primeiros filmes com Animais Fantásticos e Onde Habitam, um filme muito eficiente em contar novas e originais histórias dentro deste vasto e rico universo.

Ambientada em 1926, 70 anos antes dos eventos de A Pedra Filosofal, a trama nos apresenta a Newt Scamander (Eddie Redmayne), um magizoologista inglês que chega em Nova York com uma maleta cheia de monstros e criaturas mágicas. Após um encontro com a ex-auror Porpentina Goldstein (Katherine Waterston) e o No-Maj, Jacob Kowalski (Dan Fogler), a maleta de Newt acaba aberta e algumas das criaturas escapam pela cidade. Juntos com a irmã de Porpentina, Queenie (Alison Sudol) o grupo parte para encontrar as criaturas antes que provoquem a exposição do mundo mágico aos non-majs.

Houve muita preocupação dos fãs e público geral com o anúncio do filme, acusado de um mero caça-níqueis da franquia; considerando que a ideia do projeto nasceu de um livro de poucas páginas que explorava a mitologia de algumas criaturas daquele universo. Com a notícia de que a Warner já teria 5 filmes planejados, o medo ficou ainda maior e remeteu à polêmica adaptação de Peter Jackson para O Hobbit, que esticou o curto livro de J.R.R. Tolkien em três longas intermináveis. Felizmente, J.K. Rowling revela-se muito mais cuidadosa ao estrear na função de roteirista, apresentando uma história original e empolgante que funciona de maneira orgânica – e ao mesmo tempo, independente – dentro daquele universo, que aqui ganha olhos bem mais adultos. É um filme que certamente foca-se no público que cresceu com os oito filmes anteriores, sendo mais difícil que uma criança embarque tão fácil em Animais Fantásticos do que A Pedra Filosofal. Isso pelo simples fato de não termos mais crianças estudantes como protagonistas, mas sim adultos com ocupações variadas e que protagonizam eventos mais intimistas e adultos do que Harry, Rony e Hermione em suas primeiras aventuras.

A premissa dos animais perdidos na cidade é claramente algo mais leve e divertido, onde também conhecemos mais da imaginação incrível de Rowling em criar seres com habilidades variadas e ambientes completamente novos, mas a jornada acaba ganhando um subtexto político e sombrio que se mostra presente desde a primeira cena; quando vemos manchetes de jornais similares àquelas de A Ordem da Fênix. Assim como fez com Voldemort ao longo de 7 livros e 8 filmes, Rowling coloca um poderoso antagonista às sombras, e o escolhido da vez é o poderoso bruxo Gerardo Grindewald (Johnny Depp, em rápida participação). Dessa forma, o roteiro de Rowling constrói subtramas que trazem o Ministério da Magia americano (o MACUSA) conduzindo uma investigação para encontrar o fanático e manter intacto o segredo do mundo bruxo, que é ameaçado quando misteriosos ataques por toda Nova York chamam a atenção do auror Percival Graves (Colin Farrell) e com a ascensão de um grupo fanático intitulado o Segundo Salem, que prega a existência de bruxos e a necessidade de sua destruição.

Tudo isso pode não ter relação alguma com a história de um magizoologista perdido em Nova York, mas Rowling mostra-se muito habilidosa ao equilibrar as diferentes subtramas e convergi-las em uma narrativa coesa, simples e completa. A atmosfera é bem apresentada, os novos conceitos e criaturas ganham introduções apropriadas (sempre com a inevitável exposição, mas a figura do Non-Maj Jacob as tornam diegéticas) e os personagens merecem aplausos pelo carisma e originalidade de suas personalidades, que vão além do que meramente copiar a do trio da saga Harry Potter, o que enriquece ainda mais a experiência.

A começar pelo protagonista encarnado com muita doçura pelo talentoso Eddie Redmayne, que expressa a timidez e excentricidade de Newt de forma adorável e divertida, marcado por uma voz quase que predominantemente introspectiva, um olhar baixo, mas passos largos e tortos que nos indicam sua natureza quase lunática. Seu amor e dedicação aos animais também convence, ainda mais durante uma cena específica onde sua maleta é confiscada por oficiais do MACUSA. Ao seu lado, temos a carismática Katherine Waterson como Porpentina – ou apenas Tina -, rendendo uma personagem expressiva e determinada, praticamente uma bússola moral com alguns problemas de socialização e autoridade, características bem desempenhadas pela atriz.

Porém, quem rouba a cena é Dan Fogler na pele de Jacob, assumidamente o alívio cômico mais eficiente e engraçado de toda a projeção. É uma ideia fantástica que finalmente tenhamos um Trouxa no meio da ação, garantindo que Rowling explore novas interações e relações entre personagens, como é caso com a excêntrica Queenie, que Alison Sudol é bem-sucedida ao criar uma figura movida pela curiosidade e a excitação de conhecer coisas novas – mas com um toque de insanidade que me remeteu bastante ao trabalho de Kate McKinnon no Caça-Fantasmas deste ano. Juntos, este improvável quarteto garante uma boa interação e diálogos formidáveis. Vale também citar a excelente performance de Ezra Miller, que desempenha um papel difícil e fundamental como um dos membros do Segundo Salem, mas isso fica para a crítica com spoilers…

Embarcando no universo bruxo pela quinta vez, David Yates mantém seu bom padrão na direção. É uma condução eficiente e que faz usos de travellings digitais dinâmicos e até um plano sequência muito bem vindo para a cena em que conhecemos o vasto interior da maleta de Newt, e Yates é competente ao fazer bom uso do espaço e estabelecer o clima correto para determinadas sequências – especialmente uma delicadíssima que é ambientada na chuva. Só fico triste de não ver o diretor ousando mais, explorando novos elementos ou paletas de cor; a fotografia de Phillippe Rousselot segue demais o padrão de As Relíquias da Morte, e algo ambientado nessa época merecia algo diferente. Yates também decepciona na condução de algumas cenas de ação, principalmente aquela onde temos uma criatura capaz de mudar de tamanho de acordo com sua necessidade, um conceito inteligente de Rowling que acaba reduzido a planos fechados e uma montagem frenética pelas mãos do diretor.

Ainda que com problemas de direção, todo o departamento técnico de Animais Fantásticos é impecável. A começar pelo trabalho magistral do designer de produção Stuart Craig, que só não será indicado ao Oscar novamente caso a Academia tenha sua memória apagada por um feitiço Obliviate, já que todos os cenários e ambientes do filme são maravilhosos. A lógica interna do MACUSA diferencia-se do Ministério da Magia de Londres através de sutis diferenças na arquitetura (um grande relógio que indica o quão perto os Non-Maj estão de descobrirem a existência dos bruxos já revela uma diplomacia diferente daquela vista na terra da Rainha), o interior da maleta de Newt é fascinante pela variedade de habitats e ambientes que temos ali e um clube chefiado por um duende gângster (Ron Pearlman) mostra a influência genial do período da Lei Seca naquele universo. Vale também mencionar a originalidade da sala dedicada às sentenças de morte e ao aspecto quase digno de um terror da Nova Inglaterra com o interior da casa do Segundo Salem.

Os figurinos de Colleen Atwood mantém o alto nível de seu trabalho ao longo dos anos, fornecendo roupas de época que fazem jus tanto ao período dos anos 20 quanto ao mundo da magia ali presente, enquanto o design das diversas criaturas presentes na maleta de Newt encatam pela diversidade e maluquice de suas criações. Os efeitos visuais que os trazem a vida não são dos mais perfeitos, mas funcionam a ponto de garantir expressividade e uma relação convincente entre humanos e CGI – o mesmo não pode ser dito do duende digital, que perde feio em comparação ao trabalho de maquiagem prostética que marcou a franquia Harry Potter.

No geral, Animais Fantásticos e Onde Habitam é uma maravilhosa adição ao universo de Harry Potter. Graças ao ótimo roteiro de J.K. Rowling e a força de seus personagens carismáticos, temos aqui a oportunidade de mais alguns anos explorando o mundo mágico e suas histórias cativantes. E com um público mais adulto e uma história com ritmo diferente em mente, acredito que pode ser a chance de descobrirmos algo tão especial quanto o conto do Menino que Sobreviveu…

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them, EUA/Reino Unido – 2016)
Direção: David Yates
Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Colin Farrell, Ezra Miller, Jon Voight, Alison Sudol, Dan Fogler, Carmen Ejogo, Samantha Morton, Zoë Kravitz, Ron Perlman
Duração: 133 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.