Crítica | Animal’Z

estrelas 4

Animal’Z é uma obra do mesmo autor da aclamada Trilogia Nikopol, uma história sobre um futuro distópico e desregrado, onde fascismo falocrata, cesaropapismo e graves alterações climáticas tomaram o planeta Terra. Em Animal’Z, a questão diretamente política sai de cena e ganha espaço apenas as indicações ecológicas, começando por uma premissa assustadora.

A natureza se revoltou contra a humanidade e sua fúria gerou algo chamado “Golpe de Sangue”. Os climas dos dois hemisférios, os animais, a água potável, a atmosfera, tudo virou de cabeça para baixo, contaminou-se, tornou-se raro. Sem um tempo incerto para a história – embora saibamos que se passa no futuro – Bilal cria um universo pessimista e denso, onde os poucos humanos sobreviventes buscam um lugar onde possivelmente conseguirão recomeçar uma nova vida ou civilização.

A dúvida sobre a existência de um Eldorado não é trabalhada pelo autor, mas nem precisava. As indicações artísticas e as entrelinhas do roteiro fazem um bom trabalho em gerar a dúvida e plantar o desespero: e se toda a caminhada pelo gelo, entre os animais, famílias canibais e barcos à deriva for em vão? E se toda a atmosfera branca e cinza do mundo nessa realidade for tudo o que de fato restou dos “velhos tempos” do planeta? Essas questões ultrapassam a leitura, mas, com certeza, fazem parte das muitas coisas que se apresentam ao leitor no fim do volume.

O tom essencialmente monocromático dos quadros, os traços finos de grafite e as raras incursões de um azul mais forte ou do vermelho para pontuais ocasiões de luta cumprem bem o papel dramático nas imagens. Enquanto acompanhamos a marcha desses humanos híbridos — o livro dá a entender que em algum momento, antes da parte trágica do Golpe de Sangue, alguns cientistas lograram transformar os humanos em híbridos de mamíferos marinhos, numa tentativa de aumentar as possibilidades de sobrevivência da espécie –, percebemos que o que sobrou da Terra, pelo menos a parte humana, não é das coisas mais louváveis. O bizarro encontro no Lounge Bar prova isto.

Mas mesmo com uma ótima representação artística, tanto em desenhos quanto em cores, e um roteiro bastante inventivo e crítico, Bilal não conseguiu trazer a acidez ou as questões mais sérias para sua história, algo que conseguiu fazer em seu álbum ecológico da Trilogia NikopolFrio Equador. Em dado momento da leitura de Animal’Z eu me lembrei da primeira parte de The Massive, uma outra história em quadrinhos sobre um grupo num barco à deriva procurando alguma coisa após uma massiva destruição da natureza.

Embora a proposta de Animal’Z seja realmente interessante, o foco na missão para encontrar o Eldorado, a misteriosa e chateante personagem que monta um cavalo-zebra e a narrativa paralela que ele encabeça acabaram por retirar da história o possível potencial que teria, caso estivesse livre dessas situações de idas e vindas, de um ponto a outro do território gelado e sem vida. Por que, no final de contas, qual a função real do cavaleiro citador? Me recuso a justificar a presença dele (ou deles) apenas como tendo a função de “salvar” Ana Pozzano, uma vez que Bilal já mostrou capacidade para criar algo muito bom para resolver tais questões.

Animal’Z é uma graphic novel que aguça o leitor. A possibilidade desse Golpe de Sangue é muito presente para nós, que vivemos discutindo questões ecológicas, destruição da natureza, preservação das espécies e economia verde como uma das formas possíveis de salvar o planeta. Há aqui uma perfeita simbiose com um das muitas preocupações dos nossos tempos e o autor imagina, já com uma firme crítica aos desperdícios e falta de seriedade nas políticas de Estado para o tema, como seria um futuro onde a natureza nos dá o troco pelo que a gente deixou de fazer.

Animal’Z (França, 2009)
Roteiro: Enki Bilal
Arte: Enki Bilal
Editora original: Casterman
No Brasil: Editora Nemo (2012)
104 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.