Crítica | Aniquilação

Obs: esta crítica contém spoilers.

De todos os gêneros cinematográficos, a ficção científica está na categoria de filmes que apresentam algumas das reflexões mais profundas sobre o ser humano. 2001 – Uma Odisseia no Espaço, por exemplo, destaca o avanço da frieza do homem em escala com seu progresso tecnológico; já A Chegada ressalta a importância da comunicação em um mundo tão dividido. Portanto, observações desse tipo são comuns no gênero e o mesmo ocorre em Aniquilação, de Alex Garland, mesmo diretor do excelente Ex Machina: Instinto Artificial.

Porém, se as ficções científicas apresentam reflexões sobre a condição humana, sobre o que se trata Aniquilação? A resposta é simples (o próprio título sugere): a destruição; não da sociedade ou do planeta, mas de si mesmo.

Roteirizado pelo próprio Garland, o filme mostra a jornada da bióloga Lena (Natalie Portman) para descobrir o motivo do desaparecimento de seu marido Kane (Oscar Isaac). Após um longo tempo sem respostas, Lena é contactada por Ventress (Jennifer Jason Leigh), uma psicóloga que trabalha para o governo. Conversando com doutora, a bióloga descobre que o esposo desapareceu em um local chamado Área X e parte para lá, com mais três mulheres, com o propósito de descobrir o que realmente aconteceu.

Ao ler o termo autodestruição, a primeira palavra que vem em mente, provavelmente, é o suicídio, elemento explorado aqui, principalmente no clímax, mas a obra vai além. Inclusive há um interessante diálogo envolvendo Lena e Dr. Ventress em que a psicóloga diz para a protagonista ‘‘quase ninguém se suicida, mas todos se autodestroem. Nós bebemos, nós fumamos’’, deixando clara a temática adotada.

Porém, o impulso humano pela autodestruição não é apenas físico, pelo contrário, também somos propensos a acabar com relacionamentos promissores ou trabalhos satisfatórios pela palavra já citada: impulso. Portanto, além de destacar o lado autodestrutivo das pessoas, Aniquilação explora o porquê de o ser humano ter essa tendência, apresentada como algo biológico aqui. No início, Lena explica o funcionamento de nossas células, organismos que se eliminam para criar uma nova geração de células, ou seja, se nosso material base se autodestrói, por que não faríamos o mesmo?

Portanto, quando o time de mulheres entra na Área X, elas descobrem não apenas uma dimensão diferente, mas também uma espécie de representação do imaginário humano, um mundo de sonhos e pesadelos. Aliás, não é a toa que elas se esqueçam como chegaram até ali, uma vez que a mesma sensação ocorre nos sonhos. Nesse ambiente enigmático, a obra ganha ares de fantasia e terror, destacando aquilo que podemos imaginar de mais belo, como cervos com chifres floridos, ou nosso maior medo: o desconhecido.

Para criar um ambiente tão fascinante e complexo, o diretor Alex Garland prioriza enquadramentos abertos para apresentar a riqueza visual do local, com uma paleta esverdeada que transmite a sensação de vida e nascimento, como se cada ser ali fosse único. Falando nisso, o design de produção merece destaque por ser impecável em criar um universo fantasioso, mas ao mesmo tempo realista, tornando tudo bastante crível. Já para despertar o medo, Garland contrasta o visual colorido com composições minimalistas, destacando apenas a silhueta das personagens, dando a sensação de isolamento e opressão.

Também nessa estratégia está a trilha sonora, causando uma sensação de estranhamento no público por criar faixas com ruídos de difícil identificação e vocais que dão uma aura mística à obra. Além disso, o design de som utiliza sons diegéticos para criar uma atmosfera intimidadora na Área X. Entretanto, algumas cenas que deveriam ser apavorantes, como o ataque de animais mutantes, perdem a potência devido ao trabalho limitado dos efeitos visuais, principalmente quando utilizados em conjunto com os efeitos práticos. Para compensar, Garland não economiza no gore, proporcionando momentos extremamente incômodos, com destaque para o vídeo que as mulheres encontram em uma base militar.

Contudo, o verdadeiro terror aqui não está nas criaturas mutantes, mas sim na percepção sobre nós mesmos. O longa deixa claro como um dos maiores pesadelos possíveis é não reconhecer-se mais, chegando ao ponto de se perguntar: “quem eu sou?”. No clímax do filme, por exemplo, quando Lena se depara com uma espécie de réplica sua, o desafio diante da personagem é superar a própria imagem, que quase a elimina sufocada.

Sufocamento esse que diversas pessoas enfrentam diariamente sob o nome de depressão, ansiedade ou outras doenças. Apesar das personagens coadjuvantes caírem em estereótipos, perceba que todas têm algo em comum: dramas terríveis em suas vidas, sendo motivos para causar os problemas citados acima. Josie sofre com a automutilação; Sheppard perdeu a filha e descreve o evento como o enterro de sua linda filha e a pessoa que era; enquanto Ventress sabe que seu fim está próximo por causa de um câncer.

Já a protagonista sente a dor da solidão e da culpa, sentimentos pontuados pela brilhante Natalie Portman, uma vez que seu marido está sempre ausente e ela acaba traindo-o com um colega de trabalho, colocando sua família em risco (como disse, temos tendência em destruir coisas boas em nossas vidas). Aliás, quando Lena é questionada sobre os motivos de ter conseguido voltar, sua resposta é simples: ‘‘eu tinha que voltar, não sei se elas tinham’’, fazendo referência ao desejo de ver o esposo novamente e a descrença de suas colegas com a vida. Portanto, por trás da trama sobre a Área X, está uma obra muito profunda sobre dores que consomem até nos aniquilar por completo, como na cena em que Josie torna-se outra forma de vida.

Porém, mesmo com as explicações acima, Aniquilação não é uma obra conclusiva. Apesar da exposição do roteiro em alguns momentos, o terceiro ato é absolutamente interpretativo, inclusive, sobre o tom da cena final. O desfecho do filme é feliz ou triste? Alex Garland deixa a resposta para cada um e isso é o mais encantador em seu filme. Várias ideias são claras e apresentadas com precisão, mas o grosso da história cabe ao público tirar sua conclusão, lembrando o desfecho de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Falando nisso, Garland proporciona cenas psicodélicas parecidas com o longa de Stanley Kubrick, tendo no diretor sua clara inspiração, algo também visto nos enquadramentos centralizados e na alta profundidade de campo.

Aniquilação, definitivamente, não é um longa fácil de ser compreendido. Alex Garland não facilita a vida do público, construindo sua narrativa em três linhas temporais diferentes que criam um quebra-cabeça na mente do espectador, além de provocar nossa imaginação a cada momento. A viagem por essa história pode ser tão dura quanto a da protagonista, com a dúvida nos aniquilando, mas quem embarcar na proposta do filme, terá pela frente reflexões dignas das melhores ficções científicas.

Aniquilação (Annihilation) – EUA e Reino Unido, 2018
Direção: Alex Garland
Roteiro: Alex Garland
Elenco: Natalie Portman, Oscar Isaac, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez, Tessa Thompson, Tuva Novotny
Duração: 115 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.