Crítica | Aniversário Macabro

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Aprendemos sobre a vida a partir das histórias que ouvimos desde criança, tiramos lições de moral, entendemos boas maneiras e ganhamos noção sobre nossa época e os pensamentos vigentes. Nos contos mais famosos, como Chapeuzinho Vermelho, ou Branca de Neve, por exemplo, ficam marcadas, em linhas de terror, as adversidades do mundo — como o Lobo Mau, que nada menos é que um lobisomem terrível; ou até a aterrorizante Cuca (dona da maligna canção infantil) que rapta crianças não dispostas a obedecerem seus pais, são alegorias dos males reais da vida. Isso acontece porque o medo é um ponto de parada para nós, uma forma eficaz de nos impedir de fazer algo que nos trará dor e sofrimento. Nesse sentido a literatura de terror sempre teve inclinação às lições de moral vetorizadas no medo transmitido pelas histórias. Crescemos aprendendo a fazer o mesmo, contando as mesmas histórias e ensinando os nossos filhos da mesma forma.

Aniversário Macabro, enquanto um exemplar do terror, conta a história de uma filha que se dá mal ao não dar ouvidos aos pais. Ou pior: por mentir para eles. Mari Collingwood (interpretada por Sandra Peabody, Sandra Cassel nos créditos do filme), em seu aniversário de 17 anos, mente para os pais dizendo que vai com uma amiga da cidade grande a um show da banda underground Bloodlust, nome que já deixa os pais desconfortáveis com a ideia. As amigas curtem a tarde na floresta, enquanto o filme joga músicas hippies nas cenas, dando a noção do mundo desatento (e até ilusório) em que vivem os jovens. À noite, as duas amigas saem pela cidade em busca de maconha… é então que elas são capturadas pela gangue de sádicos — ops, outro filme de Wes Craven –, fugitivos da cadeia, composta por Krug Stillo (David Hess, compositor de algumas das músicas do filme), Fred “Weasel” Podowski (Fred J. Lincoln), Sadie (Jeramie Rain) e Junior Stillo (Marc Sheffler) – perceba o primeiro nome dos dois primeiros citados.

Em sua estreia no cinema, Wes Craven criou um clássico de terror que influencia até hoje vários diretores famosos. Aniversário Macabro é um grande conto de advertência da era moderna, apesar de tantos anos passados desde sua estreia. De lá para cá influenciou imediatamente diretores de terror como Tobe Hooper e seu Massacre da Serra Elétrica, e, posteriormente, mais conhecidos como Quentin Tarantino — o queridinho de todo terceiranista prestes a cursar cinema na faculdade –, em seu uso, sem pudor, de violência extrema misturada com músicas “alegres” e o estilo mais dinâmico (e estilizado) de criação visual de personagens — criação visual aqui é a chave do sucesso para Aniversário Macabro. Também o dinamarquês Lars von Trier entra nesse bonde dos influenciados, tendo herança nas punições dadas às personagens femininas e nas cenas de pendor escandalizante filmadas de forma realista, como a que uma das mulheres é obrigada a mijar nas calças por um de seus sequestradores, considerada uma das cenas mais inquietantes de um filme recheado de cenas de torturas físicas e psicológicas.

Um questionamento sempre feito (e válido pelo menos aos pais, com a tarefa de controlar o conteúdo assistido por seus filhos) é sobre a necessidade da violência, principalmente gráfica, em filmes. A resposta aqui é bem simples. Wes Craven tirou seu primeiro longa para mostrar a jovens de verdade pelo mundo (não a críticos de cinema, que por sinal detonaram o filme na época) as consequências de seus atos. Dessa forma, poderia até ser considerada uma irresponsabilidade a amenização da violência presente no longa. E o diretor usou as melhores influências que tinha para criar suas cenas. O sangue de um vermelho vivo, sempre marcado nas mãos e nas roupas dos personagens, tem como fonte de inspiração visual clara o Giallo – gênero de terror italiano, popularizado no cinema por Mario Bava, cujos filmes geralmente tratam de assassinos slasher.

Uma vez professor, Wes Craven (criador do famigerado pedófilo e assassino dos sonhadores Freddy Krueger) queria ser contador de histórias. De início sonhava em ser romancista, depois seu sonho se voltou para o cinema. Fica claro, por toda a sua carreira, que foi a decisão mais acertada. O forte do diretor são suas criações visuais, que sempre cumprem seus objetivos. Não que Craven não saiba montar histórias, mas sua forma de impactar as pessoas, dentro dessas histórias, é o planejamento visual meticuloso. Ele sabe usar as ferramentas que um material audiovisual o permitem, desde os planos que escolhe, às músicas e aos cortes. Dentro disso, um dos grandes marcos do filme é uma sequência em que são alternadas cenas que mostram os pais de Mari, felizes em sua vida suburbana, com uma música animada ao estilo The Robins, tocando, enquanto preparam o bolo de aniversário para a filha, e cenas de Mari e sua amiga sendo brutalizadas pelos sequestradores. Isso tudo leva a tensão a um ápice que só um grande diretor pode trazer para seu espectador. Perceba também, dentre as várias cenas das meninas correndo pela mata, como as árvores vão ficando cada vez mais feias, densas e enroscadas umas nas outras, cada vez mais atrapalhando o caminho delas, como uma famosa cena do longa da Disney Branca de Neve.

Para Craven não adianta debater muito sobre assuntos modernos se não conseguimos ainda lidar com nossos problemas primais. Na obra de estreia do diretor, tudo sempre volta para as primeiras histórias que ouvimos, e das quais deveríamos ter aprendido mais. Não são técnicas inovadoras ou uma visão particular nunca antes experimentada nas artes narrativas que encontramos em Aniversário Macabro. O que brilha aqui é saber voltar ao básico e fazer bem feito.

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  • Nota para quem assistiu Os Oito Odiados: repare quantos elementos pertencem ao plano de interseção entre Aniversário Macabro e o este filme de Tarantino. Além da violência e da exploração visual dos personagens, há alguns pontos bem específicos como a personagem de Jeramie Rain, Sadie, uma psicopata completamente desmiolada, falando todos os tipos de besteira, que lembra a todo momento a excêntrica personagem de Jennifer Jason Leigh, Daisy Domengue, que, assim como Sadie, manipula o grupo. Perceba, igualmente, a risadinha maligna das duas. Também uma cena em que toca Now You’re All Alone, de David Hess, em uma tranquila perseguição do assassino a Mari. A música toca enquanto Krug, com sua arma, anda lentamente atrás da menina, sabendo que ela estava correndo para onde ficaria encurralada. A música toca alto e, quando Mari finalmente fica sem saída, Krug atira, cortando a música. Lembre agora da cena em que Joe Gage, personagem interpretado por Michael Madsen, persegue Charly (Keith Jefferson), do lado de fora do Armarinho da Minnie, com a mesma música, a mesma tranquilidade do assassino, sabendo que sua presa já está capturada, e o corte na música…

Aniversário Macabro (The Last House On The Left) – EUA, 1972
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven
Elenco: Sandra Peabody, David Hess, Fred J. Lincoln, Jeramie Rain, Lucy Grantham, Marc Sheffler, Richard Towers, Cynthia Carr, Ada Washington, Marshall Anker, Martin Kove, Ray Edwards
Duração: 84 min.

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...