Crítica | Anjo de Vidro

Em A Solidão Amiga, de Rubem Alves, o cronista descreve uma situação que lembra bastante os filmes com temática natalina, época em que a solidão é um dos temas mais delineados em termos dramatúrgicos. Em determinado trecho, aponta que “o que mais você deseja é não estar em solidão”. Em outro, descreve que “a noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa”. No desenvolvimento, acrescenta: “Doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio”.

Potencialmente escrito para se transformar numa ótima cena dramaticamente edificante, o texto de Rubem Alves destaca um dos maiores problemas da condição humana contemporânea: a solidão, acentuada nestas datas que atualmente são mais comerciais que “tradicionais”.  Anjo de Vidro, assim como um punhado de filmes hollywoodianos sobre o espírito natalino, é uma dessas produções anuais que resgatam o clima da época para construir as suas situações dramáticas.

O foco do filme é a solidão. Temas como amor, família, dedicação e respeito também estão presentes, mas a sensação de estar só, uma condição contraditória diante do frenético mundo contemporâneo, regido pelas relações em níveis globais, é o centro nervoso da trama. Dirigida por Chazz Palminteri, a narrativa de 96 minutos é guiada pelo roteiro de David Hulbard e se desenvolve dentro dos padrões do “texto mosaico”: várias existências se cruzam durante um período específico, neste caso, a noite de comemorações natalinas.

Nessa rede de contatos, todos aprendem uns com os outros e algumas lições moralistas são transmitidas como bálsamo para a nossa condição pós-moderna repleta de contradições, sofrimento, injustiças sociais e outras celeumas que demarcam o nosso cotidiano. É um filme de encontros e desencontros, com indivíduos em busca de uma fatia da felicidade que “não pode ser comprada”.

Construído com pitadas de humor e sarcasmo, o roteiro reúne algumas histórias lacrimejantes, apresentadas separadamente, para logo mais, entrelaçarem-se: Mike Riley (Paul Walker) um policial ciumento e obsessivo que está com seu relacionamento por um fio com Nina Vasquez (Penélope Cruz), mulher extremamente apaixonada, mas insatisfeita com o comportamento do companheiro. Temos, logo na abertura, Rose Collins (Susan Sarandon), uma mulher que cuida da mãe no leito de um hospital há uma década e que abdicou de todos os desejos: apesar de bem sucedida profissionalmente, ela vive à espreita de um amor que a tire da sensação de solidão. Marco (Daniel Sunjata) é uma das opções, um jovem que apresenta interesse por ela, mesmo sendo uma mulher com idade para ser sua mãe. Ele é bonito, atraente e inteligente, mas presa aos padrões da sociedade, Rose não sabe se deve alimentar o interesse do rapaz, uma possível válvula de escape para a sua situação solitária. Na cena de abertura descrita anteriormente, Rose mente para uma antiga amiga, que não encontra há tempos. Diz que está em compras para as suas filhas, quando na verdade sabe que passará a noite de natal no hospital acompanhando a sua mãe.

Artie (Alan Arkin) é um homem que trabalha como garçom de um restaurante e acredita que Mike, policial namorado de Nina, seja a reencarnação da sua falecida esposa. Jules (Marcos Thomas) é um jovem que representa a carência em pessoa, pois provoca um acidente só para passar a festa natalina no hospital, junto com outros pacientes. Enquanto alguns buscam dissociar-se da família, como por exemplo, Nina, durante uma cena de jantar, outros querem ter os padrões idealizados.

Com histórias que não são aprofundadas, mas trabalhadas na superfície de maneira satisfatória para a condução do roteiro, Anjo de Vidro busca o entrelaçamento de algumas das existências descritas para que nesses encontros nada casuais, eles aprendam as devidas lições e possam refletir sobre as suas respectivas condições. A equipe de produção colabora com essa busca do diretor: Allan Menken, na condução musical; Susan E. Morse, na montagem do mosaico; e Carol Spier, no design de produção, responsável por acrescentar elementos semióticos comuns ao período para execução das necessidades dramáticas da narrativa.

Tal como reflete Rollo May em O homem à procura de si mesmo, “a ausência do Outro é um dos maiores fantasmas de nossa realidade”. No desenvolvimento de Anjo de Vidro, os personagens que gravitam em torno das situações apresentadas estão constantemente em busca de “aquecimento”, do Outro que tem tanta importância em sua existência. O que May traz é uma análise sobre o “sentimento de cordialidade quando uma pessoa está imersa em um grupo”, algo como se ela estivesse “reabsorvida”, “como se voltasse ao ventre materno”.

Estas ideias coadunam com outro pensamento sobre a temática solidão. Em A Solidão: a ausência do outro, o especialista Valdemar Angerami-Camon diz que “a solidão é a configuração extremada da ausência do Outro”, condição imanente ao homem e a sua própria vida, mas que “em certos momentos a percebemos mais agudamente e não sabemos como lidar com ela”. No filme em questão, a temática está bem coordenada, o que não significa que o filme tenha todas as suas engrenagens narrativas bem calibradas. Há alguns ruídos, personagens que beira ao caricato, mas nada que estrague o desenvolvimento da mensagem do filme, algo que pode soar piegas e clichê, mas que talvez seja a real necessidade da humanidade em tempos tão conflitantes.

Lançado em 2004, o filme fez um passeio tímido pelos circuitos das principais salas de cinema, tendo exibição televisiva alguns dias depois. Tratado por alguns críticos como A Felicidade Não se Compra da contemporaneidade, a produção é a representação cabal da corrida pelo Natal na indústria cinematográfica, interessada nas necessidades do público consumidor, pessoas que não precisam apenas de roupas para a ceia natalina ou presentes para o amigo secreto, mas também dos filmes que reforçam a necessidade de sentir o espírito da época em todas as instâncias possíveis de nossas existências. Quando isso não ocorre, estamos diante da principal discussão de Anjo de Vidro: o seu deslocamento do centro, isto é, a quebra de uma padronização, representada na presença, desejada ou não, da família, de um namorado, do marido e dos filhos, dentre outros, para a formalização de um ritual que para muitos é a concretização da felicidade normatizada.

Anjo de Vidro (Noel) — Estados Unidos, 2004
Direção: Chazz Palminteri
Roteiro: David Hubbard
Elenco: Alan Arkin, Chazz Palminteri, John Doman, Kim Bubbs, Marcia Bennett, Paul Walker, Penélope Cruz, Robin Williams, Ruth Chiang, Susan Sarandon
Duração: 96 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.