Crítica | Anjos da Lei 2

estrelas 3,5

Anjos da Lei, adaptação cinematográfica da série de TV homônima que revelou Johnny Depp para o mundo, foi um inesperado sucesso em 2012. Uma desnecessária continuação, então, era de se esperar e ela, claro, aconteceu, trazendo de volta os dois policiais “com aparência jovem” vividos por Jonah Hill e Channing Tatum, dessa vez em um ambiente de faculdade para descobrir o traficante de uma nova droga.

E eis que estamos diante – quem diria! – de uma continuação que consegue superar o original, mesmo considerando que, particularmente, nunca entendi a razão do sucesso da primeira parte. O que, porém, destaca Anjos da Lei 2 das demais continuações desnecessárias é sua consciência do quanto o filme é improvável e ridículo, tornando-se quase um meta-filme. Com isso, o roteiro, feito a seis mãos, foca em dois assuntos: o fato de estarmos vendo uma continuação e o bromance entre Schmidt (Hill) e Jenko (Tatum).

Apesar de começar com uma obrigatória sequência de ação de nos fazer torcer o nariz, por não ser nem engraçada nem especialmente relevante, os dois policiais são logo levados para 22 Jump Street, endereço localizado na frente do quartel general anterior, já que uma igreja coreana tomou conta do imóvel. E as brincadeiras com o título (em inglês) completamente idiota já dão o tom da fita, deixando-nos inclusive entrever um condomínio em construção localizado no número 23 da rua Jump. E, como toda continuação tem que ser maior e mais cara do que o original (Michael Bay sabe muito bem disso…), os roteiristas não perdem tempo e deixam claro que o programa de infiltração policial em escolas e faculdades agora tem um orçamento milionário, sensacionalmente evidente pelo cenário da nova base comandada pelo sempre furioso Capitão Dickson (Ice Cube) e que é uma réplica do CTU de Jack Bauer em 24 Horas, com direito até à gaiola de vidro suspensa no centro.

E claro, como continuações são cópias infladas de seus originais, o roteiro não se furta em esfregar na cara dos personagens que essa segunda missão sob disfarce é exatamente igual à anterior. E essas brincadeiras inteligentes com sua auto-consciente condição de continuação divertem o espectador do começo ao fim, até mesmo nos créditos finais, quando uma hilária sequência de continuações é listada, com paródias até a Top Gun: Ases Indomáveis e jogos como Grand Theft Auto.

O outro sustentáculo de Anjos da Lei 2 é o mencionado bromance entre Schmidt e Jenko, que é levado às últimas consequências quando Jenko encontra sua “cara metade” em Zook (Wyatt Russell) e acaba deixando de lado seu “irmão” Schmidt. São momentos, em sua maioria, muito inspirados, especialmente com Jonah Hill confortavelmente mastigando o cenário com sua fábrica de “vergonha alheia”. No entanto, é também nessa característica da continuação que vemos o desgaste do roteiro, com as mesmas situações se repetindo de maneiras levemente diferentes em uma sucessão que acaba perdendo o fôlego rapidamente. Há um esforço evidente para se manter o frescor da narrativa, com a perversão de expectativas a todo o momento e muitas referências à idade verdadeira dos dois, mas, mesmo assim, a estrutura, que é muito dependente desses momentos, começa a deixar o cansaço da repetição aparecer a partir da metade da projeção.

Não é nada que venha a prejudicar em demasia a diversão boba que é Anjos da Lei 2, mas certamente uma duração menor e uma montagem mais econômica teriam reduzido o estresse da repetição e permitido que a sequência de esquetes bem pensados não fosse interrompida por momentos menos inspirados. No entanto, o que realmente “puxa para baixo” (piadinha interna…) o filme é seu clímax nas férias da primavera (spring break) em Puerto Mexico em que vemos ação burocrática, inexistência de qualquer fiapo de roteiro e momentos constrangedores (como a luta envolvendo Hill) que contradizem todas as tiradas auto-conscientes que vieram antes.

É uma pena que a tropa de roteiristas não tenha conseguido amarrar a história satisfatoriamente, dependendo demais do carisma de Hill e do bom mocismo de Tatum, que são eficientemente explorados, até certo ponto, por Phil Lord e Christopher Miller, que voltam à direção. É mais um exemplo de diretores se esforçando para consertar, na mesa de edição, o trabalho desleixado do roteiro para encerrar a trama. Não fosse por isso, Anjos da Lei 2 seria algo realmente fora do comum, bem mais do que uma “continuação melhor que o original“.

Anjos da Lei 2 (22 Jump Street, EUA – 2014)
Direção: Phil Lord, Christopher Miller
Roteiro: Michael Bacall, Oren Uziel, Rodney Rothman
Elenco: Jonah Hill, Channing Tatum, Peter Stormare, Wyatt Russell, Amber Stevens, Jillian Bell, Ice Cube, The Lucas Brothers, Nick Offerman, Jimmy Tatro
Duração: 112 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.