Crítica | Anjos da Noite: A Rebelião

estrelas 3,5

Idealizada por Len Wiseman, a franquia Anjos da Noite fora concebida inicialmente como uma trilogia. Os planos do realizador sempre foram trazer uma sequência e, se essa fosse bem recebida pelas audiências, um prequel seria produzido, nos oferecendo um olhar mais aprofundado sobre a origem do conflito entre os vampiros e os lycans. Wiseman conseguira o que queria e Anjos da Noite: A Rebelião veio com a promessa de ser a última entrada da saga dessas criaturas da noite – isto é, até O Despertar, que seria lançado três anos depois. O terceiro longa definitivamente é o que mais se diferencia dos outros, consistindo em um filme de época (dentro do gênero da fantasia, é claro), além disso, Len decidira se afastar da cadeira do diretor, deixando-a para Patrick Tatopoulos, que fora responsável pelos efeitos especiais desde o primeiro filme.

A trama, que se passa séculos antes de Anjos da Noite, foca em Lucian (Michael Sheen) e Sonja (Rhona Mitra), o primeiro dos lycans a conseguir reverter para a forma humana e a filha do líder dos vampiros, Viktor (Bill Nighy). Em um paralelo óbvio com Romeu e Julieta, conhecemos mais a fundo a história do romance entre os dois, que já fora estabelecido lá na primeira obra da série, e como isso acabou ocasionando na morte da vampira e na rebelião presente no título. Pela primeira vez na franquia temos um enredo que nos oferece o olhar dos lobisomens e não de seus eternos inimigos.

O respeito de Tatopoulos em relação ao que veio antes é evidente, há uma preocupação evidente com o visual estabelecido desde o início da franquia, uma de suas marcas mais fortes. Da caracterização, ao filtro azulado até as locações em si, sentimos, de fato, como se estivéssemos diante de um filme dentro do mesmo universo, por mais que esse se passe muitos anos antes do primeiro. Naturalmente, o diretor tem um espaço maior para a criatividade quando se trata do desenho de produção. O castelo dos vampiros conta com uma arquitetura verdadeiramente deslumbrante, não pela sua beleza, mas pela forma como se une com a montanha, formando uma espécie de caverna mais sofisticada. Chega a ser impressionante como, com uma história que se passa quase que exclusivamente nessa locação, os cenários conseguiram ser tão variados.

O roteiro do trio formado por Danny McBride, Dirk Blackman e Howard McCain consegue ser visivelmente mais conciso que aqueles dos longas anteriores, sabendo mesclar bem o drama e a ação de tal forma que não nos cansamos com um ou outro. Pela primeira vez na franquia temos um clímax que não peca pelo exagero e é resolvido de forma mais ágil, sendo profundamente mais impactante. O texto somente peca na forma como estabelece Viktor, muitas vezes sua intolerância soa forçada demais, prejudicando a progressão da narrativa em determinados pontos.

Felizmente, no papel temos Bill Nighy, que evidentemente se diverte muito na sua interpretação. O ator nos oferece uma variada gama de emoções que vão desde a ironia até o profundo desapontamento e tristeza. Enfim ele se configura como um personagem mais profundo que aquele visto em Anjos da Noite. Não há como não se divertir quando vemos o ator em tela, rimos de suas patadas nos membros do conselho e nos angustiamos com sua intolerância em relação aos lycans, especialmente a Lucian, que caíra de suas graças após salvar sua filha.

Michael Sheen, porém, é aquele que mais brilha no papel, ao ponto que rapidamente nos identificamos com o personagem. Definitivamente ele é o mais humano das criaturas apresentadas aqui e suas motivações são bem estabelecidas pelo roteiro desde o início. O trabalho do ator é extremamente convincente ao ponto que sua dor se torna palpável. O interessante é como o trabalho de direção e, naturalmente, do roteiro, conseguiu encaixar perfeitamente os flashbacks presentes nos longas anteriores em um filme próprio. Existem, sim, sutis diferenças, mas, no geral, o filme permanece consideravelmente fiel ao que veio antes.

Infelizmente não podemos elogiar tanto o trabalho de Rhona Mitra. Por mais que a atriz cumpra seu papel dentro da narrativa estabelecida, ela jamais consegue se destacar da maneira que Kate Beckinsale o fizera como Selene. Na maior parte da obra sentimos como se ela fosse uma simples cópia da vampira protagonista dos dois longas anteriores. Naturalmente isso fora intencionado pelos roteiristas, visto que Viktor enxergava Sonja em Selene, mas uma diferenciação maior poderia ter sido oferecida, até para nos poupar das inevitáveis comparações com a outra personagem da saga.

Sem o punho mais firme de Wiseman, Tatoupolos acaba pecando pelo uso excessivo do CGI, algo que era muito bem balanceado nas obras anteriores. Ainda que a utilização de adereços seja uma constante no filme, a presença deles é consideravelmente reduzida quando comparamos com o material que veio antes. É claro que temos um longa de proporções mais épicas aqui, com uma verdadeira guerra ocorrendo no trecho final, ainda assim não podemos deixar de revirar os olhos quando a computação gráfica se torna extremamente evidente. O diretor, felizmente, acaba se saindo bem nesse seu longa de estreia e utiliza seu profundo conhecimento na área dos efeitos especiais para mascarar, através de sua decupagem, a computadorização dos elementos em tela, algo que, também, é escondido pelo já mencionado filtro azul típico da franquia.

Anjos da Noite: A Rebelião cumpre, portanto, bem a função de nos contar a origem de toda a problemática que conhecemos no primeiro filme da série. Com um roteiro mais conciso, que vai direto ao ponto, sólidas atuações e um trabalho de direção que não desaponta, a saga dos vampiros x lobisomens ganha ainda mais profundidade. Uma pena que Lucian tenha sido tão subaproveitado no longa de abertura, visto que Michael Sheen realmente se entregara ao papel. Agora, após olhar para o passado, iremos contemplar o futuro, visto que esse mundo, enfim, se livrara de todos os anciões que governavam a sociedade vampiresca, ao menos é o que tudo indica.

Anjos da Noite: A Rebelião (Underworld: Rise of the Lycans) — EUA/ Nova Zelândia, 2009
Direção:
 Patrick Tatopoulos
Roteiro: Danny McBride, Dirk Blackman, Howard McCain
Elenco: Michael Sheen, Bill Nighy, Rhona Mitra, Steven Mackintosh, Kevin Grevioux, David Aston, Elizabeth Hawthorne
Duração: 92 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.