Crítica | Anjos da Noite: Guerras de Sangue

estrelas 3

Inicialmente anunciado como um reboot da franquiaAnjos da Noite: Guerras de Sangue, acabou se tornando mais uma continuação da saga de Selene, a vampira, interpretada por Kate Beckinsale, que se tornara uma proscrita de sua raça. Temos aqui o primeiro longa da série cuja história não fora escrita por Len Wiseman, ainda que o realizador tenha permanecido como produtor da obra. Apesar de ser uma produção americana, o filme somente irá estrear no país em janeiro de 2017, o que já demonstra um certo cansaço da franquia, que já tivera uma exibição limitada nas suas entradas anteriores. Dito isso,  Anjos da Noite ainda conta com uma legião de fãs devotos, mais que justificando a sua constante renovação.

Anos se passaram desde que Selene descobrira que tinha uma filha com Michael Corvin. Afastada de todos aqueles que ama, ela permanece em sua busca pelo seu amado e acaba se tornando alvo dos lycans, que agora contam com um novo líder, Marius (Tobias Menzies, o Edmure Tully de Game of Thrones). Esse, porém, é apenas o primeiro de seus problemas, visto que a vampira Semira (Lara Pulver), tem outros planos, envolvendo o sangue da protagonista. Felizmente, Selene conta com alguns aliados, como David (Theo James), cuja primeira aparição ocorrera em O Despertar e seu pai, Thomas (Charles Dance), um dos mais antigos imortais ainda vivos.

Sob direção de Anna Foerster, a primeira mulher a dirigir um filme da franquia, que também marca sua estreia na tela grande, a franquia ganha um ponto a mais por trazer personagens femininas de maior destaque. Evidente que a protagonista sempre fora uma mulher, mas, além dela, todos os outros personagens relevantes eram homens, visto que mesmo a anciã Amelia não durara mais que cinco minutos em tela no primeiro filme. Esse fator acaba oferecendo novos ares para a saga, diferenciando a obra daquilo que veio antes consideravelmente.

Por outro lado, o longa representa, também, um retorno às origens, trazendo um foco maior sobre a sociedade vampiresca, que fora retratada como se estivesse em ruínas desde a morte de Viktor. Aqui o conselho retorna e, com ele, temos uma visão mais aprofundada de como esse mundo funciona. Infelizmente, isso acaba entrando em oposição com o que vimos no filme anterior – os humanos são praticamente esquecidos, como se o extermínio das criaturas da noite jamais tivesse existido. Existe, sim, as menções de que os vampiros estão à beira da extinção, mas a raça humana jamais é colocada como uma das culpadas, por mais que tivesse sido controlada pelos lobisomens em O Despertar.

Voltamos, novamente, para aquele velho foco exclusivo nesses seres fantásticos, que é basicamente o que Anjos da Noite sempre focara. Isso, de forma alguma, é um erro, visto que marca a linguagem específica adotada por Wiseman desde o primeiro filme. Muitas vezes temos um humano como nosso elemento de inclusão nesses universos – a franquia em questão, contudo, dispensa isso, favorecendo sua protagonista e a colocando como nosso ponto de aproximação. Como Selene, Beckinsale se demonstra totalmente familiarizada, à vontade, o que apenas aumenta nossa identificação com a personagem.

Infelizmente, a velha guerra dos lycans com os vampiros já demonstra um grande desgaste. O que assistimos aqui é praticamente o mesmo do que vimos no primeiro longa e no que antecedeu Guerras de Sangue, com sutis diferenças que, de fato, não mudam nosso olhar da narrativa como um todo. A necessária renovação da linha narrativa principal jamais acontece, apenas nos minutos finais, que podem significar uma sequência que, enfim, renove de vez a franquia, mas isso é apenas uma esperança – o próximo filme já fora confirmado, mas ainda não sabemos nada sobre ele.

Enquanto o roteiro cai na mesmice, o que salva a obra é o trabalho de atuação de todo o elenco principal. Com nomes como Charles Dance e Lara Pulver, a franquia continua nos atraindo pela sua retratação dos vampiros e lobisomens, que, naturalmente, dialogam com as classes sociais de nosso mundo – um lado representando a aristocracia e o outro aqueles subjugados por ela. O que prejudica esse retrato é a nítida pressa do roteiro, que acelera muitos desenvolvimentos de forma exagerada. Muitas sequências soam como trechos de trailers, exibindo somente alguns pontos chave, que prejudicam a progressão orgânica da narrativa. Dito isso, outro problema de Anjos da Noite é a forma como a evolução da protagonista é realizada. De uma hora para a outra ela passa por uma metamorfose que acaba soando como um clássico exemplo de deus ex machina, garantindo a ela o que é necessário para vencer a ameaça em questão.

No fim, Anjos da Noite: Guerras de Sangue não nos oferece nada de novo, ainda que seja um gratificante retorno às origens da franquia. Com pontos que soam perdidos dentro do roteiro e uma progressão narrativa rápida demais, a obra acaba se qualificando como um simples filme de ação, feito somente para divertir, mas sem entregar nada mais profundo que isso. Ainda assim, é uma obra que certamente irá agradar aos fãs da franquia e amantes de vampiros ou lobisomens irão encontrar um bom refúgio das terríveis produções que geralmente assistimos no cinema de hoje em dia. Anjos da Noite, contudo, precisa de uma renovação – algo que diferencie os filmes antigos dos novos, para que, enfim, a saga de Selene caminhe para a frente.

Anjos da Noite: Guerras de Sangue (Underworld: Blood Wars) — EUA, 2016
Direção:
 Anna Foerster
Roteiro: Cory Goodman
Elenco: Kate Beckinsale, Theo James, Lara Pulver, Charles Dance, Tobias Menzies, Bradley James,  Alicia Vela-Bailey ,Trent Garrett
Duração: 91 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.