Crítica | Anjos e Demônios

estrelas 3

O grande erro de Ron Howard em O Código Da Vinci foi não compreender o material adaptado, uma vez que, o filme reforça a religião, ao contrário do que o livro faz. Mesmo tendo um trabalho mal avaliado no primeiro longa, o diretor decidiu adaptar mais uma obra de Dan Brown: Anjos e Demônios. Será que Howard aprender com seus erros cometidos anteriormente?

O filme mostra o professor de simbologia Robert Langdon (Tom Hanks) ajudando o Vaticano à investigar o misterioso desaparecimento de quatro cardeais. Agora, além de enfrentar a resistência da própria igreja em ajudá-lo nos detalhes de sua investigação, Langdon precisa decifrar charadas numa verdadeira corrida contra o tempo porque a sociedade secreta por trás do crime em andamento tem planos de explodir o Vaticano.

Estruturalmente falando, Anjos e Demônios mostra-se superior ao seu antecessor. Dessa vez, o roteiro, escrito por Akiva Goldsman e David Koepp, desenvolve a trama com mais calma, apresentando os fatos gradativamente e permitindo que o público assimile todas as informações passadas. Além disso, a própria história é mais envolvente, uma vez que, Langdon encontra mais dificuldade para resolver os problemas à sua frente, até mesmo falhando em alguns. Outro fator positivo presente no longa é a constante sensação de dúvida na mente de quem assiste, fazendo com que todos os personagens, com exceção dos protagonistas, sejam suspeitos de estar por trás do ataque ao Vaticano, inclusive os próprios cardeais.

Mais do que a trama em si, o fator mais interessante do filme é a disputa entre ciência e religião abordada aqui. Em vez de assumir um lado no debate, Howard prefere inserir um tom conciliador em sua obra, mostrando que não seria impossível as duas áreas se complementarem. O longa apresenta ainda um discurso anti-conservadorismo que se encaixa perfeitamente no tema abordado, mostrando que esse tipo de pensamento atrasa, não apenas o avanço tecnológico, como o das próprias religiões. Aliás, as motivações do vilão da história são todas baseadas no fanatismo, servindo como um belo paralelo dos tempos atuais, onde alguns buscam apontar um alvo sobre certos grupos para incitar o conservadorismo na sociedade.

Apesar do tom amistoso, o filme também não isenta a religião de algumas falhas, ao contrário de O Código Da Vinci que parecia confirmar ainda mais o poder das igrejas. Portanto, a obra destaca a manipulação feita pela Igreja Católica para esconder alguns fatos, além de abordar com clareza as perseguições feitas pelos católicos contra vários cientistas da antiguidade, mostrando certa coragem em abordar temas que não houve no longa anterior. Essa mudança na franquia pode ser exemplificada pelas próprias ações de Robert Langdon. Enquanto na história passada o professor queria esconder alguns fatos da humanidade para não abalar a fé das pessoas, aqui ele afirma para um cardeal que escreverá sobre a religião dele, mas tentará ser gentil, além de dizer para o camerlengo que não acredita em Deus.

Até mesmo Ron Howard apresenta um trabalho de direção muito mais seguro, utilizando vários planos de ambientação, planos abertos e planos em contra-plongée que ressaltam toda a beleza e grandiosidade do Vaticano e Roma, além de favorecer a arquitetura dos edifícios. A fotografia ainda faz um jogo de sombras interessante, mostrando os locais externos mais claros e os ambientes dentro do Vaticano mais escuros, destacando como tudo ali é secreto, dando uma aura misteriosa ao filme. Mas o destaque técnico está a cargo do design de produção que apresenta com perfeição diversos ambientes do Vaticano, com o auxílio dos efeitos especiais que construíram diversos locais através de recursos digitais.

Porém, o elenco não conseguiu atingir o mesmo nível de qualidade dos demais realizadores da obra. Tom Hanks provavelmente está em uma das piores atuações de sua carreira, totalmente no automático, até mesmo o seu carisma característico não está presente em seu trabalho aqui. O mesmo pode ser dito para Stellan Skarsgard, ótimo ator, que parece desmotivado em seu papel. Já Ayelet Zurer mostra certo esforço em criar sua composição, mas seu rosto sem expressão não contribui nem um pouco para a tarefa, culminando em uma atuação bem apagada. Os elogios sobram para Ewan McGregor e seu camerlengo cheio de dualidades, com sua voz mansa, mas que impõe certo respeito

Claro que o filme tropeça em alguns momentos, exigindo muita boa vontade de quem assiste para que algumas cenas sejam plausíveis, principalmente as que envolvem assassinatos em praça pública, além do plano do vilão mostrar-se frágil as vezes. Mas o plot twist surpreendente e muito bem construído no final faz com que esses fatores acabem sendo ignorados.

Claro que Anjos e Demônios poderia ter sido mais audacioso em certos temas, preferindo um tom conciliador que pode incomodar algumas pessoas, mas a abordagem mostra-se muito superior ao seu antecessor. Além disso, o filme apresenta um trabalho mais seguro de Ron Howard, que mesmo não trazendo um trabalho memorável, pelo menos apresenta um longa que entretém com muita eficiência.

Anjos e Demônios (Angels & Demons) – EUA, 2009
Diretor: Ron Howard
Roteiro: Akiva Goldsman, David Koepp (baseado no livro de Dan Brown)
Elenco: Tom Hanks, Ayelet Zurer, Ewan McGregor, Stellan Skarsgard, Pierfrancesco Favino, Armin Mueller-Stahl, Nikolaj Lie Kass, Thure Lindhart, Cosimo Fusco, Carmen Argenziano, Rance Howard, Howard Mungo, Marc Fiorini
Duração: 146 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.