Crítica | Anna Karenina, de Tolstói

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Em Literatura para Quê?, o ensaísta Antoine de Compagnon tece algumas considerações pertinentes e que dialogam com a análise sobre o romance Anna Karenina. Na publicação, o crítico aponta que as obras-primas que fazem parte do romance contemporâneo dizem coisas mais consideráveis que os clássicos da Filosofia, História e da Crítica. Conforme seu posicionamento enquanto especialista no assunto, o teórico francês acredita que a literatura é exercício de reflexão e experiência, tendo como meta responder a um projeto de conhecimento do homem e da sua relação com o mundo. Segundo as suas considerações bem pertinentes, um ensaio de Montaigne, um poema de Baudelaire ou um romance Proust podem ensinar mais sobre a vida que alguns tratados científicos.

Na seara destas produções imaculadas, capazes de fazer a humanidade mergulhar numa reflexão profunda sobre as suas próprias idiossincrasias, Anna Karenina reflete vários feixes de luz para iluminar o painel da presença da mulher no campo da literatura mundial, mesmo que outros perfis já tenham sido construídos anteriormente. Diante da afirmação, surge até a indagação com questionamento: Anna Karenina é um clichê?

Publicada num período posterior ao escandaloso romance realista Madame Bovary, de Gustave Flaubert, a obra trata de uma temática semelhante. Capitu, personagem de Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, contemporânea do francês Flaubert é a sua antítese, construída com um perfil psicológico mais complexo. Tudo isso, entretanto, não impede a personagem russa de Tolstoi de ser um épico literário de grande importância para a historiografia literária mundial. Anna Karenina não era uma novidade no campo da literatura quando veiculado aos leitores, mas estruturou a sua identidade própria dentro do esquema de enredos sobre “mulheres enclausuradas pelas demandas dos seus sistemas sociais”.

A personagem e o seu entorno mereceram as observações repletas de adjetivos de Nabokov, ao dizer que a obra era “um impecável mágica de estilo”; de Faulkner, que alegou ser “o melhor romance já escrito”; de Dostoievski, ao afirmar ser o romance “uma impecável obra de arte”. Marco pungente do realismo literário, mesma corrente de Machado de Assis, Eça de Queirós, Gustave Flaubert, Aluísio de Azevedo, dentre tantos escritores responsáveis por radiografar com competência os seus respectivos contextos históricos, Anna Karenina é uma obra monumento que trata de temas caros para a humanidade: relações familiares, rivalidade, a necessidade do progresso, a submissão da mulher e a visão imaculada do casamento, os contrastes entre a pobreza e a riqueza, o campo e a cidade, etc.

Dividido em oito partes, a história foi veiculada inicialmente na revista russa O Mensageiro entre janeiro de 1875 e abril de 1877, mas por conta de algumas diferenças criativas, Tolstoi não veiculou o final na revista, situação que o levou a publicar em formato romance alguns meses depois. Com ousadia, a trama começa com uma citação reveladora do percurso a ser seguido pelos leitores: “todas as famílias felizes são iguais”, complementando logo depois que “as infelizes o são cada um à sua maneira”.

O preâmbulo é uma preparação para o mergulho na história da personagem título, uma aristocrata que começa um caso extraconjugal e ameaça a sua vida social. Ela é bela, recatada, rica, popular e admirada, no entanto, não é feliz. Sente-se incompleta e perdida. Ao florescer o seu caso amoroso com o Conde Vrosnky, põe em risco tudo que possui. Insatisfeito com a condição de amante, o conde exige que ela se separe do oficial de governo Alexey Karenin. No entanto, para tal atitude, Anna adentra numa ciranda de pressões. Ela foge para Itália, mas por conta da sua condição de mulher casada subversiva, tem dificuldade em estabelecer laços de amizade.

De volta para a Rússia, a personagem isola-se, enquanto Vrosnky aproveita da sua condição masculina, com vida social repleta de prestígio. Mergulhada numa redoma de possessão, a personagem sucumbe e sem se importar com o companheiro atual, tampouco seu filho e seu marido abandonado, atira-se na linha do trem e põe fim à sua trágica existência. Com outras subtramas paralelas, esse é apenas o centro nevrálgico da obra, um relato sofrido de uma mulher subserviente aos ditames de sua época.

Para compreender os acontecimentos, faz-se necessário os códigos para refletir sobre o período. O contexto histórico e as suas mudanças sociais, entretanto, são importantes para compreensão da dimensão dos debates da obra. Com eventos que ressoam as reformas liberais orientadas pelo Imperador Alexandre II, da Rússia, o romance tem como pano de fundo o desenvolvimento das atividades industriais no país, a ascensão da elite em contraponto à derrocada da antiga aristocracia, a necessidade de liberdade de imprensa e das discussões sobre a mulher e seu papel na sociedade. Com ressonâncias da Reforma Camponesa de 1861, momento marcado pela liquidação das atividades servis sobre as quais muitos eram submetidos, Anna Karenina também ecoa a estrutura política autárquica que introduziu uma administração local que revolucionou a comunicação, o trânsito, o comércio, a assistência médica, a educação, dentre outros meios. Tudo isso aparece em algum momento do livro, às vezes como discussão central da cena, em outros instantes como panorama geral do contexto de um acontecimento corriqueiro na trajetória dos personagens.

Adaptado numerosas vezes para o cinema, Anna Karenina ganhou versões em 1935 (com Greta Garbo), 1948 (com Vivian Leigh), 1985 (com Jacqueline Bisset), 1997 (com Sophie Marceau), 2012 (com Keira Knightley), etc. Tal como A Dama das Camélias, Lucíola, Senhora, O Primo Basílio, O Crime do Padre Amaro e tantas produções da época, é uma obra que coloca os seus personagens femininos dentro de uma perspectiva machista e opressora, sem salvação para comportamentos subversivos, numa antítese que seria material inflamável para combustão das metas agendadas pela luta aos direitos femininos nos séculos seguintes.

Quando foi escrito, o romance demarcou o fim da linha para Leon Tolstoi, pois registros biográficos que comprovam a sua derrocada após a veiculação de Anna Karenina, uma obra que agradou aos críticos, mas não satisfez o seu criador. Independente da opinião do russo em crise após o desfecho do volumoso romance, o que encontramos ao lidar com a leitura é a contemplação da capacidade do escritor em dissecar os perfis, principalmente o psicológico, de sua personagem, lida inteiramente e complexa diante do cenário em que se encaixa.

Retomando o ensaísta Antoine de Compagnon, “as coisas que a literatura pode procurar e ensinar são pouco numerosas, mas insubstituíveis: a maneira como ver o próximo e a si mesmo, a atribuição de valores as coisas pequenas e grandes”, dentre outros itens importantes, tais como “o lugar do amor na vida, o lugar da morte, a maneira de pensar e não pensar nela”, além de outras coisas necessárias e difíceis: “a rudeza, a piedade, a tristeza, a ironia, o humor, etc.”. Em Anna Karenina, o autor deflagra todas estas questões, sem deixar escapar o seu ponto central, isto é, uma história sobre o amor e sobre os complexos laços que interligam as relações humanas.

Anna Karenina (Rússia, 1877)
Autor: Leon Tolstoi.
Editora no Brasil: Cosac Naify
Tradução: Rubens Figueiredo
Páginas: 816.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.