Crítica | Annabelle 2: A Criação do Mal

Quando lançou Invocação do Mal em 2013, James Wan foi bastante esperto. Ciente do funcionamento industrial, o cineasta com toques de produtor e criador de histórias elaborou uma arquitetura narrativa engenhosa, repleta de brechas para a construção de narrativas derivadas que permitiam a elaboração de novas histórias. Annabelle, para os desavisados, pode soar como um filme sobre a trajetória de uma boneca assassina horripilante e macabra, mas na verdade é a continuação de um segmento criado pelo primeiro filme do universo que engloba bruxas, freiras malignas e legiões de demônios: as tramas de casas assombradas.

A história é bastante traumática. Uma família retorna da missa e na estrada precisam lidar com o pneu que fura bruscamente. O pai se arruma para o devido conserto e num breve momento, solicita a sua filha que pegue um parafuso. Ao se deslocar para cumprir a “missão”, a garota é atropelada e morre, numa tragédia que demarcará para sempre a vida de todos os envolvidos, e, posteriormente, aos que começaram a integrar este universo de autopunição, sofrimento e luto.

Após a trágica morte da filha, Samuel Mullin (Anthony LaPaglia) e Esther (Miranda Otto) resolvem acolher a freira Charlotte (Stephanie Sigmon) e um grupo de crianças que foram desalojadas de um orfanato. O patriarca da família esfacelada pelos fatídicos acontecimentos é um habilidoso artesão de bonecas e com a chegada das novas moradoras vai precisar lidar com alguns elementos do passado que voltaram para trazer medo e pavor, num processo de destruição que ameaça a vida de todas as pessoas da casa.

Uma das regras estabelecidas ao chegar é não adentrar o quarto da menina falecida, Annabelle. É um local proibido que desperta curiosidade e sensação de mistério. Isso logo desperta a atenção das meninas, principalmente de Janice (Talitha Eliana Bateman), menina que sofre das consequências da poliomielite e usa cadeira de rodas para se locomover. Ela é sensitiva e desde a chegada percebe que é algo de estranho no lar. Será assim que, ao longo dos 109 minutos, Annabelle 2 – A Criação do Mal vai investir em sustos e no estabelecimento de uma atmosfera sombria, edificada pela direção eficiente de David F. Sandberg.

O cineasta não possui muita liberdade para criar algo inovador, mas segue as regras do estúdio. Isso não impede, por sua vez, entregar ao público uma narrativa habilidosa e eficiente, construída com uma equipe técnica eficiente. Sandberg assume o roteiro de Gary Dauberman e conta com a direção de fotografia de Maxime Alexandre e seus travellings, dollys e contrastes entre planos abertos e fechados, em consonância com a condução musical de Benjamin Wall Fisch. Para tornar o clima de horror mais eficiente, a fotografia enquadra bem os elementos visuais concebidos pelo design de produção de Jennifer Spence, gerenciadora da cenografia bastante cuidadosa de Lisa Son e a direção de arte de Jason Garner.

O roteiro também é eficiente, mesmo que recorra aos vícios de linguagem comuns aos filmes de terror preparados para inserção do jump scare, recurso que assumo, acho extremamente funcional e divertido. Geralmente não levamos filmes deste tipo à sério, mas o diferencial de Annabelle 2 – A Criação do Mal é não trazer uma boneca assassina, mas um veículo de manifestação demoníaca, numa história com imprecisões ligadas aos dogmas religiosos, mas que constrói bem a sua mitologia própria. Infinitamente melhor que Annabelle, sucesso comercial e fracasso crítico, história contada de qualquer jeito para expandir o universo do criativo James Wan.

Desta vez, os personagens possuem melhor design, são trabalhados dentro de seus sentimentos e nos apresentam alguma profundidade psicológica, o que nos faz prestar mais atenção em suas trajetórias. Em determinando momento da narrativa, há um paralelo com a história da manifestação demoníaca por meio de uma imagem de freira, ligação com A Freira, filme que representa a inserção do universo de Invocação do Mal para 2018.  As criações não apresentam sinal de esgotamento e é bem possível que outros filmes surjam futuramente, numa expansão de um painel de criaturas diabólicas que sabem assustar com eficiência.

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation) — EUA, 2017
Direção:
 David F. Sandberg
Roteiro: Gary Dauberman
Elenco: Anthony LaPaglia, Samara Lee, Miranda Otto, Brad Greenquist, Lulu Wilson, Talitha Bateman, Stephanie Sigman, Mark Bramhall, Grace Fulton, Philippa Coulthard, Tayler Buck
Duração: 109 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.