Crítica | Annabelle 2: A Criação do Mal

estrelas 3,5

É seguro dizer que James Wan foi um dos responsáveis pelo renascimento do gênero terror nesses últimos anos. Com obras como SobrenaturalInvocação do Mal, o terror clássico retornou à sua plena forma, incentivando a produção de dezenas de outras obras, explorem elas o sobrenatural ou não. Seguindo o sucesso do primeiro longa sobre os Warren, Annabelle veio como o prelúdio focado na assustadora boneca introduzida em Invocação do Mal – o roteiro e direção, contudo, deixaram bastante a desejar, baixando bastante nossas expectativas para Annabelle 2: A Criação do Mal, que, vem como uma grata surpresa.

O longa se passa ainda antes de seu antecessor, nos levando para a época da confecção da dita boneca por Samuel Mullins (Anthony LaPaglia). Ele e sua esposa, Esther (Miranda Otto), viviam com a filha, ainda criança, em uma chácara distante da cidade, sustentados pela venda das bonecas artesanais de Samuel. Tudo isso muda quando, após um trágico acidente, a garotinha morre. Doze anos se passam e os Mullins recebem em sua casa uma freira acompanhada pelas garotas de um orfanato. Dentro da casa, não demora muito para Janice (Talitha Bateman) e Linda (Lulu Wilson) perceberem que há algo de errado ali, tal descoberta, porém, não é o suficiente para salvá-las da entidade sobrenatural ali presente.

Quando se trata de filmes de terror, a estrutura mais comumente encontrada consiste de focos de tensão intercalados com momentos para o espectador respirar, oscilando entre a falsa sensação de tranquilidade e o medo de maneira constante, até chegar no clímax, que segue de maneira ininterrupta. Gary Dauberman, que retorna do primeiro Annabelle inverte essa lógica, nos entregando uma obra que simplesmente não freia em momento algum, nos deixando com o coração na boca desde o primeiro momento que o medo se instaura. O terror aqui não é oscilante, ele é constante, mantendo-se na medida certa, até explodir próximo de seu clímax, que assume propriedades exponenciais.

David F. Sandberg, que tem esse como seu segundo trabalho em direção de longa-metragem, claramente se apoia na característica linguagem de James Wan. Como todo bom diretor de terror, ele constrói o medo através da subexposição, deixando grande parte da tensão construída à cargo da expectativa e de nossa própria imaginação. Seus planos mais fechados nos passam a impressão de que, a qualquer momento, um jump scare irá acontecer, mas até nisso ele brinca conosco, visto que tais momentos são pontuais em seu filme. Dessa forma, ele habilmente constrói uma sólida atmosfera, que nos oprime, tirando o fôlego até chegar em seu clímax.

É preciso notar, também, como o diretor faz constante uso do segundo plano de sua imagem, que, diversas vezes, aparece fora de foco, obrigando o espectador a percorrer, com o olhar, toda a tela do cinema. Evidente que boa parcela desse mérito vai para o diretor de fotografia, Maxime Alexandre, que não somente consegue desfocar elementos específicos na medida certa, sem exageros, como constrói a iluminação das cenas de maneira emblemática, chegando a moldar nossa percepção da boneca, que se torna consideravelmente assustadora com a luz direcionada. Digno de nota é a forma como a iluminação se transforma em um personagem por si só, representando o aspecto sobrenatural da trama em momentos bastante nítidos, como os trechos de Annabelle no closet.

Quando nos vemos, enfim, no clímax da obra, mais precisamente pouco antes dele começar, Sandberg mostra que também adotou alguns dos defeitos da escola de Wan – sendo o exagero o mais notável deles. A subexposição tão bem empregada durante a narrativa dá lugar a uma incômoda superexposição, que revela demais e, portanto, destrói o temor tão bem estabelecido. Existe o claro abandono da simplicidade que marcara a maior parte da projeção, a favor de um final mais explosivo e desnecessariamente “grandioso”, com a possessão sendo substituída por um ataque soviético do inferno. Como na grande maioria dos filmes do gênero, o clássico “menos é mais” favoreceria esse longa consideravelmente.

Mesmo esse exagero próximo ao fim do filme, porém, não é o suficiente para estragar a experiência de Annabelle 2: A Criação do Mal. Temos aqui um filme que supera seu antecessor em todos os aspectos possíveis, se colocando em pé de igualdade com os dois Invocação do Mal, estabelecendo o terror aos moldes do que vimos nos filmes de James Wan, com direito, inclusive, a algumas bem-vindas referências. Certamente uma grata surpresa dentro do gênero.

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation) — EUA, 2017
Direção:
 David F. Sandberg
Roteiro: Gary Dauberman
Elenco: Anthony LaPaglia, Samara Lee, Miranda Otto, Brad Greenquist, Lulu Wilson, Talitha Bateman, Stephanie Sigman, Mark Bramhall, Grace Fulton, Philippa Coulthard, Tayler Buck
Duração: 109 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.