Crítica | Annabelle (2014)

estrelas 2

Obs: Crítica originalmente publicada em 08 de outubro de 2014.

Os filmes de terror acabam de ganhar mais uma produção luxuosa e bem adornada de marketing: Annabelle, spin-off de Invocação do Mal, produção de terror lançada em 2013 e que promoveu um processo de oxigenação para o gênero. Desta vez, portanto, o filme solo do personagem título não consegue o mesmo êxito da produção que serve como ponto de partida, configurando-se como mais um produto do subgênero filmes sobre bonecos malditos.

Há várias razões para considerar Annabelle um filme problemático. Razões que passam por eixos internos e externos. No que tange aos aspectos internos, o filme possui o maior dos problemas de uma narrativa cinematográfica: o roteiro. Ao lado da direção e da montagem, os problemas de roteiro promovem o desvio da narrativa, tornando-a oca ou improvável, sem impacto, passageira, haja vista que uma boa história pode ser contada sem recursos visuais tão primorosos. No caso de Annabelle, a direção é assinada por John. R. Leonetti, profissional responsável pela direção de fotografia de Invocação do Mal, filme que nos serve aqui como ponto de partida. Não adiantou a trilha bem orquestrada, a direção de arte cuidadosa e os enquadramentos e movimentos de câmera virtuosos. A narrativa não engata. Nos aspectos externos, ligados à sociedade e a indústria cinematográfica, podemos destacar que os cineclubes de filmes de terror encontrarão em Annabelle o mais do mesmo, muito pouca inspiração e uma boneca que deveria participar mais da história, mas acredite, em alguns momentos do enredo, desaparece, deixando o diabo atuar sozinho na narrativa. Já no que tange à indústria, provavelmente será o sucesso. A campanha de marketing é excelente e a parceria com o SBT, aqui no Brasil, com a pegadinha da boneca assustando profissionais de serviços gerais em uma casa já despertou o interesse do público.

Sendo assim, vamos aos fatos: com 98 minutos de duração, Annabelle é um filme de terror que nos apresenta o casal Mia (Annabelle Wallis) e John (Ward Horton). Eles são recém-casados, procuram adequar-se na vizinhança nova, conhecem vagamente o casal da porta ao lado e estão à procura da felicidade. Mia, personagem que acredito ser uma homenagem à atriz Mia Farrow, pelo seu trabalho em O Bebê de Rosemary (há enquadramentos e situações com o carrinho de bebê que nos remetem diretamente ao filme de Polanski) é uma dona de casa pacata e que costura enquanto o seu marido trabalha como médico. Certo dia, John lhe dá de presente uma boneca. Annabelle, assim, adentra o recinto do casal, estabelecendo o seu papel futuro de canal para as forças do mal. Em uma noite, Mia acorda escutando barulhos estranhos na casa do vizinho. Ambos foram atacados por jovens oriundos de uma seita satânica, que não contentes em apenas violentar o casal vizinho, resolvem atacar Mia e John, mas ambos, apesar do susto, saem ilesos da situação. Antes de morrer, um dos jovens da seita carrega a boneca Annabelle em seus braços. Pronto, está aí a história da boneca Annabelle. Claro que o que vai se desdobrar depois disso não será exposto aqui, mas vamos combinar: a tal afirmação de que a boneca é um recipiente para o mal não convence, e aí, temos a fragilidade do roteiro. Por que as forças do mal usariam a boneca como passagem, haja vista que na sabedoria popular e no eixo religioso onde a história se concentra, ou seja, no catolicismo, não há a necessidade de objetos como portal para nada?

Outros pontos que merecem destaque: os clichês e convenções do gênero. Em um mundo que posso considerar hoje ultramoderno (uma versão posterior ao conceito de pós-modernidade), cheio de paradigmas e explosão de conteúdos na internet e na mídia em geral, Annabelle encontra-se perdida. A boneca pouco interage com a história e pelo menos não adentra no constrangimento de carregar uma faca e sair atacando os personagens. Ela é puramente um objeto para atrair o mal onde quer que esteja. Uma espécie de marionete do Diabo. Sendo assim, não há problemas em evocar todos os clichês. O mundo hoje é isso, são muitos filmes, o acesso é maior, conhecemos filmes de tudo que é lugar do planeta através da internet, então, fica complicado “inovar”. Mas diferente do filme que lhe serve como ponto de partida, Invocação do Mal, Annabelle não consegue empolgar e se prolonga demais em aspectos menores e pouco interessantes.  Há ainda o padre que sente a presença do mal, a leitora de livros do ocultismo que possui um passado misterioso, crianças que representam vagamente uma espécie de malignidade, em suma, todas as convenções forma usadas, o que não é um problema, mas que não favorecem em nada o caminhar da narrativa.

Ah, ainda tem a questão do homem no enredo: só a mulher percebe as coisas, sofre os diabos e ainda por cima não convence o marido do que está acontecendo. Este só percebe quando as coisas caminharam para um epílogo absurdo, e por sinal, demasiadamente moralista. Se há culpados, podemos apontar o roteirista Gary Dauberman, o diretor John Leonetti e o montador Tom Elkins, pois no final do processo, ao ver os problemas da narrativa, foi incapaz de sinalizar estas questões para os seus colegas de produção. O filme é um alarme para o bom senso leitor: para ter-se uma ideia, as três cenas “assustadoras” do filme estão quase completas nas ferramentas de marketing do filme: trailers e spots. Mais uma vez, o gênero terror dá um passo para trás. Cabe agora aguardar a continuação do filme, Invocação do Mal 2, esperada para este ano, bem como cruzar os dedos para os produtores não caírem na ideia que circula na internet sobre um filme que mostre um duelo ou parceria, ainda não se sabe, entre Chucky, personagem da série Brinquedo Assassino e a bonitinha da Annabelle.

Por fim, para deixar mais claro o conceito de spin-off, esclareço para o leitor que não sabe: é um produto derivado de uma mídia ou obra existente. X Men Origens: Wolverine pode ser um exemplo, bem como a série televisiva Bates Motel, produção que conta o começo da vida de crimes de um dos personagens mais icônicos da história do cinema, Norman Bates. A série ainda investe na sua relação com a mãe, interpretada muito bem por Vera Farmiga, atriz que encabeça o elenco do excelente Invocação do Mal. Este tipo de narrativa é um ótimo caminho para os produtores capitalistas ávidos por produtos para as suas plateias cada vez mais necessitadas de escapismo, porém, é preciso cuidado: um spin-off muito ruim pode decretar a falência de uma possível série. Annabelle não chega a ser um caso desses, pois garante uma continuação em seu final, mas poderia ser bem melhor, caso a sua história tivesse um roteiro mais trabalhado.

Assistir ou não assistir: eis a questão. Esta crítica, assim como a boneca Annabelle, é um portal para a nossa reflexão. Cabe a você, caro leitor, assistir ao filme e voltar para a promoção do debate. A esfera pública, diferente dos veículos impressos, nos permite mais agilidade na comunicação e na troca de informações. Crítica, em meu ponto de vista, se faz assim. Cinema, críticos e leitores e profusão, dialogando e formando uma teia sem fim.

Annabelle (Annabelle / EUA / 2014)
Direção: John R. Leonetti
Roteiro: Gary Dauberman
Elenco: Annabelle Wallis, Ward Horton, Eric Ladin, Alfre Woodard, Tony Amendola.
Duração: 98 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.