Crítica | Anônimo (2011)

estrelas 3,5

Quando o filme começa, estamos no teatro e um homem (Derek Jacobi) começa a falar para sua audiência – de lá e de cá – sobre a famosa teoria de que não foi Shakespeare que realmente escreveu as famosas peças atribuídas e a ele. Atores começam a preencher o espaço cênico, uma câmera avança para um zoom nesse narrador e somos arremessados para o ano de 1613 quando vemos Ben Jonson (Sebastian Armesto) escondendo alguns papeis no Globe, famoso teatro londrino, testemunhamos sua fuga, captura e destruição do teatro, somente para novamente sermos arremessados mais ainda no passado, precisamente cinco anos antes, quando a história finalmente começa.

Em uma complicada narrativa que transforma o teatro elisabetano em uma marionete de intrigas políticas, aprendemos que Edward de Vere, o Conde de Oxford (Rhys Ifans) é o verdadeiro autor das peças que conhecemos e Ben Jonson é seu cúmplice na farsa. Há muitos outros nomes que os historiadores listam como candidatos a verdadeiro Shakespeare, sendo uma das teorias mais reconhecidas, ainda que não comprovada, que Shakespeare não poderia ter sido quem foi, pois obras desse naipe provavelmente foram criadas por um nobre culto e letrado.

Seja como for, Anônimo não é um documentário. Longe disso. O fato de ele ter sido dirigido por Roland Emmerich, diretor mais afeito à explosões, narrativas absurdas e filmes em geral medíocres (Independence Day, O Dia Depois do Amanhã, 2012), fez muita gente torcer o nariz para sua pegada de “teoria da conspiração” sobre William Shakespeare. No entanto, o resultado final, se pudermos perdoar um roteiro que pega fatos históricos e os muda a seu bel prazer para servir à história que pretende contar (e que filme de época não faz isso, não é mesmo?) e se pudermos por um momento aceitar que Shakespeare não era mesmo quem imaginamos que ele foi (isso não muda a qualidade das peças que foram escritas, certo?), então Anônimo pode ser apreciado pelo que é: um thriller de época produzido com muito cuidado e com atuações marcantes, além de uma história genuinamente excitante, ainda que exageradamente complicada, como o flashback seguido de flashback da abertura que descrevi já deixa a entrever (isso sem contar com outros flashbacks ainda, para décadas para trás).

John Orloff escreveu um roteiro cheio de camadas. Trabalha simultaneamente o segredo da identidade verdadeira de Shakespeare e aspectos políticos da época, com traições, revoltas e tentativas de golpe. O quadro que ele pinta é um de que a arte – qualquer arte – funciona primordialmente para criticar, satirizar, contar a verdade e, quando é voltada contra um Estado injusto, pode ser uma potente arma capaz de mudar países. Com isso, o trabalho final é muito mais interessante do que meras teorias da conspiração sendo enfileiradas para consumo rápido. De Vere é, segundo um grupo de estudiosos, realmente candidato sério a Shakespeare, ainda que essa teoria, chamada de “oxfordiana” seja hoje rejeitada pela maioria dos pesquisadores. Mas o fato de Orloff ter escolhido De Vere como seu Shakespeare é simplesmente a liberdade criativa falando mais alto e seu trabalho de pesquisa ao redor dessa sua escolha acaba legitimando, para fins da história que deseja contar, essa teoria. O mesmo vale para a forma como ele retrata a Rainha Elizabeth I, patrona das artes e entusiasta do teatro que, juntamente com sua corte, é de certa forma obrigada a esconder esse seu gosto.

Aliás, nesse ponto vale destaque para a absolutamente cativante atuação de Vanessa Redgrave como a rainha. Considerando que o filme se passa já na época da sucessão do trono, a Elizabeth que vemos é mais idosa, mas não menos certeira e inteligente. Redgrave a retrata de forma digna e é um grande prazer ver a atriz, então com 74 anos, fazendo o que faz de melhor. Mas Rhys Ifans também consegue convencer como o recluso e triste De Vere, homem genial que tem que lutar contra seus próprios desejos mais íntimos em razão de uma sociedade preconceituosa e que vê nas artes apenas uma ameaça. Seu trágico personagem reflete muito bem o tom angustiante de muitas obras de Shakespeare.

O alívio cômico – e objeto de muita polêmica – fica por conta de Rafe Spall que vive ninguém menos do que William Shakespeare. Mas Shakespeare o ator, não Shakespeare o escritor. E um ator medíocre, aliás, que não hesita em assumir que é autor de peças que não escreveu. Tenho para mim que, aqui, Orloff e Emmerich quiseram chocar e até irritar os puristas de Shakespeare. Mas acontece que esse choque diverte e funciona bem durante a narrativa. Pensem assim: se você nunca teve vontade de socar Shakespeare, terá agora!

Com uma fotografia escura, tendente ao uso – ou à simulação do uso – de iluminação natural, Emmerich e Anna Foerster (diretora de fotografia, com um currículo para lá de vexaminoso), Anônimo pode parecer muito pesado e trágico, mas parece ter sido essa a intenção e a reconstrução de época aliada a figurinos impecáveis que parecem realmente “vividos”, destacam a fita também em seus aspectos técnicos. Nem parece que é algo vindo de Emmerich.

Se no final acreditaremos que Shakespeare era um fanfarrão e que o verdadeiro autor foi De Vere, pouco importa. O que importa é que Anônimo é um ótimo e divertido filme, ainda que um pouco longo demais e com uma trama para lá de complexa (desnecessariamente). Até o verdadeiro Shakespeare se divertiria com o resultado.

Anônimo (Anonymous, Reino Unido/Alemanha/EUA – 2011)
Direção: Roland Emmerich
Roteiro: John Orloff
Elenco: Rhys Ifans, Vanessa Redgrave, Sebastian Armesto, Rafe Spall, David Thewlis, Edward Hogg, Xavier Samuel, Sam Reid, Jamie Campbell Bower, Derek Jacobi
Duração: 130 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.