Crítica | Anotações de um Diretor

estrelas 4

Pouca gente conhece a história do “filme maldito” de Federico Fellini, A Viagem de Giuseppe Mastorna (também conhecido como A Viagem de G. Mastorna ou apenas A Viagem de Mastorna).

A película, com produção de Dino de Laurentiis e com Marcello Mastroianni no papel principal, contaria a história de um violoncelista que morre, mas segue com sua vida vida no “mundo-além”, iniciando a saga com um pouso forçado de seu avião em uma região escura, castigada por uma nevasca e próxima a uma Catedral. Esta aliás, foi a única cena de G. Mastorna que Fellini filmou, e que podemos ver exibida no documentário Anotações de um Diretor (1969).

Episódio do programa NBC Experiment in Television, Anotações de um Diretor mostra, além do maldito Mastorna, o processo de produção de Fellini para o seu próximo filme, Satyricon, mostrando visitas a lugares que possivelmente seriam cenários e audições para atores e atrizes coadjuvantes – em essência, porque é dito pelo narrador que dentre os trabalhadores do matadouro de Roma sairá ou um Senador ou o Imperador do filme.

Mas é tudo mentira. Ou não.

A graça de uma obra desse tipo é a incerteza, a confusão entre mentira e verdade, coisa que Fellini era mestre em fazer. Ele sempre se classificou como um grande mentiroso, um palhaço, um alguém que transitava em diversos mundos, verdadeiros ou não. E essa disponibilidade de mudança e disposição para criar dão à obra do diretor um caráter todo especial, o não engessamento ou a difícil classificação de seus filmes. É impossível enquadrar a obra de Fellini após Oito e Meio em apenas um gênero ou com apenas um caráter dramático, e Anotações de um Diretor expõe bem essa concepção, só que “do outro lado da câmera”.

Percebemos que existe cenas verdadeiras ou baseadas em coisas reais, mas o tempo inteiro o diretor brinca com o seu próprio processo de produção, coloca em xeque sua criatividade, assume seus medos e cria pelo menos três dimensões para o espectador: a visão dele, a visão-farsa que ele encena e a do documentário que apenas mostra as outras duas.

Nesse jogo de verdade e mentira, Fellini traz Mastorna à tona, encena um pouco do que realmente se passou entre ele e Mastroianni à época da produção, mostra o set de filmagens, os figurinos (de fato ele havia mandado fazer um monte de coisas para o filme – lembremos que as filmagens foram iniciadas mas nunca terminaram, primeiro, por uma complicação de saúde de Fellini, e depois, por uma série de eventos + as superstições que atormentavam o diretor e sobre a qual há inúmeras lendas) e racionaliza sobre o que seria o filme. É então que temos acesso à pequena sequência (ainda sem tratamento de pós-produção) do Mastorna-Mastroianni chegando ao seu purgatório, perdido, prestes a iniciar não uma jornada transcendental, mas numa versão da vida sob os olhos da morte.

O restante do documentário é puro nonsense felliniano, mas com uma intenção certa: falar de como o diretor produz um filme.

Anotações de um Diretor é um caleidoscópio de imagens raras, histórias, mentiras, sonhos e confissões de Fellini. Aquilo que ele não se permitiu falar abertamente ou expor com ele mesmo na tela em seus longas, ele se permite fazer neste (pseudo)documentário. Trata-se de uma obra essencial para cinéfilos e admiradores do diretor entenderem (ou melhor, especularem) sobre o mundo que o cercava e como ele conseguia ver alguma ordem, dar e transmitir algum sentido através de todo o caos de emoções que o cercava interna e externamente.

NBC Experiment in Television – Itália, 1969 
Episódio: Fellini: A Director’s Notebook
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Bernardino Zapponi
Elenco: Ennio Antonelli, Caterina Boratto, Marina Boratto, Pasqualino De Santis, Federico Fellini, Giulietta Masina, Marcello Mastroianni, Nino Rota, Alvaro Vitali
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.