Crítica | Antes da Meia-Noite

estrelas 4,5

Obs: Leia as críticas da Trilogia do “Antes” aqui.

Jesse e Celine andando e conversando. Através desta receita simples, quase banal, o diretor Richard Linklater (de Jovens, Loucos e Rebeldes e Waking Life) deu vida aos romances Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, dois filmes que narravam o seguimento de uma única história de amor: no primeiro filme, Jesse e Celine se conheciam casualmente num trem e decidem dar um passeio juntos pelas ruas da bela cidade de Viena para se conhecerem melhor, e ao final, dizem juras de amor e se perguntam se deveriam ver-se novamente ou aquele único dia juntos deveria permanecer apenas na memória? Fica a dúvida na mente do espectador.

No segundo filme, Jesse e Celine se reencontram 9 anos após seu primeiro encontro, mas desta vez no cenário da encantadora Paris, e em meio a extensos diálogos e longas caminhadas onde revelam novos detalhes sobre suas vidas, descobrem que aquela paixão nutrida num único dia permaneceu intacta. Se o primeiro filme deixava a dúvida sobre o reencontro, o segundo nos deixa a seguinte questão: afinal, Jesse e Celine ficaram juntos?

Outros nove anos se passam, e Antes da Meia-Noite nos dá a reposta: Jesse e Celine estão casados e com filhos, para o deleite dos corações apaixonados que torciam pela união definitiva do casal. Mas o mar de rosas termina por aí. Se o primeiro filme retratava o nasceu de um sentimento e o segundo filme dissecava a sobrevivência desta paixão, este novo capítulo nos traz a pertinente questão sobre as inevitáveis consequências sentidas com o passar do tempo e o desgaste que tal passagem pode trazer para um relacionamento.

Antes da Meia-Noite é, possivelmente, o filme mais duro e desconfortável da trilogia concebida por Linklater – e quem assistiu aos capítulos anteriores sabe que isto quer dizer muita coisa. Desmitificando a ideia plantada na sociedade que casamento significa felicidade eterna, o roteiro de Linklater em parceria com sua dupla de atores, Ethan Hawke e Julie Delpy, é maduro e realista, agressivo e claustrofóbico. A beleza das cidades de Viena e Paris é substituída pelo cenário trágico da Grécia, cercada de ruínas e um passado repleto de filosofias. Novos personagens de diferentes gerações surgem, mas Jesse e Celine parecem mais aprisionados do que nunca dentro de um relacionamento vítima da falência sentimental entre ambos. O filme é sobre o desgaste desta paixão e as tentativas desesperadoras de reavivar o fascínio de se ter um companheiro para a vida toda.

Muito do humor mordaz, tão presente nos filmes anteriores, é mantido aqui, mas carregando consigo uma acidez e veracidade que atinge, na mesma proporção, personagens e espectador. Repleto de ironias, Jesse e Celine se encontram cercados por casais que ou se encontram no início da experimentação da paixão, ou mantém o sentimento aceso mesmo após a partida de seu parceiro(a). São gerações diferentes, rostos diferentes, que relembram o passado de Jesse e Celine e parecem anunciar, com certo temor, o seu futuro. É como se o fim iminente estivesse sendo evocado para o casal. Após a longa cena do almoço, marcada por risadas e olhares apaixonados, o que fica é um gosto amargo quando Linklater, impiedosamente, deixa no ar a dúvida sobre a perenidade do amor.

Antes da Meia-Noite pode ser considerado o mais maduro da trilogia justamente por tocar numa questão que a maioria dos casais evitaria tocar até o último instante: “você ainda me ama?”. Como sobreviver a um relacionamento entre duas pessoas tão distintas entre si, donas de personalidades tão diferentes? O filme gera uma identificação quase que momentânea ao buscar discutir justamente a dinâmica entre dois rostos que ainda parecem estar descobrindo os traços um do outro, e que ainda tentam descobrir a si mesmos. Afinal, relacionamentos podem ser encarados como um eterno aprendizado sobre o outro e sobre nós mesmos. Limites são testados. O medo é inevitavelmente encarado. E a principal questão é: como sobreviver a isto?

A naturalidade que Linklater imprime a este discurso é assombrosa. Jesse e Celine podem ser aquele nosso casal de amigos, ou aquele casal sentado ao nosso lado no escuro do cinema. Ou eles também podem ser nós, que encaramos diretamente o desenrolar das discussões. O grau de realismo é inesperado e impactante, literalmente sem pudores, algo que pode ser visto no anúncio de um ato sexual interrompido por mais uma discussão entre o casal, onde Julie Delpy passeia pela tela com os seis à mostra, numa clara metáfora não apenas de sua vulnerabilidade, mas também da entrega, carnal e emocional, que um relacionamento duradouro exige.

Antes da Meia-Noite se encerra como um tapa na cara do público, obrigados a encarar questão tão reais que raramente nos permitimos refletir sobre elas. Apesar da crueza, da falta de glamour e da ausência de concessões, o filme se encerra e ainda assim é capaz de nos deixar com um enorme sorriso no rosto.

É a arte não imitando, mas retratando a vida como ela é. E não há nada mais difícil de se encarar do que a verdade nua e crua à nossa frente.

Antes da Meia-Noite (Before Midnight, EUA, 2013)
Roteiro
: Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke
Direção: Richard Linklater
Elenco: Julie Delpy, Ethan Hawke, Seamus Davey-Fitzpatrick, Ariane Labed, Athina Rachel Tsangari, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Walter Lassaly
Duração: 108 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.