Crítica | Antes de Watchmen – Minutemen # 1 de 6

Se você está lendo isso, provavelmente quer dizer que conhece muito bem Watchmen, a obra máxima do recluso e ranzinza escritor britânico de quadrinhos Alan Moore. Também deve saber que Watchmen é a graphic novel mais vendida de todos os tempos (ainda que, provavelmente, apenas metade dos compradores a tenham lido de verdade), além de ser uma obra excepcional, um verdadeiro divisor de águas em termos de quadrinhos de super-heróis.

Se você está lendo isso, além da característica acima, você provavelmente faz parte de um dos seguintes grupos bem polarizados: (1) os fãs que se dizem leais a Moore e que não aceitam a “antiética” exploração da criação do barbudo autor pela DC ou (2) os fãs que se dizem leais a Moore, mas que estão preparados para novas experiências com a tão famosa criação do escritor, mesmo que seja pelas mãos de terceiros.

Assim, se você está no primeiro grupo, sinto muito, paciência. A vida continua e você precisa aceitar isso. Convido-o a continuar lendo, mas sei que provavelmente não gostará dos comentários. Se, porém, você está no segundo grupo, terá uma grata surpresa.

Before Watchmen é outro projeto polêmico da DC, exatamente por mexer no vespeiro que é a intocável obra de Moore. No entanto, considerando o quanto Watchmen continua vendendo, fiquei até surpreso pela editora ter demorado tanto a embarcar nessa. Tratam-se, na verdade, de sete séries de quatro e de seis números mais um epílogo, que começaram a ser publicadas no dia 06 de junho passado, com o lançamento de Before Watchmen: Minutemen # 1. Cada revista será um prelúdio em relação à Watchmen, abordando um personagem de cada vez (Coruja II, Comediante, Espectral II, Rorschach, Ozymandias e Dr. Manhattan), com exceção de Minutemen que abordará o grupo original de vigilantes mascarados, na década de 40.

Há muito material na mitologia criada por Alan Moore e os prelúdios, apesar de não serem verdadeiramente “necessários” (eles nunca são na verdade, não é?), podem ter o potencial de boas estórias. E o time que a DC juntou para escrever e desenhar as estórias chama a atenção de qualquer um. Vejam só: Darwyn Cooke, Amanda Conner, Brian Azzarello, J.G. Jones, J. Michael Straczynski, Andy e Joe Kubert, Lee Bermejo, Jae Lee e até mesmo Len Wein, veterano de Watchmen, já que foi o editor da série original, além de ter co-criado personagens inesquecíveis como Monstro do Pântano e Wolverine.  A ideia não é mexer em Watchmen, mas sim tornar realidade o que Alan Moore deixa apenas entrever em sua magnus opus.

Há chance de sair coisa ruim? Sim, com certeza. Mas será que pode sair coisa boa, até mesmo excelente? Sim, com certeza também. No final das contas, tenho certeza que o saldo será positivo já que a obra de Alan Moore continuará intocada e guardada nas estantes e nos corações de seus leitores.

Vamos à crítica:

Minutemen # 1 conta as aventuras do primeiro grupo de vigilantes mascarados do universo estabelecido em Watchmen. Eles antecedem os heróis que vemos na obra de Moore, mas suas presenças são fortemente sentidas, citadas e usadas para avançar a trama. Afinal de contas, Comediante, cuja morte catalisa os acontecimentos de Watchmen, fazia parte do grupo e Coruja II e Espectral II foram influenciados pelos heróis homônimos da década de 40. Assim, os Minutemen originais são organicamente muito importantes à trama e suas aventuras têm grande apelo.

Com base nisso, o escritor e desenhista Darwyn Cooke, autor de A Nova Fronteira, usa um mecanismo muito interessante. Ele nos apresenta a Hollis Mason, o primeiro Coruja (Nite Owl), recém-aposentado, terminando de escrever Under the Hood (Sob o Capuz), sua biografia cujos trechos podemos ler em Watchmen.  A partir daí, Cook, usando Mason, passa a apresentar cada um dos componentes do grupo.

Não há, nesse primeiro número, qualquer estória propriamente dita. São sós duas ou três páginas dedicadas a cada herói, da maneira como Mason – que era policial – os viu ou ouviu dizer pela primeira vez. É, também, a primeira vez que nós, leitores, podemos ter um vislumbre de alguns nomes que mal são mencionados em Watchmen, como Silhouette e Hooded Justice.

E Cooke consegue escrever para quem nunca leu Watchmen, ao mesmo tempo em que agracia os fãs de longa data. É uma leitura simples, mas também densa, carregada de simbolismo retirado diretamente da fonte.

E a arte do autor combina perfeitamente com revistas de época. Seu traçado “meio antiquado” consegue ser ainda melhor do que em A Nova Fronteira e sua escolha da paleta de cores é belíssima, especialmente o contraste – nunca exagerado – entre as cores mudas e alguns detalhes de tonalidade mais forte. E cada um dos heróis tem seu próprio conjunto de cores, que os representam sempre que aparecem em cena. Aliás, já de início é possível ver a qualidade da estória, com uma bela sucessão de quatro quadros indo de um universo limitado, até algo sem limites. Ali está toda a essência de Watchmen e Cooke conseguiu capturá-la com maestria.

Apesar da quase que inexistente estória e de ser efetivamente um número de apresentação, introdução (o chamado número jump-in, em inglês, para o leitor que não conhece o que está por trás não se sentir perdido e, literalmente, pular para dentro da estória), Minutemen # 1 delineia um futuro promissor para a série Before Watchmen.

Ao final da estória e também espelhando o que vemos em Watchmen, há uma crônica de piratas intitulada Curse of the Crimson Corsair (algo como “A Maldição do Corsário Escarlate”), por Len Wein, obviamente inspirada em Tales of the Black Freighter. Como são só duas páginas por edição, ainda é difícil julgar a direção dessa estória e se ela servirá, assim como a original, como comentário à situação das estórias principais. Mas a arte é lindíssima, digna mesmo de estar junto com o desenho de Cooke em uma mesma revista.

O próximo lançamento é Before Watchmen: Silk Spectre # 1.

Mantenham-se ligados, pois voltarei com mais críticas sobre todas as séries.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.