Crítica | Antes de Watchmen – Minutemen # 2 e 3

Se estivéssemos fazendo essa análise daqui a alguns meses, quando a minissérie Before Watchmen (2012) já tivesse acabado, as observações sobre os tomos de Homens-Minuto dariam conta de que o início foi bastante “impessoal”, digamos assim, com a narração de Hollis Mason em seu Sob o Capuz guiando a apresentação dos heróis em 1939. Esse afastamento adotado por Darwyn Cooke na primeira edição é muito bem observado pelo meu colega Ritter Fan, que ressalta a importância dos Homens-Minuto para a série Watchmen (1986/7) e vê como algo importante a opção narrativa adotada por Cook na abertura, algo que também concordo plenamente.

Ao apresentar os Homens-Minuto em seu contexto pessoal, social e histórico, o autor consegue livrar-se dos problemas introdutórios que futuramente poderiam ocorrer e já parte na segunda edição para uma abordagem mais madura, também centrada em Sob o Capuz, mas não trabalhada com o didatismo da abertura e sim como mote dramático para a história.

Ambientado em 1962, o roteiro retoma os acontecimentos de 1939 e 1940, apontando de maneira muito pertinente as questões sociais ligadas à Segunda Guerra Mundial. Embora esse lado histórico não seja posto de maneira tão escancarada como faz Azzarello no terrível prelúdio do Comediante, a ambientação histórica é realizada, porém, de maneira bem dosada. Temos então as primeiras questões dos heróis estadunidenses que após um recrutamento que ganha ares humorísticos no roteiro, partem para sua primeira aventura juntos.

Dois lados importantes podem ser destacados aqui. O primeiro deles é a construção da imagem e a estratégia de marketing empreendida por Espectral e Capitão Metrópole, os recrutadores do grupo. Essa imagem a ser construída de maneira sólida e politicamente correta é uma tarefa tão hercúlea quanto o combate ao crime em parceria, uma vez que se trata de um grupo com uma grande quantidade de personalidades diferentes, origens diferentes e crenças ou objetivos diferentes. O segundo ponto é o modo como os Homens-Minuto ganham a sua primeira grande publicidade. Não vou dar spoilers do acontecimento, mas Darwyn Cooke foi muito feliz em trazer do original a dubiedade do heroísmo ou vigilantismo, e ao invés de assentir para as boas ações e deixar as mentiras de lado, dispõe-nas lado a lado na prateleira. O resultado é uma leitura bastante crítica sobre os tão idolatrados “pontapés iniciais” do heroísmo na terra do Tio Sam.

Darwyn Cooke ainda tem tempo de apontar os impasses surgidos a partir da burocratização de um grupo de pessoas. Heróis que antes tinham plena liberdade para agir são convidados a observar uma agenda com dias, horários e locais de ação. A franca estranheza das personagens também é partilhada pelo leitor, assim como as três colunas narrativas que dão gancho para o arco da revista e que serão melhor trabalhadas no terceiro volume: a amizade entre Coruja e Silhouette, a pedofilia e a homossexualidade.

Nesse terceiro volume Darwyn Cooke faz um incrível trabalho ao desmascarar os heróis. A ambiência inicial também é no ano de 1962, e tem como ponto de partida o fio das outras revistas, o polêmico livro Sob o Capuz escrito por Hollis Mason. Voltando para 1940, temos de cara a discussão dos homens do grupo para a expulsão ou não do Comediante após o estupro a Espectral. Embora tratando-se de um garoto (Blake nasceu em 1924, então tinha 16 anos em 1940), sua personalidade já dava indícios de decadência, embora isso só tenha acontecido mesmo anos mais tarde, especialmente quando quando de sua passagem pelos escalões do governo e pelo Vietnã. Sua expulsão dos Homens-Minuto talvez tenha sido a linha divisória entre os caminhos que ele trilharia a partir de então.

Nesse volume bastante ousado, Darwyn Cooke aborda os casos gays entre os Homens-Minuto (Silhouette, Justiça Encapuzada e Capitão Metrópole), a homofobia de origem cristã de Dollar Bill, a disputa egoica entre Espectral e Silhouette e a forte amizade nascida entre Silhouette e Coruja. Eu realmente acredito que Darwyn Cooke pode criar algo diferente de todos os outros prelúdios, principalmente porque já mostrou que sabe manter a essência das personagens originais e contextualizá-la em uma outra época.

Tal qual o roteiro, a arte de Darwyn Cooke obedece as regras dramáticas da narrativa. Tudo aparece quando é essencialmente necessário e o corte do supérfluo é a primeira coisa que salta às vistas. O único erro do artista são as lutas à noite, especialmente a do segundo volume. Elas destoam da proposta do autor e da arte geral da obra mas absolutamente nada que diminua drasticamente a qualidade do trabalho.

A duas edições de finalizar esse capítulo da minissérie, Darwyn Cooke tem feito um trabalho realmente admirável. Esperamos que siga assim até o final e certamente terá entregue algo a ser lembrado por todos os fãs.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.