Crítica | Antes de Watchmen: Minutemen # 4 a 6

Darwyn Cooke acaba de encerrar sua brilhante participação dupla no polêmico projeto Antes de Watchmen da DC Comics. Ele havia embarcado como roteirista na série da Espectral, e foi não só o roteirista como, também, o desenhista da primeira e talvez mais importante série do projeto, Antes de Watchmen: Minutemen, que conta em detalhes toda a sujeira por trás do super grupo da década de quarenta que é parte essencial do trabalho de Alan Moore em sua seminal obra Watchmen.

Já tratei do primeiro número, que faz uma espécie de resumo dos integrantes do grupo dos Homens-Minuto e meu colega Luiz Santiago tratou dos números dois e três e deixou claro que a trama que Cooke cozinha (trocadilho infame à vista!) vai às entranhas do grupo, não deixando ninguém de fora e não perdoando nenhuma ação.

Before Watchmen Minutemen 4 cover

E toda a estrutura daquilo que Cooke nos conta tem o livro Sob o Capuz (infelizmente, o trocadilho Under the Hood, que significa tanto “sob o capuz” como “sob o capô”, já que Hollis Mason aposenta-se como mecânico de automóveis, acaba se perdendo na tradução) como premissa. Desde o começo, vemos Hollis Mason, já na década de 60, depois do desmantelamento dos Homens-Minuto, tentando convencer os colegas remanescentes a deixá-lo publicar a biografia super-heroística do grupo. Acontece que, em seu manuscrito, Mason não parece deixar pedra sob pedra e Cooke trabalha sua narrativa emflashbacks para diversos momentos dos anos 40 exatamente para mostrar o que de tão terrível Mason escreveu.

A eficiência do que o autor escreve depende muito do mistério que ele cria e, nesse sentido, seu trabalho é absolutamente impecável. Apesar de sempre vermos a ação a partir dos olhos de Mason tanto aposentado como na ativa, o fato é que os seis números que compõem a série conseguem dar atenção a todos os componentes do grupo de maneira razoavelmente igualitária.

Tendo já tratado da homossexualidade do Capitão Metrópole, Justiça Encapuzada e Silhouette, bem como da fraqueza psicológica de Mariposa e da jogada de marketing que a primeira Espectral representa, Darwyn Cooke, no quarto número, começa a se aprofundar  na podridão do grupo. E o primeiro aspecto que aborda é o brutal assassinato de Silhouette e de sua amante Gretchen, que vemos apenas de relance na série de Alan Moore.

Hollis Mason, que no número anterior demonstra sentimentos pela bela mulher, sentimentos esses, claro, que não são correspondidos no mesmo nível, tem que lutar contra a profunda tristeza que sente, o que acaba levando-o a prometer que prosseguirá com a investigação que ela deixara em aberto: o desaparecimento de diversas crianças, algo que já havia sido tocado no número anterior. Vemos, assim, a amizade de Mason e Byron Lewis (identidade secreta do alcoólatra, mas brilhante Mariposa) florescer tendo esse objetivo em comum.

Os dois, junto com os demais Homens-Minuto, tentam seguir as pistas do assassino de Silhouette, mas vemos um improvável integrante do grupo saindo na frente e resolvendo a questão da maneira mais terrível possível. Há um sentimento de alívio ao mesmo tempo de desgosto que Cooke deixa muito evidente na edição. É o início da queda dos Homens-Minuto.

E quem volta também é o Comediante, tratado por Cooke de maneira muito mais crível do que Brian Azzarello na própria série do anti-herói. Cooke nos brinda com um flashback da primeira missão de Edward Blake na Segunda Guerra Mundial, onde aprendemos exatamente em que momento sua mente já distorcida perde completamente a capacidade de distinguir o certo do errado.

Desacreditados e quase esquecidos, os Homens-Minuto ganham um sopro de vida no quinto número, quando Cooke os coloca na mais importante missão de suas carreiras: impedir que uma bomba suja seja detonada em Nova Iorque. Bem sucedido, o grupo, porém, pelas circunstâncias do caso, não pode levar para casa os louros e os Homens-Minuto se desmantelam. Esse episódio é completamente inédito na história do grupo conforme tratado por Alan Moore e parece um pouco forçado demais dentro da estrutura narrativa que Cooke idealizou.

Mas ele precisava de um catalisador para o fim do grupo e, no lugar de usar a tragédia, Cooke usou o sucesso absoluto. A ironia fica evidente, o que nos faz perdoar a narrativa um pouco dissonante que ele conta.

Acontece que o Coruja não desiste do caso deixado em aberto por Silhouette e, em uma chocante revelação, descobrimos quem é o terrível sequestrador , molestador e assassino de crianças. Não é para os fracos!

Só que há mais um número inteiro para Cooke nos pregar peças e é o que ele faz no sexto e derradeiro número da série, um número absolutamente irretocável e que fecha com chave de ouro toda a saga dos Homens-Minuto, mas que deixará muita gente coçando a cabeça e outros tantos enfurecidos pelo que o autor faz com o amado grupo.

Falar muito é estragar as surpresas, mas basta dizer que o número abre com o Coruja sendo homenageado pela cidade, por ter resolvido o caso das crianças desaparecidas. Mas a missão não acabou de verdade, já que o vilão não foi capturado e, então, Coruja e Mariposa partem para a derradeira missão. E tudo poderia acabar em seu apoteótico final, não é mesmo? Ele traz muitos sorrisos para nossos rostos e, aqueles que não gostam de tragédia, ficariam muito felizes.

E  é nesse momento que Cooke entra, pessoalmente manipulando o personagem do Comediante em um epílogo de tirar o fôlego e capaz arrancar uma lágrima furtiva pelo pobre Hollis Mason. Afinal de contas, o livro Sob o Capuz estava sofrendo enormes resistências de todos os membros do grupo para ser publicado na década de 60, não é mesmo? Pois bem, descobrimos o verdadeiro porquê nesse soco no estômago de epílogo que Cooke escreve, encerrando sua magistral participação na série.

Sobre a arte, não há muito mais para falar que eu e meu colega Luiz Santiago já não tenhamos dito em críticas anteriores. Cooke desenha aquilo que é essencial, trazendo para primeiro plano o que precisamos ver e ignorando todo o resto. Além disso, ele sabe manipular a estrutura de quadros quase tão bem como o próprio Dave Gibbons no trabalho original. Na verdade, “quase” não. Tão bem quanto.

O prelúdio Antes de Watchmen: Minutemen é o verdadeiro sucessor (ou seria predecessor?) da obra máxima de Alan Moore e, tenho certeza, será lembrado na  mais alta estima por quem enveredar pelos tortuosos – e torturantes – caminhos que Darwyn Cooke nos leva.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.