Crítica | Antes de Watchmen – Ozymandias # 1 e 2 de 6

Sei que estou atrasado nas críticas de Before Watchmen, mas prometo que, em breve, todas as séries estarão em dia (leiam a crítica de Before Watchmen: Minutemen # 1). Para os que estão por fora, Before Watchmen é uma ousada tentativa da DC de voltar ao universo da idolatrada HQ Watchmen, de Alan Moore, sem qualquer interferência do autor, que, como de costume, soltou os cachorros contra essa iniciativa. No entanto, o mundo dos personagens criados por Moore é tão vasto e bem trabalhado que os prelúdios propostos podem ser realmente interessantes.

Ozymandias, para quem não se lembra, é um multimilionário autointitulado “o homem mais inteligente do mundo” e personagem-chave na trama brilhantemente costurada por Moore. Ao mesmo tempo em que estava intrigado pelas possibilidades, tinha receio que qualquer mexida nele poderia ser considerada sacrilégio. No entanto, como o roteiro ficara nas mãos do veteraníssimo Len Wein, certa tranquilidade tomou conta de mim. Wein, vale lembrar, é o criador de fantásticos personagens como Monstro do Pântano da DC e Wolverine da Marvel. Além disso, é co-autor dos X-Men Colossus, Tempestade e Noturno. Como se esse pedigree todo não bastasse, o escritor foi, ainda, editor da própria minissérie original de Watchmen, em 1986. Dificilmente a DC poderia ter encontrado um nome melhor para escrever o complicado Ozymandias.

E o roteiro do primeiro número não desaponta. Len Wein vai até a infância de Adrian Veidt para mostrar, em detalhes, todas as motivações que formaram o caráter do personagem e o que deflagra sua transformação em Ozymandias. Wein acaba criando algo que, em linhas gerais, lembra uma elaborada e talvez mais ambiciosa origem de Batman. A narrativa é toda em primeira pessoa e, sem nunca esquecer as fundações erigidas por Alan Moore para o personagem, o roteirista cria algo novo e inteligente, além de dar contornos ainda mais ambíguos às ações futuras de Veidt.

E é nesse ponto, exatamente, que jazia o perigo. Hoje, é muito comum que todo tipo de personagem tenha, invariavelmente, uma excelente justificativa para fazer o que faz em uma HQ, seja ele bom ou mau. O Ozymandias de Alan Moore é tudo menos tão facilmente classificável como uma coisa ou outra, diferente de Rorschach, por exemplo. Assim, temia que um prelúdio sobre o personagem simplesmente passasse a ser um veículo para justificar e, portanto, abrandar o que ele faz em Watchmen. Mas Len Wein resistiu à tentação de seguir o caminho mais fácil e mantém os necessários tons de cinza da personalidade de Veidt, acrescentando, ainda, outros elementos dentro do mesmo raciocínio de Moore.

Sim, sem dúvida que uma juventude complicada e um intelecto extremamente avantajado, somados à acontecimentos trágicos, pode dar um ar de “saída fácil” para tudo que Ozymandias viria a fazer no futuro mas esses elementos já haviam sido abordados por Moore, ainda que perfunctoriamente (sem nenhum demérito) e Wein apenas constrói sobre as bases sólidas do autor original. Assim, o personagem não tem sua personalidade traída quando vemos os detalhes de sua origem.

Como Ozymandias é uma minissérie de apenas seis números de 26 páginas cada, Wein teve que correr com a narrativa, o que acaba sendo uma pena já que o material contido no primeiro número poderia ser facilmente estendido e ampliado para três números. As exigências editoriais, porém, forçam Wein a já nos apresentar um Ozymandias completo no segundo número da série.

No entanto, o segundo capítulo, que segue fluidamente o primeiro, sem saltos temporais, exagera na exposição, retirando o espaço para o leitor usar sua imaginação. Tudo acaba sendo muito explicado e, como Veidt está no auge de sua forma, tudo o que fala – em narrativa do “futuro” – soa arrogante demais, alguns momentos ao ponto do ridículo. Sabemos que Ozymandias, em termos de inteligência compara-se a Batman e, em termos de habilidades físicas, é um Capitão América (sem o soro do super soldado, claro), mas essa conjunção de qualidades acaba facilitando a hipérbole e Wein tropeça um pouco.

Mas os soluços no roteiro são mais do que compensados pela arte de Jae Lee. Lee, desenhista de revistas como a série A Torre Negra da Marvel (baseada nos livros de Stephen King) é um artista de mão cheia cujos desenhos, confesso, exigem um pouco de adaptação. Ele costuma desenhar com traços esguios e cheios de estilo e, enquanto isso pode não funcionar muito bem com qualquer personagem, no caso de Ozymandias foi uma escolha certeira. Ozymandias se acha um semideus ou algo muito próximo disso e o desenho de Lee empresta um ar de uma nobreza distante ao personagem que chega a dar calafrios.

E as splash pages que ele apresenta são poucas, mas muito eficientes em demonstrar ação. Especial destaque deve ser dado à invasão de Ozymandias no complexo do chefão das drogas de Nova Iorque e à luta com seus capangas. Nesse momento, a textura complexa dos desenhos de Lee desaparece e, em seu lugar, vemos um jogo de sombras preto e amarelo que ilustra muito bem (talvez bem demais pois esse é um dos pecados do roteiro de Wein) as habilidades quase sobre-humanas do herói. É Lee mostrando toda sua flexibilidade e criatividade.

Before Watchmen: Ozymandias é uma leitura agradável e dinâmica que consegue enriquecer em muito a mitologia de Watchmen. Certamente funciona como uma forma benigna de visitarmos novamente o universo criado por Alan Moore.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.