Crítica | Antes de Watchmen: Rorschach # 3 e 4 (de 4)

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Quando comecei a ler as séries do projeto da DC Antes de Watchmen, estava convicto do óbvio: algumas histórias seriam excepcionais, outras ok e outras ruins. O que eu não esperava era que o mais querido dos heróis criados por Alan Moore e um dos melhores escritores atuais de quadrinhos fizessem, em conjunto, uma das mais inábeis linhas narrativas de todas.

Até comecei esperançoso quando peguei Rorschach # 1 para ler. Não foi um começo brilhante por parte de Brian Azzarello, mas o trabalho detalhado de Lee Bermejo me fisgou. No número seguinte, Azzarello me surpreendeu ao não dar um salto temporal na história. O primeiro número nos apresenta Rorschach, ao final, quase morto de tanta pancada e o segundo número começa exatamente assim, com a garçonete do Gunga Diner ajudando nosso herói a se recuperar.

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No terceiro número, sem grandes surpresas, Azzarello parte para a vingança de Rorschach contra o vilão Rawhead, um ser enorme com o rosto todo queimado. No entanto, Rawhead é, para começar, um vilão raso, escrito com preguiça e típico da Era de Ouro dos quadrinhos (se a Era de Ouro tivesse sido uma era violenta). Com uma roupa de John Travolta em Embalos de Sábado à Noite, a figura imponente chega a ficar ridícula, mas o que macula mesmo a revista é o plano vagabundo e mal ajambrado de Rorschach: ele tira a máscara e fica que nem um mendigo por perto das prostitutas comandadas por Rawhead até que ele apareça. Não satisfeito, porém, com essa simplicidade, Azzarello ainda fabrica um tenebroso blecaute da cidade de Nova Iorque completamente sem sentido dentro da narrativa que estava sendo costurada. Com isso, Rorschach se sente livre para atacar e, continuando seu “plano sem planejamento”, parte para a pancadaria.

Se isso não fosse o suficiente, Azzarello ainda faz uma gracinha e coloca Travis Bickle como motorista do táxi que Rorschach pega. Não se lembram quem é Bickle? Oras, é o icônico personagem de Robert de Niro emTaxi Driver. Genial, não é mesmo?

Só que não.

Azzarello, com isso, demonstra que primeiro imaginou que “seria bacana ter Bickle na revista” e, depois, construiu a trama em volta, de maneira a dar um ar natural para o acontecimento. No entanto, o diálogo que Rorschach, mascarado, tem com Bickle em nada funciona para impulsionar a trama. Sua relevância é zero, além do fator “ooh”, “aah” que o autor tenta alcançar.

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Quando chega o quarto número, com Rorschach tendo que mais uma vez escapar de Rawhead, a ação acontece em grande parte sem diálogo e com o uso de deus ex machina somente. Rorschach nada faz, mas, magicamente, todos os problemas deles se resolvem e isso traindo o pouco de profundidade que Azzarello tinha emprestado a seus personagens.

Como se eu já não tivesse listado todos os problemas que uma HQ pode ter, os leitores mais atentos notarão que, na crítica do primeiro número, mencionei que havia ainda uma questão envolvendo um serial killerchamado “O Bardo”. Pois é. Essa trama paralela ainda está lá. No entanto, ela é tão simplória, tão cheia de coincidências e tão mal escrita, que ela só serve mesmo para terminar de estragar o pouco que Azzarello conseguiu alcançar ao escrever sobre o demente herói mascarado de Alan Moore. No lugar de tratar do lado psicológico do personagem, o autor trouxe à tona apenas suas características mais, digamos, “super-heroísticas” e, mesmo assim, ainda não produziu algo eficiente, gostoso de se ler em um nível mais básico. Em termos de narrativa, Rorschach é uma perda de tempo, infelizmente.

Já no quesito arte, o trabalho de Lee Bermejo merece uma comenda. Mas que coisa mais bonita! Com seu estilo realista, o desenhista nos apresenta uma Nova Iorque em que podemos acreditar até o ponto de cheirar o esgoto e o sangue no ar. Não só os personagens são detalhados, como seu trabalho no ambiente em que são mostrados é magistral. Reparem só nos prédios durante o blecaute. Tudo se transforma em uma grande favela, personificando, no desenho, o tema desesperançoso do discurso canhestro de Rorschach. E, sem usar páginas duplas, Bermejo trabalha a distribuição de quadros de modo a permitir uma grande fluidez narrativa que é particularmente bem exemplificada pela fuga de Rorschach do quartel general de Rawhead com a ajuda de um tigre (sim, de um tigre!). São, na verdade, duas tramas paralelas, com revezamento de quadros, que funcionam sem parecerem forçados.

Uma pena que a arte seja, em última análise, completamente vazia já que o texto que a acompanha não chega aos pés do trabalho costumeiro de Azzarello.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.