Crítica | Ao Cair da Noite

estrelas 3

Em 1956, Roger Vadim chocou a débil sociedade dos “bons costumes” com o tremendo …E Deus Criou a Mulher, filme cujo papel principal exibia a beleza e a sensualidade da inesquecível jovem Brigitte Bardot. Dois anos depois, o diretor apresentou mais um filme sensual, porém, com uma trama fraquíssima que misturava beleza imagética e metros e metros de película descartável. O filme em questão é Ao Cair da Noite, produção franco-italiana filmada em Málaga e Torremolinos, terras andaluzas que enchem os olhos do espectador e conseguem ao menos salvar o cenário do filme como algo realmente muito bom.

Úrsula, após sair do convento, hospeda-se na casa de seus tios. No dia de sua chegada, presencia uma briga entre um jovem rebelde e o patriarca da casa e chega a intervir no último momento para que o velho não mate o moço por quem ela imediatamente se apaixona. O cotidiano na pequena vila campesina levará a jovem a conhecer a fundo o mundo de amor e ódio que a cerca e suas escolhas, a partir de então, vão mudar para sempre sua vida. Essa trama central de Ao Cair da Noite é um pequeno suspense que se desenvolve regularmente a cada tropeço que dá durante os seus 93 minutos de duração.

O trabalho realizado em torno da sensualidade de Brigitte Bardot consegue ganhar o espectador. O sexo é posto como premissa dramática e todo o roteiro (adaptação do romance de D’Albert Vidalie) segue motivos, frustrações, fetiches e desejos sexuais. A presença de Bardot já dá ao filme uma atmosfera libidinosa e, mesmo que sua atuação beire o excêntrico bipolar, o espectador é brindado com isoladas cenas de pura delicadeza e suavidade de interpretação, embora lamente que esses momentos durem tão pouco. A mesma linha de atuação segue todo o elenco e talvez apenas Fernando Rey (o tio de Úrsula, personagem de Bardot) esteja em boa performance todo o tempo.

Particularmente não considero Roger Vadim um grande diretor, mas admiro sua incrível capacidade de usar o cenário ou a topografia das externas ao seu favor e isso nos aparece em Ao Cair da Noite através dos incríveis ângulos, planos e fotografia do experiente Armand Thirard. Na maior parte do filme, a exploração do território andaluz e dos próprios elementos postos em cena constituem louváveis momentos de epifania, sendo o mais belo deles a sequência do moinho, onde absolutamente tudo fornecido pelo cenário ganha significação: da sombra produzida pelas pás do moinho até o trânsito de Bardot e Boyd pelo cenário, mais a música que acompanha o início e coroa o final da sequência. O fortíssimo colorido Eastmancolor deu ao filme uma paleta quente misturada ao ocre, azul e verde, resultando num visual belo, porém irreal; não que isso seja ruim, mas a saturação da cor parece fazer-nos perceber a irrealidade do mundo apresentado do outro lado da tela, algo que, cinematograficamente, é uma anomalia. Porém, em meio a tão ampla criatividade de uso da câmera, nos deparamos com tomadas imperdoáveis como o terrível contra-plongée do trem, ao início do filme.

Georges Auric é quem assina a trilha sonora e mais uma vez ouvimos a genialidade de sua música imponente. Se lembrarmos um pouco das outras partituras do compositor para o cinema (A Bela e a Fera e Orfeu, de Cocteau; O Salário do Medo, de Clouzot; A Princesa e o Plebeu, de Wyler ou Lola Montès, de Ophüls) veremos que o caráter sinfônico e propositalmente cênico (vindo de sua larga experiência com o balé) permanece também em Ao Cair da Noite, mas completamente revestido da sonoridade flamenca, que inclui em cena a execução de uma dança com castanholas e uma rondeña executada num arrebatador pôr-do-sol defronte ao mar.

É por ter elementos técnicos tão bons que a dispersa direção de Vadim e a fraca adaptação do romance de Vidalie não tornam Ao Cair da Noite um filme de fato ruim. A despeito dos erros cometidos ao longo da obra, ficamos com um filme menor dotado de grande beleza e com a presença seminua de uma das maiores estrelas do cinema. Dos figurinos à direção de arte, vemos estender-se um leque de boas criações, que apesar de tudo, garantem um suspense e um erotismo deliciosos. Ao Cair da Noite é daqueles longas que ninguém gosta, de fato, do que assistiu, mas todo mundo deleita-se com o que vê enquanto assiste.

Ao Cair da Noite (Les bijoutiers du clair de lune) – França, Itália, 1958
Direção: Roger Vadim
Roteiro: Roger Vadim e Jacques Rémy
Elenco: Brigitte Bardot, Alida Valli, Stephen Boyd, José Nieto, Fernando Rey, Maruchi Fresno, Adriano Dominguez
Duração: 95min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.