Crítica | Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu

estrelas 4,5

A comédia sempre foi um dos gêneros mais complicados de se trabalhar no cinema, uma vez que, enquanto uma piada é engraçada para alguns, não será para outros, sem contar que algumas podem soar preconceituosas. Devido a essa dificuldade narrativa, muitas vezes os produtores buscam apostar cada vez mais no mesmo, para assim não correrem riscos na bilheteria. Por isso, se já é difícil fazer bons filmes humorísticos utilizando recursos aprovados pelo público, imagine então criando algo totalmente novo? É justamente isso que Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu consegue, reinventar seu próprio gênero e adquirir certa unanimidade frente ao público e crítica, isso numa época onde paródias eram algo raro.

O filme mostra Ted Striker (Robert Hays), ex-combatente de guerra, que após a tripulação passar mal por causa da comida contaminada, é forçado a assumir os controles de um avião com a ajuda de sua namorada Elaine (Julie Hagerty), que é aeromoça. Juntos, eles vão tentar salvar os passageiros e terminar o vôo com sucesso, mas existe um problema: ele é atormentado por traumas do passado.

A obra inicia parodiando o filme Tubarão (1975), numa cena com um avião voando em ziguezague pelas nuvens apenas com a cauda de fora, enquanto toca a trilha sonora clássica composta por John Willians. Pode parecer um momento bobo, mas é muito eficiente em estabelecer o tom da trama, que é parodiar blockbusters e criar momentos totalmente incomuns, como o retratado.

No que diz respeito ao humor, o destaque está em como o roteiro é hábil em criar situações absurdas, por exemplo, mostrando crianças agindo como adultos, velhinhas falando gírias para negros ou um boneco inflável dirigindo o avião. Mas a maior graça está no fato de os personagens encararem esses momentos com seriedade total. Por isso, vale destacar a habilidade incrível do elenco em manter frieza nos momentos cômicos, principalmente na figura do gênio do humor Leslie Nielsen. Dono de um carisma imenso, ele consegue arrancar risadas mesmo com o semblante sempre sério.

A obra utiliza também outros recursos humorísticos, como o humor apelativo, com algumas referências sexuais; o humor literal, principalmente nos diálogos que ocorrem na torre de comando; e até mesmo o humor pastelão, exemplificado na histórica cena onde uma mulher fica desesperada e o médico tenta acalmá-la à base de tapas. E quem for cinéfilo, irá se divertir ainda mais, já que além do filme brincar com outros trabalhos, como Os Embalos de Sábado a Noite, Rambo e A Um Passo da Eternidade, ele também destaca alguns clichês engraçados do gênero de catástrofe.

O longa é dirigido de pelo famoso grupo ZAZ, formado por Jim Abrahams, Jerry Zucker e David Zucker, responsáveis por comandar algumas das melhores comédias dos anos 80, como Top Secret! e Corra que a Polícia Vem Aí. Eles conduzem a história de forma impecável, primeiro por terem escrito um roteiro genial, depois, pela eficiência na forma como construíram o filme.

A maioria das cenas dentro do avião são filmadas em planos médios longos (da cintura pra cima), para que prestemos atenção  apenas no que está sendo dito, sem se importar com o entorno, valorizando as piadas. Porém, quando os diretores querem que vejamos uma informação a mais daí sim abrem o plano, como na cena em que o médico está explicando algo enquanto o piloto passa mal. Ali o humor não está no diálogo, mas no quão inusitada é a situação. Uma construção simples, mas eficiente, sem nada que tire a atenção do público para aquilo que realmente importa: os diálogos.

A montagem é dinâmica, já que intercala o que ocorre na cabine de comando com a situação dos passageiros. Além disso, são apresentadas várias gags seguidas, parecidas com quadros de um programa humorístico, o que não deixa a história cair na monotonia. E como quase todas as piadas funcionam, o filme é um dos poucos que conseguem ser engraçados do início ao fim.

Talvez nos tempos de hoje esse filme não fosse bem recebido, devido à onda do politicamente correto (não que eu a considere errada). Mas o fato é que Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu é uma obra histórica que marcou época e revolucionou seu gênero devido às novidades de abordagem que trouxe para o cinema. Por influência desse sucesso, filmes de paródia até hoje são feitos aos montes, mas poucos deles entendem a verdadeira lição que o grupo ZAZ ensinou: a graça está nas situações mais inusitadas que podem ocorrer no dia a dia. Parodiar filmes famosos é só uma base para construir isso. 

Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (Airplane!) — EUA, 1980
Direção: Jim Abrahams, Jerry Zucker e David Zucker
Roteiro: Jim Abrahams, Jerry Zucker e David Zucker
Elenco: Robert Heys, Julie Hagerty, Leslie Nielsen, Peter Graves, Lloyd Bridges, Jonathan Banks, Kareem Abdul-Jabbar, David Zucker, Lorna Patterson, Barbara Billingsley, Robert Stack, Stephen Stucker e Lee Terry.
Duração: 88 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.