Crítica | Apóstolo

Gareth Evans, conhecido por ter escrito e dirigido os dois Operação Invasão (The Raid), troca as artes marciais e o espaço confinado por um terror de época com atmosfera lúgubre e pesada que bebe fortemente do clássico setentista O Homem de Palha (não confundir com a refilmagem tenebrosa de 2006 estrelada por Nicolas Cage) com um pouco do tipo de mitologia que encontramos em Lost. O resultado é uma obra gutural, de cunho sobrenatural que, assim como os filmes que o fizeram famoso, coloca um homem lutando contra tudo e todos, ainda que de maneira completamente diferente do que nos acostumamos.

Esse homem é Thomas Richardson (Dan Stevens), o irmão dado como morto de uma mulher sequestrada por um culto sediado em uma ilha na costa galesa da Inglaterra no começo do século XX. Com o dinheiro do resgate em mãos, ele tem a missão primeiro de infiltrar-se no culto para descobrir se sua irmã ainda está viva e, então, pagar o valor em troca dela. Claro que nada é tão simples, a começar pelo próprio Thomas, um homem de passado terrível e viciado em drogas que tem que lutar contra seus próprios demônios. Sua âncora é sua irmã e o roteiro econômico de Evans nos faz embarcar em sua jornada sem antes se preocupar em estabelecer o personagem com textos expositivos. Vemos e sentimos, muito mais do que recebemos uma explicação detalhada, com sua construção vindo vagarosamente, em retrospecto, ao longo da narrativa.

Mas a própria ilha remota é uma personagem terrível e tem seus segredos sobrenaturais. O culto, baseado em uma suposta deusa protetora do local, é capitaneado por Malcolm (Michael Sheen), um dos três primeiros a chegar ali depois de um naufrágio e que carrega a “palavra”. Seus amigos fundadores, Frank (Paul Higgins) e Quinn (Mark Lewis Jones), apesar de começarem caracterizados apenas como os braços fortes do local, que impõem a rígida rotina insular que conta com toque de recolher, missas matutinas e um terrível ritual noturno de oferendas de arrepiar os cabelos da nuca, vão, aos poucos, saindo dessa fôrma restrita e ganhando outras e mais interessantes dimensões.

Só que Evans não tem pressa. Nenhuma pressa. E isso pode deixar os mais afobados por ação, sangue e tripas inquietos no sofá. É que o diretor e roteirista, muito diferente de seus dois filmes de pancadaria incessante, emprega quase a metade do tempo de projeção na construção atmosférica do lugar perdido para onde Thomas vai. Grandes tomadas aéreas, planos gerais em oposição a planos detalhe notadamente no protagonista, algumas sequências noturnas com fotografia exemplar, com destaque para o plongée no bote onde dois jovens amantes fazem amor, vão, muito vagarosamente, estabelecendo cada detalhe dessa cada vez mais claustrofóbica situação causada pela cegueira da fé, um sub-texto que perpassa e está subjacente em cada segundo do roteiro. No entanto, essa lentidão é muito bem trabalhada, gerando curiosidade e construindo uma mitologia crível que, nessa metade inicial, fica na vizinhança de uma película de suspense, não exatamente de terror.

É na segunda metade que vemos o passo apertar e o lado sobrenatural começa a ficar mais evidente e constante. Se a conclusão pode não agradar a todos, ela, pelo menos para mim, fez todo sentido, como um “ciclo da vida” pesado e devastador, basicamente o exato oposto do que vemos em O Rei Leão, por assim dizer. Os sustos – se existentes, pois confesso que sou um tanto imune a isso em filmes – não se baseiam nos jump scares, mas sim são consequências sobrenaturalmente lógicas do que Evans tenta passar sobre sua ilha. Eles funcionam, levam aflição ao espectador e trazem uma noção de urgência para a narrativa, ainda que os grandes vilões, como nos melhores filmes de horror, sejam mesmo da boa e velha raça humana, com uma interessante regressão do destaque de Malcolm, para uma progressão do destaque de Quinn.

Mas Apóstolo não funcionaria de verdade não fosse a reconstrução de época absolutamente genuína, com figurinos detalhados que espelham o desespero da ilha perdida e o sacrifício dos crentes ali presentes. Da mesma maneira, os cenários externos, praticamente um vilarejo de faroeste de uma rua só, são de se aplaudir no cuidado e verossimilhança de sua construção, da mesma maneira que seus interiores, como o assustador alojamento onde Thomas e vários outros vivem (aquele corredor comprido é O Iluminado todinho!) e o “armazém” ao final do alçapão, evocam o lado fantasmagórico de maneira muito sólida e convincente. E, claro, como não falar da atuação de Dan Stevens que vive seu Thomas com uma intensidade estonteante e uma força que transforma cada um de seus olhares em adagas mortais. De certa maneira, é como ver Nicolas Cage (já que o mencionei negativamente no começo) em seus melhores e mais enlouquecidos momentos.

Evans, no entanto, faz uso de conveniências narrativas que mancham um pouco a virtude de sua obra. A primeira delas é uma constante ao longo da película: as habilidades de Thomas em praticamente tudo, quase como se ele fosse um Ethan Hunt do começo do século XX (só que sem as máscaras e perseguições de carro e moto…). Isso é algo que simplesmente temos que aceitar e ponto final, talvez como parte do passado do personagem que, apesar de ser revelado na medida do estritamente necessário, permanece envolto em mistérios e dúvidas até o final. Em segundo, são os pequenos momentos em que a “sorte” ajuda Thomas, como na sequência do interrogatório na igreja (excelente , aliás, mas que se vale demais da sorte), na primeira incursão notura dele e, depois, em algumas sequências de horror completo, notadamente no túnel. São como “picos” de suspensão da descrença que quase pedem demais de nós e que podem tirar alguns da imersão, o que nunca é um sinal bom.

Mesmo exigindo possivelmente demais do espectador nos quesitos paciência e suspensão da descrença, Apóstolo é uma obra moderna de terror de muita qualidade para quem souber glosar alguns de seus problemas. Gareth Evans mostra-se um roteirista e diretor versátil e que promete um futuro luminoso, ao passo que Dan Stevens novamente revela-se como um ator com bela latitude dramática e que, melhor ainda, não foge de projetos que saem completamente de sua zona de conforto.

Apóstolo (Apostle, EUA/Reino Unido – 12 de outubro de 2018)
Direção: Gareth Evans
Roteiro: Gareth Evans
Elenco: Dan Stevens, Michael Sheen, Mark Lewis Jones, Paul Higgins, Lucy Boynton, Bill Milner, Kristine Froseth, Elen Rhys, Sharon Morgan, Sebastian McCheyne
Duração: 130 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.