Crítica | Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei

estrelas 3,5

Quando assisti pela primeira vez Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei, quase nada sabia sobre o filme. Do poster eu podia dizer que era um western, mas não muito mais do que isso. Uma inspeção mais cuidadosa revelou aquilo que os faroestes talvez façam mais constantemente do que qualquer outro gênero específico: a reunião de grandes e inusitados nomes no elenco. Filmes como Sete Homens e um Destino, Silverado e Tombstone – A Justiça Está Chegando, dentre outros, provam isso muito claramente.

Com Appaloosa não é diferente, pois a fita reúne, sob um mesmo teto, Ed Harris, Viggo Mortensen, Jeremy Irons, Lance Henriksen e até Renée Zellweger, não que a última, claro, qualifique como “grande nome”, apenas como “inusitado”. E o filme é, também, o segundo e, até agora, o último filme dirigido pelo próprio Ed Harris, o primeiro tendo sido Pollock, 0ito anos antes. É interessante como os “filmes de cowboy” conseguem reunir super elencos. Essa expansão para o Oeste Americano deve realmente repercutir fundo no subconsciente coletivo de lá, pois os atores são levados à esse gênero de filme como abelhas ao mel.

Isso foi suficiente para a obra chamar minha atenção àquela época e gerar a vontade de revê-la para criticá-la agora. Afinal, quem não se intrigaria com essa combinação não é mesmo?

O filme conta a história (narrada por Viggo Mortensen) de Virgil Cole (Harris) e seu parceiro Everett Hitch (Mortensen) que são chamados para impor a lei na cidade do título dominada pelo rico rancheiro fora-da-lei Randall Bragg (Jeremy Irons) que fuzila o xerife local e seu dois ajudantes. A jogada é que Cole e Hitch só atuam de uma forma: tudo o que eles dizem ou fazem tem que se tornar lei na cidade, senão eles dão as costas e vão embora. Assim começa o embate entre eles, a cidade e Bragg.

O roteiro, que foi co-escrito com Harris junto com o estreante Robert Knott, é baseado em romance de Robert B. Parker (prolífico escritor americano falecido em 2010, criador do detetive particular Spenser em uma série de livros e que foi adaptada em forma de série de TV nos anos 80, com Robert Urich no papel principal) e tem forte tom de autocrítica com Cole vivendo um homem durão que tenta ser refinado. Ele sempre lê livros e tenta usar palavras difíceis que ele não conhece ou não consegue pronunciar e Hitch – “naturalmente” culto – o ajuda a todo momento. No meio da confusão entre lei, poder e vilania e formando um estranho e potencialmente perigoso triângulo amoroso, chega Allison French (Renée Zellweger), cujo sequestro deflagra o clímax da obra.

No entanto, o grande foco é mesmo na lei e poder e, claro, o abuso de poder mas, sobretudo, é sobre amizade. Aqueles que estiverem esperando muita ação, saques rápidos e muitas balas voando provavelmente sairão desapontados, pois sua estrutura carrega muito mais um ar de Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood, do que de Os Indomáveis, com Russel Crowe e Christian Bale. A condição estabelecida pela dupla Cole/Hitch já dá o que pensar: que Justiça é essa que precisa controle ditatorial sobre uma cidade para funcionar? É Justiça de verdade ou, apenas, um mal substituindo outro mal? O filme não entrega respostas fáceis e objetivas e aborda seus personagens de forma dúbia e imprecisa, o que torna a questão ainda mais interessante.

Ed Harris tem uma direção segura e as paisagens do Novo México emolduram bem sua obra, que se beneficia da fotografia do grande Dean Semler, que trabalhou com o também diretor/ator no irretocável Dança Com Lobos. A montagem, a encargo de Kathryn Himoff, que trabalhara com Harris em Pollock, por vezes deixa a progressão narrativa se arrastar um pouco, o que é deixando ainda mais saliente pela ausência de sequências de ação em intervalos mais constantes. Não é um filme parado, que fique claro, mas ele poderia ter se beneficiado de cortes um pouco mais dinâmicos em determinadas sequências.

A dupla principal tem ótima química e passa completa segurança ao espectador. Zellweger foi mal escalada, porém, pois ela parece uma boneca de porcelana, completamente diferente da mulher que ela interpreta e seu jeito histriônico e cheio de caretas distrai muito mais do que encanta.

Ed Harris faz sua homenagem ao faroeste e se sai bem, com um fita que dispensa a pancadaria, substituindo-a por contemplação e temas para serem discutidos quando as luzes se acendem ao final da sessão. Isso é muito mais do que muito filme por aí consegue tirar de seus espectadores.

Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei (Appaloosa, EUA – 2008)
Direção: Ed Harris
Roteiro: Robert Knott, Ed Harris (baseado em romance de Robert B. Parker)
Elenco: Ed Harris, Viggo Mortensen, Jeremy Irons, Renée Zellweger, Lance Henriksen, Adam Nelson, Timothy Spall, Ariadna Gil, James Gammon
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.