Crítica | Aquaman: Renascimento

estrelas 3

O caminho até aqui:

Bastante preso ao universo dos Novos 52, este one-shot do Aquaman divide um pouco a nossa opinião sobre o que será dele nesta nova fase: uma extensão de seu momento anterior ou o surgimento de um herói dentro de uma nova base? A tirar pelo que tivemos aqui, estamos falando de um material híbrido, o que por uma parte é algo bom, pois traz um passado com bastante coisa que deu certo (vide as referências a perder de vista dos arcos Os Abissais e Os Outros), mas por outro outro lado, não ousa e cria bem pouco, o que pode acabar sendo um problema maior no futuro.

Pegando carona na abordagem de Geoff Johns para o Aquaman no início dos Novos 52, Dan Abnett colocou em pauta a validade do Aquaman no Universo DC, criticando de forma positiva (não rancorosa, não como um puxão de orelha nos leitores) o desprezo e o escárnio que se faz dele, chamando-o de Peixoso ou questionando a utilidade de um herói como ele, um super que “conversa com os peixes” — elemento que é explicado de uma vez por todas como funciona, caso houvesse ainda alguma dúvida para alguém. Mesmo não sendo uma coisa de grande valor para o drama, esse tom do roteiro ajuda a contextualizar melhor o herói, problematizando-o de forma metalinguística também, como um personagem visto com desconfiança pelos que estão em seu mundo e como piada pelos que estão no nosso mundo. Interessante, não?

O melhor ponto da arte desta edição: a presença de material tecnológico na Embaixada atlante ou

O melhor elemento da arte: a presença de material tecnológico e sua mistura com temas/ambientes aquáticos. 

O miolo da edição também traz um segundo tema, o problema estatal e ideológico que torna Arthur Curry um rei mal visto por parte dos atlantes: o fato de ele ser meio humano. O roteiro discute abertamente sobre xenofobia e indiretamente sobre racismo e patriotismo, trazendo problemas de Estado que são comuns em muitos países hoje, como a tentativa de derrubar governantes de seus cargos porque não se concorda com algo que este governante faz. Logo nas primeiras páginas da edição, temos a grandeza do reino do Aquaman e a clara tentativa dele em unir humanos e atlantes, terra e água, mais ou menos o que outro herói da DC vive fazendo com a harmonização entre homens e matéria vegetal. É desta tentativa de união que o ódio já fomentado contra o rei Arthur (Curry) ganha força e parte para o ataque.

Nesta parte aparecem os maiores problemas da edição. Primeiro, o roteiro não finaliza de forma rápida nenhuma das pontas abertas no início. Resultado: estamos falando de xenofobia e tentativa de golpe de Estado em alguns quadros e, em outro, falando de como o Aquaman sofre na mão dos nerds… e mais à frente, falamos de como ele é importante e ao mesmo tempo temido em seu mundo… e ainda mais à frente, falamos da tentativa de Curry  em promover a boa convivência entre reinos, ato que parece ter sido início de um suicídio político. Percebem que existe uma sopa grossa de temas que deveriam aparecer com menos força, apenas como apoio para algo maior mas que, na verdade, ocupa espaço ao longo de toda a narrativa?

Isso considerado, é de se admirar que Dan Abnett tenha conseguido um bom resultado final, mesmo com linhas narrativas aos borbotões. Já a outra parte do pesar no enredo vem ao final, com a aparição do Arraia Negra, que parece bastante precipitada aqui. O vilão tem força demais para ser apenas um “preparador nas sombras” revelado de última hora. Definitivamente, não foi uma boa escolha.

Diagramação e perspectiva extremamente funcional também são destaque da arte de .

Diagramação e perspectiva extremamente funcional também são destaque da arte de Brad Walker.

Mas as melhores coisas de Aquaman: Renascimento são a arte e as cores. Como já destaquei na legenda da imagem anterior, o trabalho realizado com tecnologia em  ambientes aquáticos ou próximo a esses ambientes é primoroso, com finalização de traços grossos e sem suavização, dando a impressão de que estamos vendo aquela cena, pessoa ou objeto através de um filtro. Claro que existe um exagero nesta colocação — vinda principalmente do colorista –, especialmente na batalha do Aquaman contra Corum Rath, que tem boa parte das cenas mergulhadas em um filtro de cor azul ou verde, uma ideia interessante, no início, mas rapidamente tornada irritante. No entanto, os desenhos e sua finalização permanecem atrativos e garantem um bom espetáculo para o leitor.

Conciliando divergências políticas e acenando para uma tentativa de paz (é quase Israel X Palestina a subtrama aqui), essa edição do Aquaman teria um fim bem melhor se o roteiro fosse mais objetivo e soubesse se livrar cedo dos temas secundários para dar atenção ao que realmente interessa. Ao cabo, a história é interessante e nos impulsiona para as edições regulares do herói, que certamente vão precisar de um motivo e andamento mais sólidos e melhor trabalhados caso queiram ter uma longa série de volumes.

Aquaman: Renascimento (Aquaman: Rebirth — The Drowning, Prologue: After the Deluge) — EUA, 8 de junho de 2016
Roteiro: Dan Abnett
Arte: Scot Eaton, Oscar Jiménez
Arte-final: Mark Morales, Oscar Jiménez
Cores: Gabe Eltaeb
Letras: Pat Brosseau
Capas: Brad Walker, Andrew Hennessy, Gabe Eltaeb
24 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.