Crítica | Aqui é o meu Lugar

estrelas 2

Nós vivemos tempos interessantes. A popularização do indivíduo à margem, o freak e excêntrico que antes era ridicularizado ou sequer citado na maior parte das manifestações artísticas, sai agora de seu ostracismo social e ganha fôlego em tudo quanto é lugar. Há um grande número de abordagens para esse povo, mas o que chama a atenção é como o “trabalho com as minorias” tem ganhado versões cada vez mais politicamente corretas ou socialmente aceitas – há exceções, mas o número é tão pequeno quanto risível.

A maior parte dessas abordagens no cinema faz os considerados “minoria” dependerem de uma ala aceita da sociedade para lhes dar apoio, o que será decisivo para que consigam seus objetivos (a exemplo de Histórias Cruzadas). Também temos a versão em que os excluídos percorrem um longo caminho, e após um entendimento de si mesmo ou um amadurecimento tardio, despem-se de sua estranheza e se tornam “pessoas normais”, como acontece em Aqui é o meu Lugar (2011).

Sean Penn interpreta Cheyenne, um ex-astro do rock que mora com sua esposa em uma gloriosa mansão em Dublin. Ao receber a notícia de que seu pai está muito doente, o excêntrico músico de compleição à la Ozzy viaja para os Estados Unidos e então é apresentado a uma realidade que desconhecia por completo: seu pai viveu à caça de um militar nazista que conhecera em Auschwitz e que fixara residência nos Estados Unidos. Assim, como num passe de mágica, passamos da vida cotidiana e até então minimamente interessante de Cheyenne, para uma viagem-purgatório pela terra do Tio Sam perseguindo uma memória do Holocausto. Nada poderia ser tão ruim para um roteiro com essa estruturação de história. Não estamos falando de uma sutil mudança ou de um modo de contar a história. Estamos falando de praticamente dois filmes distintos. É uma grande vergonha para Paolo Sorrentino e Umberto Contarello terem seus nomes creditados a esse roteiro.

Desse momento em diante, algumas recorrências simbólicas óbvias começam a se acumular e inchar o filme. A trilha sonora destoa das sequências em que aparecem – e não há nenhuma intenção do diretor em gerar incômodo dramático para essas cenas, o que lhe concede mais um ponto negativo. Não é que as canções ou os temas musicais sejam ruins. Longe disso. É que o uso deles é absolutamente solto e não ajudam em nada a contar a história, que já padece de gigantescos furos narrativos. Não fosse a atuação de Sean Penn, que acaba ganhando uma péssima motivação ao final da película, transformando-se em tudo aquilo que ele ironizou e desprezou o filme inteiro, seria muito difícil suportar as quase duas horas de projeção.

Francis McDormand interpreta bem o papel da esposa de um músico excêntrico, e fecha com ela e seu par a porta das boas atuações do filme. Todas as outras personagens passam de descartáveis a medianas, não tendo uma única (além das duas já citadas) atuação que se possa aplaudir. Não sendo este um filme de uma dupla de pessoas, posto que o casal nem passa todo o tempo do filme juntos, só posso atribuir o elenco mediano-ruim à má condução do diretor. O mais curioso de tudo isso é que Paolo Sorrentino dirigiu um filme incrível em 2008, Il Divo, e agora nos entrega uma obra carente de inspiração.

A produção do filme divide momentos de pieguice e alumbramento, uma quadrilha complicada para um filme dessa duração. Há quadros fotográficos muito bem capturados, mérito do ótimo Luca Bigazzi, que apostou em tons claros para as tomadas externas, belas panorâmicas durante a viagem de Cheyenne e delicadas composições de internas, especialmente em cenas de forte impacto lírico. Nesse aspecto, o filme é de um grande vigor. Mas a festa acaba sendo interrompida pela montagem, que na reta final também mete os pés pelas mãos. A maquiagem e os figurinos também se destacam, especialmente porque captura as nuances culturais de cada lugar desse road-movie (não melhor que a fotografia, mas ainda assim, de maneira interessante.).

Paolo Sorrentino entrega um trabalho fraco, que ganha apenas nos aspectos técnicos e que depende encarecidamente da atuação de Penn e McDormand, que infelizmente precisam obedecer a um roteiro que é um tsunami de incompetência. Por mais que tenha tiradas inteligentes e frases de efeito aliadas a simbologias e metáforas visuais, o filme clama por uma orientação. Aqui é o meu Lugar é daquelas obras que rodam rodam e não chegam a lugar nenhum. Pensando bem, seria até melhor se mudassem o título para Para Onde eu Vou e Qual é o Meu Lugar?

Aqui é o Meu Lugar (This Must Be the Place) – EUA, 2011
Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino, Umberto Contarello
Elenco: Sean Penn, Olwen Fouere, Judd Hirsch, Eve Hewson, Kerry Condon, Joyce Van Patten, David Byrne, Shea Whigham, Liron Levo, Heinz Lieven, Simon Delaney, Frances McDormand
Duração: 118 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.