Crítica | Archer – 1ª Temporada

estrelas 5,0

Sterling Malory Archer!

Esse é um nome que escutamos muitas vezes ser gritado em Archer, uma série animada sobre o espião mais perigoso do mundo. Ao contrário do que aqueles que não assistiram ainda, não são seus inimigos que gritam repetidas vezes o nome do protagonista e sim sua mãe, que também é sua chefe, pela qual ele sofre um forte complexo de édipo, além de outros mommy issues. A esse ponto já devem desconfiar que de sério a animação não tem nada. Criada por Adam Reed, responsável pelo sensacional Laboratório Submarino 2021, transmitido aqui no Brasil no Adult Swim, temos aqui uma comédia irreverente e politicamente incorreta, que fará qualquer fã de South Park por ela se apaixonar.

Composta por apenas dez episódios de 22~23 minutos cada, a primeira temporada segue a típica estrutura de caso da semana, isso, contudo, ao contrário de muitas outras produções que vemos por aí, não deve afastar o espectador cansado desse esquema procedural. O principal objetivo de Archer é satirizar os filmes de espião, tanto os atuais quanto os saudosos dos anos 60-70, e isso a série consegue. Com um protagonista que define a palavra douchebag, ou, perdoem meu francês, filho da puta, a animação rapidamente cresce no espectador, as risadas singelas que eram proferidas nos primeiros capítulos rapidamente nos preenchem e o binge-watching se torna praticamente obrigatório – para facilitar isso, a série se encontra até onde foi lançada no Netflix.

Mas de onde vem tanto humor? Sterling Archer pode ser o espião mais perigoso do mundo, mas isso não se aplica somente a seus inimigos, o homem é uma verdadeira ameaça pública e seu surreal egocentrismo coloca em risco todos à sua volta, ao ponto que suas proezas nas missões soam como um milagre vindo dos céus. Archer ainda aposta nas relações entre os funcionários da agência de Inteligência ISIS, comandada por Malory Archer. O que temos aqui muitos nos lembra The Office, com cada empregado contando com suas manias específicas – uma é uma fofoqueira descontrolada, outra uma verdadeira ninfomaníaca, outro um cientista maluco alemão. As piadas não contam com qualquer barreira moral e isso é nada menos que uma bênção nesse mundo politicamente correto que vivemos.

O sucesso desse humor, contudo, não é apenas mérito de Adam Reed ou sua equipe de roteiristas, como também da excelente equipe de dubladores – desde os coadjuvantes até os principais e nesse meio quem mais se destaca é o experiente H. Jon Benjamin , já familiar com a animação destinada ao público adulto. Todo o jeito egoísta, sacana e muitas vezes estúpido de Archer funciona graças às entonações de Benjamin, chega a ser impossível imaginar o personagem sem essa voz, tamanha a harmonia entre imagem e som que revolve o protagonista. Cada mudança de timbre perfeitamente se encaixa com as expressões faciais dos personagens, muito bem caracterizadas e animadas pela Floyd County Productions, cujo dono é o próprio Adam Reed.

Para construir a identidade visual da série, o criador optou por uma amálgama de períodos, baseados nas influências da obra – James Bond A Pantera Cor de Rosa são algumas para citar. Em muitos aspectos sentimos uma nítida similaridade com Mad Men (especialmente pelo comportamento do protagonista), de fato, Archer é uma série completamente anacrônica, a tecnologia soa atual, mas o roteiro traz a União Soviética à tona diversas vezes – esse anacronismo é outro charme da animação, ao passo que tira mais limitações que algo live-action poderia ter.

Archer é uma daquelas séries que assistimos de forma despretensiosa, mas que rapidamente ganham nosso coração – ouso dizer que rapidamente se tornou uma de minhas favoritas da atualidade, consistindo um uma forma perfeita de escaparmos desta sociedade excessivamente regrada que vivemos. O politicamente incorreto, mais uma vez, se prova um ótimo caminho a ser trilhado pela comédia, especialmente se feito da forma inteligente com a qual Adam Reed conduz sua série.

Archer – 1ª Temporada (EUA, 2009)
Showrunner:
Adam Reed
Diretor: Adam Reed
Roteiro: Vários
Dubladores: H. Jon Benjamin, Judy Greer, Amber Nash, Chris Parnell, Aisha Tyler, Jessica Walter, Lucky Yates, Adam Reed
Duração: 10 episódios de aproximadamente 22 minutos cada.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.