Crítica | Argo

argo

estrelas 4,5

O nome de Ben Affleck mencionado em vários círculos de amigos normalmente gera um olhar de desdém ou um daqueles gestos que indicam pouco caso. No entanto, aqueles que fazem isso esquecem que Affleck, apesar de uma carreira irregular como ator, ainda não errou nenhuma vez atrás das câmeras. Sua estreia na direção de longas-metragens se deu em 2007, com o ótimo Medo da Verdade, seguido pelo excelente Atração Perigosa (2010), ambos co-escritos por ele.

E, claro, antes de seu début na direção, foi co-responsável, junto com Matt Damon, pelo roteiro de Gênio Indomável, filme que acabou catapultando a carreira dos dois. Assim, vagarosa, mas certeiramente, Ben Affleck vem construindo uma sólida carreira no cinema que, se continuar nesse ritmo, tem o potencial de torná-lo uma espécie de versão moderna de Clint Eastwood. Exagero? Pode ser. Mas assistam Argo antes de descartar Affleck novamente.

O filme conta a impressionante história verdadeira da tentativa de resgate de seis funcionários da embaixada americana em Teerã, em 1980, no auge da tensão entre Irã e Estados Unidos causada pelo exílio do xá Reza Pahlavi. A embaixada americana foi tomada em 1979 pelos revoltosos que exigiam a extradição de Pahlavi, mas seis funcionários conseguiram escapar e se esconder na casa do embaixador canadense em Teerã. Quando se fala em resgate, pensa-se logo em operação militar, mas o que vemos é o agente da CIA Tony Mendez (Affleck), especialista em “exfiltração”, montar um plano mirabolante que envolve a produção fajuta de um longa-metragem de ficção científica canadense chamado Argo com o objetivo de entrar no Irã sob a desculpa da procura de locações para as filmagens. Coisa de filme? Pois é, parece, mas não é.

Ainda que todos conheçamos o resultado da tomada da embaixada pelos iranianos, a história de Mendez só veio à tona em 1997, quando Bill Clinton retirou o lacre de diversos documentos até então considerados confidenciais. Assim, muito pouca gente efetivamente sabe a história verdadeira dos seis funcionários e do maluco, mas corajoso plano do agente Mendez.

Mas o brilhantismo de Affleck não está em sua atuação. Não se enganem, porém. O ator está muito bom em um papel sério, tenso e pesado, ainda que a ascendência irlandesa dele não combine com alguém chamado “Mendez”. De toda forma, o que chama mesmo a atenção é a direção.

Affleck faz um muito bem vindo filme retrô, não só porque ele se passa entre 1979 e 1980, mas sim porque ele usa técnicas de edição e fotografia típicas daquela época. Nada de cortes frenéticos e ações mirabolantes. Tudo é feito com calma, construindo vagarosamente a tensão que, em seus minutos finais, corroerá as unhas de muitos espectadores.

A fotografia de Rodrigo Pietro (O Segredo de Brokeback Mountain, Babel) encaixa-se com precisão ao espírito da época, muito ajudado por filtros que servem para fundir as cenas verdadeiras de arquivo com as do filme, além de tingir a imagem de tons de bege e marrom, em perfeita sintonia com os clássicos setentistas. A direção de arte de Peter Borck (renovando a parceria com Afleck, iniciada em Atração Perigosa) e Deniz Göktürk e o figurino de Jacqueline West (A Árvore da Vida) também merecem destaque pela precisão ao retratar tanto o ocidente como o oriente médio.

E o cuidado com a reconstrução dos eventos ao redor do foco do filme, como o sítio da embaixada e os enforcamentos em praça pública realmente impressionam. Afleck faz, muito espertamente, quase que um auto-elogio de sua eficiência, ao contrastar cenas documentais com as que ele criou para o filme, deixando evidente sua atenção aos detalhes.

Mas Argo vai além do primor técnico. Além de Afleck no elenco, há as presenças de John Goodman no papel do lendário maquiador John Chambers (da série O Planeta dos Macacos) e Alan Arkin no papel do produtor Lester Siegel, ambos usados por Mendez para dar credibilidade à produção de seu filme falso, com direito a escritório de produção, leitura de script a caráter e anúncios em revistas do meio cinematográfico. Tanto Goodman quanto Arkin estão muito confortáveis em seus papéis e dão um show à parte. Bryan Cranston completa o eficiente elenco principal, no papel de Jack O’Donnell, o chefe de Mendez.

Para fechar, a trilha sonora de Alexandre Desplat (Deus da Carnificina, A Árvore da Vida) pontua o filme sem, porém, se intrometer. É como as trilhas devem ser: discretas, pouco reveladoras, mas que ajudam a construir a história e, no caso, a tensão de uma fuga impossível.

Alguns provavelmente reclamarão do retrato que o filme pinta da CIA. Nele, vemos a companhia, normalmente associada a atos sórdidos de espionagem e manipulação, como algo mais ideal, romântico. Acontece que o filme não é sobre a CIA, mas sim sobre os homens cuja coragem e determinação permitiram que um plano desses – que é literalmente “coisa de filme” – ser levado a cabo. Se houve sucesso ou não, não revelarei para os que não conhecem a história verdadeira. Mas a simples coragem de um americano em pegar uma passagem de avião e pisar em solo iraniano durante o ponto mais alto da revolução que levou ao poder o Aiatolá Khomeini depois da deposição de Pahlavi e contar mentira atrás de mentira para retirar seis compatriotas de uma situação limítrofe, já merece comenda. Se existe um pecado no trabalho do diretor é ele não ter sabido acabar o filme no momento cirurgicamente mais adequado, deixando que se estendesse por cenas de denouément que não acrescentam muito à fita e apenas tentam fechar todas as pontas soltas que poderiam muito bem ter continuado assim. Mas não é nada que retire o brilhantismo da obra.

Affleck faz um filme que mais uma vez mostra que, para uma fita ser boa, não precisa de explosões, edições frenéticas, ação o tempo todo e tiroteio. Basta um roteiro redondo, atuações marcantes e um diretor seguro no volante para que se entregue tensão e inteligência no lugar de fogos de artifício e bobeira.

Argo (Idem, Estados Unidos, 2012)
Diretor: Ben Affleck
Roteiro: Chris Terrio
Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Chris Messina, Clea DuVall, Adrienne Barbeau, Tate Donovan, Titus Welliver, Victor Garber, Rory Cochrane, Scoot McNairy, Christopher Denham, Richard Kind, Keith Szarabajka, Jamie McShane
Duração: 120 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.