Crítica | Aristogatas

“Damas não começam brigas, mas elas podem terminá-las.”

Os cachorros sempre foram os melhores amigos dos estúdios Disney. Esse amor, que nasce de criações iniciais, como o Pluto e o Pateta, e chega até o novo século, dada a produção de Bolt – O Supercão e vários longas live-action, produzidos por estúdios associados, é belíssimo. Todavia, onde se encontram as obras correspondentes para aqueles que preferem gatos? Aristogatas é a resposta. A começar, o longa-metragem conta, logo no título, com uma extraordinária brincadeira de palavras. A temática, portanto, permite que os animais a protagonizarem o filme ostentem o luxo de uma vida rica. Ao menos em uma primeira instância, visto que a jornada proposta vai além da mansão gigantesca e vazia. No caso, Duquesa (Eva Gabor) e seus filhos são os herdeiros imediatos de Madame Adelaide Bonfamille (Hermione Baddeley), uma aristocrata solitária, parte da alta sociedade, que também conta com um mordomo na lista de seus poucos amigos próximos. Para dar um pontapé inicial nessa jornada, o vilão da história revela-se como o próprio empregado, Edgar Baltazar (Roddy Maude-Roxby). Ao descobrir que os gatos estão na sua frente no testamento da mulher, o antagonista decide sequestrá-los e abandoná-los. A ilógica dessa motivação é tão extrema – colocando uma representação marginalizada; o vilão é o funcionário; com fins ascosos e incompreensíveis -, que a suspensão da descrença exige demais e não dá ao público, de retorno, algo satisfatório. Sendo assim, Aristogatas falha, primeiramente, em nos promover um contraponto bem resolvido ao bem estar dos seus protagonistas.

Ao olhar para a jornada de Duquesa e seus filhos, da margem do rio para a luxuosa mansão, não é possível enxergar uma construção de personagem. A trajetória, enfim, existe apenas com o intuito de adicionar Thomas O’Malley (Phil Harris) na vida dos gatos e retirar o cruel mordomo dela, sem qualquer objetivo de transformar os quatro protagonistas durante o percurso. A possibilidade de desconstruir a vivência dos animais, antes acostumados com o conforto de uma casa, se esvai ao passo que o novo mundo que é exposto não causa choque. Um mundo “hostil” que não traz consequências. As desventuras existem, a medida que Marie (Liz English) tem que ser salva duas vezes – expondo assim também uma repetição do roteiro. Elas, porém, não moldam personalidades, sem nenhuma finalidade além de estampar o segmento de animação. O’Malley, por sua vez, se aproxima da vida de Duquesa com essas atitudes heroicas, embora repetitivas. Mas a falta de um conflito substancial não permite o personagem ir contra a maré; todas as suas atitudes acabam fluindo dentro da narrativa, não existindo uma ruptura contra-intuitiva. Ao final da jornada, o próprio até torna-se um “aristogata”, seguindo a correnteza proposta pela obra. A exemplificar, Thomas só se junta aos gatos na jornada porque Marie cai do caminhão, uma conveniência da narrativa que não pretende nem ser questionada. Por todo o filme, as ações movem os personagens; contudo, nunca elas os mudam.

Sob um outro ponto, é possível encontrar semelhanças dessa história com a estruturada em A Dama e o Vagabundo, embora o contraste de classes lá funcione de uma maneira completamente diferente daqui, onde não é possível se estabelecer uma ideia de proposição argumentativa. Em A Dama e o Vagabundo, o amor está no ar e dele surge um belíssimo romance. Já em Aristogatas, a “necessidade” das crianças de terem uma figura paterna em suas vidas é o que une gato e gata, além, é claro, do charme irresistível de Abraham Delacey Giuseppe Casey Thomas O’Malley. A relação dos dois personagens, apesar de funcionar, não consegue envolver o espectador completamente. Ele, por ser um gato de rua e reconhecido garanhão, pode muito bem estar usando de seu encanto, exposto na excelente canção Thomas O’Malley, para conseguir uma resposta positiva de Duquesa aos seus avanços. A barreira entre a mera sedução e o amor verdadeiro nunca é quebrada. As crianças sobram para serem o meio de união de O’Malley com a família, seja atingindo Marie com o seu charme, resgatando a “donzela indefesa” – um clichê reiterado aqui – ou dando apoio moral a Toulouse (Gary Dubin) e sua tentativa de amedrontar alguém; uma característica desse personagem que não tem nenhuma função na narrativa além da própria caracterização. O terceiro filhote, Berlioz (Dean Clark), nem isso recebe, tornando-se o mais esquecível.

Entretanto, Aristogatas possui a sua jornada e seus demais personagens, seguindo a tradição Disney em adicionar inúmeros coadjuvantes engraçados nas histórias de seus filmes. A trama, com isso, acaba transformando-se em um inchado das mais variadas participações, desde gansos tagarelas a uma trupe de gatos jazzistas. A curta duração dos filmes animados da Disney, na época, atua de forma contrária ao sucesso da produção. A estrutura episódica, desse modo, retorna, mas não aliada com uma perfeita execução. À parte das excelentes performances de voz, a trupe de jazz é o que se sobressai disso tudo, em especial devido a icônica “Everybody Wants to Be a Cat”. Os personagens, contudo, têm muito pouco tempo de tela e contribuem, em uma última instância, no clímax da obra, ajudando O’Malley na luta contra o mordomo. Por falar nele uma derradeira vez, nota-se ótimas sequências com o personagem, como a divertidíssima perseguição no começo do filme, bastante lúdica, e a tentativa de resgatar as evidências de seu crime; ambos os momentos, curiosamente, envolvem os cachorros Lafayette e Napoleão. Um adendo, todavia, a Shun Gon (Paul Rinchell) – um estereótipo chinês deveras racista. Com erros atrás de outros, Aristogatas definitivamente não é uma obra da Era de Ouro/Prata do estúdio, encerrada com Mogli: O Menino Lobo. O estilo de animação puxa bastante de 101 Dálmatas; a temática, de A Dama e o Vagabundo; a personalidade de O’Malley, um pouquinho de Balu – os dois têm a mesma voz -; mas o filme em si, no final das contas, não carrega o espírito e vigor de nenhuma dessas produções. Parece que os estúdios Disney preferem cachorros a gatos.

Aristogatas (The Aristocats) – EUA, 1970
Direção: Wolfgang Reitherman
Roteiro: Ken Anderson, Larry Clemmons, Eric Cleworth, Vance Garry, Julius Svendsen, Frank Thomas, Ralph Wright
Elenco: Eva Gabor, Phil Harris, Liz English, Dean Clark, Gary Dubin, Roddy Maude-Roxby, Scatman Crothers, Sterling Holloway, Paul Winchell, Lord Tim Hudson, Vito Scotti, Thurl Ravenscroft, Patt Buttram, George Lindsey, Hermione Baddeley, Charles Lane, Nancy Kulp, Monica Evans, Carole Shelley, Bill Thompson, Peter Renadey
Duração: 78 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.