Crítica | Arizona Nunca Mais

estrelas 4

“Meu nome é Smalls. Leonard Smalls. Meus amigos me chamam de Lenny. Só que eu não tenho amigos.” 

Muito pelo qual os irmãos Coen, hoje, são aclamados pelo público e pela crítica em geral, deve-se a imaginativa, distorcida e bastante simbólica maneira de contar histórias que a dupla possui. Mesmo em suas obras mais sombrias, percebe-se uma subversão narrativa. No entanto, é nas comédias que os irmãos deturpam totalmente as convenções levando sua obras para caminhos inimagináveis. Embora Gosto de Sangue seja o primeiro filme, de fato, dos dois, Arizona Nunca Mais é o verdadeiro – e histérico – pontapé inicial para uma futura consagração em obras como O Grande Lebowski e Fargo.

Levando Hi McDunnong (Nicolas Cage), um assaltante reincidente, a se apaixonar pela policial Edwina (Holly Hunter), os irmãos trazem o nonsense, em seu estado mais honesto, para as telas. Por não poder ter filhos, Edwina convence Hi a roubar e cuidar como se fosse deles um dos “Quíntuplos de Arizona”, filhos recém-nascidos do famoso magnata dos imóveis Nathan Arizona (Trey Wilson). Dessa trama inventiva, o roteiro dos Coen vai aos poucos evoluindo o conflito do casal. É na figura de um caçador de recompensas, Leonard Smalls (Randall “Tex” Cobbs), que o enredo ganha sua forma mais desproporcional com a até singela premissa inicial. As narrações, ritmadas por um dos personagens mais carismáticos de Nicolas Cage, molda a base de uma história, que décadas depois, tornaria-se cult.

Protagonista da farsa, Hi é um dos personagens mais aprazíveis já criados pelos irmãos Coen. A fisicalidade interpretativa de Nicolas Cage assegura a posição do personagem como um dos heróis-bandido mais ingênuos e engraçados da comédia. Além disso, a idiossincrasia traz para os personagens apresentados comportamentos excêntricos e temperamentos peculiares, que, se talvez excessivamente repetidos durante o longa, ainda sim moldam a nada coerente história em um absurdo cômico. Pode ser que o filme não provoque as gargalhadas mais incessantes. Ou então provoquem. O resultado do humor está nas piadas de situação, contextualizadas dentro de cenários estapafúrdios. A piada está intrínseca na experiência, sem necessidade de ser exprimida em bordões, referências ou verbalizações.

A policial Ed é a potência dramática do longa. As expressões faciais da atriz, mais atreladas à realidade, contrastam com a excentricidade dos personagens a sua volta, que são em suma, personalidades nada convencionais. Não que a personagem não seja bizarra. Ela é. Afinal, embora a dor da esterilidade seja pesada, e angustiante – ainda mais para um casal que em 10 minutos em tela, e em posições descabidamente desfavoráveis, garantem uma química gigante – a decisão da mulher é no mínimo doentia. Acrescente isso a uma repetida justaposição de fatos para com justificativas implausíveis, e um amor instantâneo da mulher por Nathan Jr., e temos uma personagem multidimensional, mas ainda sim, confortavelmente inacreditável.

Os diálogos, afiadíssimos, e as cenas, todas icônicas, são uma amálgama de acertos. A fuga da prisão de Gale Snoats (John Goodman) e Evelle Snoats (William Forsythe), saindo da lama como zumbis, satirizando filmes clássicos do gênero, é impagável. Os dois personagens, aliás, são peças fundamentais para a manutenção do tom espalhafatoso na relação do crime com a piada. Ademais, a sequência da perseguição policial de Hi, após ele roubar um pacote de fraldas (veja a intensidade dessa atitude, com o homem tomando tal medida para garantir a integridade de seu filho) é espetacular. Apesar do contexto duro, tudo se transforma em uma absurda alegoria jocosa. Desde que Ed vai embora, decepcionada com a atitude de seu marido, a loucura se instaura. Pessoas começam a atirar indevidamente, como se o personagem estivesse cometendo, ou cometido, um crime mórbido, enquanto cachorros se unem à perseguição. Sem falar na trilha sonora, agraciada por Carter Burwell, que imprime composições remetentes aos faroestes, e aqui torna uma simples fuga em uma épica maratona. Simplesmente hilário.

A inserção da figura antagônica de um caçador de recompensas, o motoqueiro Leonard Smalls, não poderia ser mais acertada. No final das contas, em que mundo um homem desse existiria? Estamos falando de uma pessoa que se auto-contrata para encontrar um bebê, e não em uma figura de futuros distópicos. Armado até os dentes, com granadas e escopetas, Leonard passa pelas cidades explodindo o que puder. Os foreshadowings nos sonhos de Hi alteiam tanto a magnitude da presença de um homem como esse, que quando o profético duelo chega, estamos preocupados com o destino do nosso herói. Com direito a falsos sons de tapas e socos, apenas um poderá sair vivo desse confronto. Desse jeito mesmo, exagerado assim, como o filme em si.

O final, infelizmente, é surpreendentemente piegas, mas para os mais desinteressados, funcional graças ao voice-over de Cage. Por outro lado, o roteiro não acerta mesmo na introdução do casal Glen (Sam McMurray) e Dot (Frances McDormand). Na história, Glen é chefe de Hi, e após a chegada de Nathan Jr., Ed convida o casal e sua família para conhecerem o bebê. Enquanto Hi e Ed continuam a manter a agradável aparência do sonho americano, o resto da sequência destoa completamente. As crianças, irritantes, são um clichê mal-utilizado, e a inscrição ascosa feita por uma dessas figuras na parede da casa de Hi e Ed é um ponto fora da curva. Antes de concluir, deve-se comentar da excelente fotografia de Barry Sonnenfeld, que consegue alinhar os bebês dentro de quadros precisos, vide a clássica imagem de Nathan Jr., na cadeirinha, esperando no asfalto cinzento pela chegada daqueles que deixaram-o. Vistoso, Barry consegue captar enquadramentos eficientes para com a proposta do longa.

Arizona Nunca Mais é, enfim, o filme mais inverossimilhante dos irmãos Coen, com os personagens menos críveis e as situações mais surrealistas possíveis. Um filme, porém, com alma e senso humorístico apuradíssimo. Personagens inesquecíveis são mais uma das qualidades dessa obra com mensagens escondidas embaixo de camadas espessas de piadas irreverentes, mas ainda sim, honestas. Sem forçar nenhum riso, esta criação singular compromete-se em se manter como um clássico por muitos e muitos anos. Embora suas propostas tenham sido aperfeiçoadas e maximizadas em obras posteriores de Joel e Ethan Coen, sua importância continua inabalável.

Arizona Nunca Mais (Raising Arizona) — EUA, 1987
Direção:
 Joel Coen, Ethan Coen
Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen
Elenco: Nicolas Cage, Holly Hunter, Randall “Text” Cobbs, John Goodman, William Forsythe, Trey Wilson, Sam McMurray, Frances McDormand
Duração: 92 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.