Crítica | Armadilhas do Coração (2002)

Armadilhas do Coração é um filme repleto de ironia e reviravoltas dramáticas envolvendo um dos sentimentos abstratos mais recorrentes na literatura do século XIX: o amor. Este foi um período que teve como representantes os canônicos Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Henry James, José de Alencar, Tolstoi, dentre outros escritores marcantes, conhecidos por suas histórias de amor conectadas aos elementos da vanguarda romântica, verdadeiros arautos dos costumes dessa época vibrante, marcada, dentre tantas características, pela moral vitoriana, dramas que investiam na radiografia da intimidade do lar e nas paixões esparramadas, conhecidas popularmente na contemporaneidade como melodrama.

Oliver Parker dirigiu e escreveu o roteiro inspirado na peça de Oscar Wilde, transformada numa trama de 97 minutos que versa sobre as confusões amorosas de dois amigos que frequentam as badaladas festas de Londres em 1890. Algy (Rupert Everett) e Jack (Colin Firth) formam essa dupla inseparável que vive constantemente a pregar peças com as pessoas, usando até mesmos pseudônimos em suas “aventuras do coração”, até que um dia encontram-se apaixonados por Gwendolen (Frances O’Connor) e Cecily (Reese Witherspoon), respectivamente.

Os problemas começam a surgir depois dessa paixão. Eles descobrem que numa situação específica utilizaram o mesmo pseudônimo para ambas as mulheres, mas uma situação rocambolesca pode coloca-las no mesmo ambiente, o que se torna um problema, haja vista a falta de honestidade e comprometimento oriundo das práticas dos rapazes, algo inadmissível para a família tradicional e seus “valores” na época. É a partir daí que vão precisar achar uma saída para não perder a mulher amada, por meio de atitudes positivas, frases de efeito e entonação teatral para manter-se próxima ao texto do autor ponto de partida.

Conforme escreveu Oscar Wilde certa vez, “não há nenhuma prisão no mundo na qual o Amor não possa forçar a entrada”. Os protagonistas desenvolvem as suas estratégias para encontrar a felicidade esperada, tendo como inspiração mensagens desse quilate, o que permite o embate, no meio do caminho, com os obstáculos já esperados, elementos que fazem os conflitos narrativos ganharem desenvolvimento, nos fazendo remissão ao contraste da citação anterior, oriunda do mesmo autor, conhecido por ter declarado que “no amor todos os caminhos acabam de forma igual – desilusão”.

Com diálogos que beiram ao artificialismo do teatro filmado, mesclados ao tom farsesco da produção, Armadilhas do Coração é um bem “a cara” da sua época, um reflexo do século XIX por meio de uma trama cômica e romântica. O tom “comédia de erros” se estabelece, dentre tantos aspectos, ao trabalho de Charlie Mole na condução musical. Os figurinos de Maurizio Millenotti nos permitem uma aproximação com o período em questão, elementos que cumprem bem a sua função e são bem captados pela direção de fotografia de Tony Pierce Roberts, algo básico, sem grandes momentos memoráveis.

Dentre os destaques temáticos e contextuais, Armadilhas do Coração se assemelha ao romântico e idealista Em Luta Pelo Amor, em especial, no que diz respeito aos momentos em que a mulher circula na sociedade, pois apresenta o passado numa perspectiva mais libertária e política conectada com as demandas do contemporâneo. Apesar dos avanços, era uma época complicada, pois com o fim das guerras que marcaram o século XVIII, o mundo burguês se estabeleceu, espalhando-se como um rizoma por meio de seu estilo urbano, individualista e com formas inovadoras de organização política.

Foi a época em que o despotismo dos monarcas se fazia presente na figura do marido, autoridade no casamento e “dono” de suas esposas, “mulheres propriedades”. Com moças na janela, o século XIX teve como marco na seara dos relacionamentos, as “amostras de balcão”, prática que consistia em colocar mulheres à beira da janela para aguardar a passagem do marido que a teria como “posse” no futuro. Diante da situação, fica o questionamento: é possível amar desta maneira?

Armadilhas do Coração — (The Importance Of Being Earnest) Estados Unidos, 2002.
Direção: Oliver Parker
Roteiro: Oliver Parker
Elenco: Anna Massey, Colin Firth, Frances O’Connor, Judi Dench, Reese Witherspoon, Rupert Everett, Tom Wilkinson
Duração: 97 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.