Crítica | ARQ

estrelas 4

Imagine a fusão de Feitiço do Tempo, Contra o Tempo e No Limite do Amanhã em um espaço confinado e orçamento à la Primer. Imaginou? Pois bem. Isso é, essencialmente, ARQ, mais um longa-metragem produzido pelo Netflix.

Protagonizado por Robbie Amell (da família Amell, a mesma de seu primo mais famoso Stephen, que carrega o DNA do teatro shakespeariano no sangue…) e por Rachael Taylor (a Trish Walker de Jessica Jones), este pequeno, mas energético filme de loop temporal infinito escrito e dirigido por Tony Elliott, roteirista de Orphan Black, é, surpreendentemente, uma gostosura de se assistir. E não, não estou falando do casal de atores já citados, ainda que mesmo Amell, com todas as sua limitações, não faça feio aqui, talvez pelo roteiro não exigir mais do que um rosto sério e tenso praticamente o tempo todo.

A história é enganosamente simples: Renton (Amell) acorda do que acha ser um pesadelo em que três homens com máscaras invadem seu quarto onde dorme com sua amada Hannah (Taylor), apenas para vivê-lo novamente quando morre. E assim sucessivamente. Mas a cada nova vivência, Renton vai mais além, aprende mais um pouco e a inteligente direção de Elliott, na mesma medida, nos apresenta mais do pequeno universo do filme, todo ele rodado no interior do que parece ser um esconderijo do protagonista em uma Terra devastada por uma guerra e tendo como ponto focal um estranho gerador de moto contínuo que ele furtara da empresa que domina grande parte do mundo (o tal ARQ do título).

Quando o espectador chega ao ponto de “perceber a manha” do filme, o roteiro bem cadenciado altera o status quo levemente e tudo recomeça, forçando-nos a novamente nos adaptar ao que está acontecendo e como Renton pode resolver a situação. E essas pequenas alterações vão se repetindo e repetindo de maneira que cada despertar do protagonista passa a ser uma experiência nova para ele e, claro, para nós. Este é um daqueles filmes que merece aquela discussão acalorada ao final sobre os detalhes dos loops temporais e das soluções encontradas e talvez até um gráfico explicativo aos que se empolgarem mais com o que assistiram.

Em sua curta duração, o roteiro não perde tempo com nada e mesmo que algumas explicações pareçam expositivas demais e, em última análise, complicadas de se entender completamente de primeira, o fato é que sua circularidade é de se tirar o chapéu, com cada peça encaixando-se perfeitamente no cada vez mais complexo quebra-cabeças que vai se formando. Elliott usa a curva de aprendizado dos personagens para emular a curva de aprendizado dos espectadores e a velocidade narrativa vai aumentando proporcionalmente na medida em que a fita progride sem que as bobagens tecnológicas atrapalhem seu ritmo ou sua lógica interna. E, de quebra, as questões políticas desse mundo em frangalhos são organicamente inseridas ao longo da história para que o drama intimista que assistimos ganhe contexto global, mas sem nunca perder de vista o casal protagonista.

É bem verdade, porém, que as motivações dos personagens não ganham grande desenvolvimento, mas existe uma razão clara para isso: a produção tem como foco a questão do loop temporal. O filme funciona com base nesse artifício e para ele. Não é apenas um MacGuffin e sim quase que um personagem na trama que precisa ser compreendido talvez até mais completamente do que as intenções de Renton e Hannah, ainda que haja sim espaço para que os dois sejam suficientemente trabalhados para que eles não pareçam unidimensionais.

Dentro de um orçamento que parece ter sido muito modesto (isso para não dizer que o filme parece ter custado menos do que muito fanfic que vemos por aí), Tony Elliott faz milagre com um design de produção espetacular em que a casa de Renton é compartimentalizada a ponto de novos cômodos serem revelados na medida em que mais tempo é vivido pelo personagem a cada loop, mantendo a novidade também no campo visual. A tensão é palpável graças a uma câmera nervosa, mas sem ser tremida e uma fotografia que empresta um ar desesperançoso, quase monocromáticos para a história, cortesia de um trabalho preciso com câmeras digitais de Daniel Grant, profissional com vasta experiência em curtas-metragens.

ARQ é uma amálgama de muitos e ótimos filmes que existem por aí, mas ele, mesmo assim, consegue trazer elementos novos a cada punhado de minutos de projeção em seus corridos 88 no total, mantendo o espectador curioso e constantemente quebrando a cabeça. É diversão garantida e um potencial gerador de muitas conversas posteriores com as mais diversas teorias sobre viagem no tempo.

ARQ (Canadá/EUA – 2016)
Direção: Tony Elliott
Roteiro: Tony Elliott
Elenco: Robbie Amell, Rachael Taylor, Gray Powell, Jacob Neayem, Shaun Benson, Adam Butcher, Jamie Spilchuk
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.