Crítica | Arquivo X (Série Completa)

estrelas 4,5

Essa crítica pode conter spoilers das 9 temporadas do seriado!

O ano era 1993. Naquela época, a Internet era apenas um sonho possível para poucas pessoas e a informação sobre o que vinha de fora era feita basicamente pelo boca-a-boca e por revistas especializadas. Foi nesse cenário que fica difícil até de imaginar que surgiu uma das séries mais importantes da História da televisão americana.

Arquivo X era uma aposta da FOX para trazer de volta à TV um gênero tão explorado no cinema: a dupla de tiras e as aventuras em busca de assassinos e criminosos. O único detalhe aqui era que a dupla em questão tinha, pelo menos no início, pouca afinidade. E os bandidos que eles caçavam iam de extraterrestres, passando pelo sobrenatural e também por conspirações envolvendo inclusive o governo americano. A mistura deu certo e a série contou com nove temporadas e mais dois filmes para o cinema, além de uma série derivada de uma temporada e quadrinhos.

O criador da série era famoso por ser especialista em comédias na TV americana. Chris Carter é jornalista e passou quase toda a vida curtindo o sol e as ondas da Califórnia, onde nasceu. Lá, também integrou por muitos anos a redação de uma revista voltada ao surfe. Mas essa mente seria responsável pela criação de um dos seriados mais importantes da TV americana. Após a aprovação para o piloto da série, a equipe rumou para Vancouver, no Canadá, já que os gastos de filmagens por lá eram mais baratos e a cidade oferecia boas florestas, essenciais para ambientar a série. Apesar de Arquivo X ter servido como fonte de inspiração para muitos programas que viriam depois, a própria série também bebeu em um fenômeno anterior do gênero, a excepcional Twin Peaks. Inclusive David Duchovny havia integrado o elenco da série, dando vida a um agente do FBI que muda de sexo. Outro nome importante que aparece na produção do seriado é Vince Gilligan, que depois ganharia todos os prêmios possíveis com Breaking Bad. Além de produtor executivo, Gilligan foi responsável por vários roteiros ao longo das 9 temporadas de Arquivo X e também se arriscou na direção.

Arquivo X ainda ganhou um spin-off. The Lone Gunmen, ou Os Pistoleiros Solitários, como a série foi chamada no Brasil, estreou em 2001. As histórias giravam em torno de um grupo de três nerds, John Fitzgerald Byers (Bruce Harwood), Richard Langly (Dean Haglund) e Melvin Frohike (Tom Braidwood). A trupe aparecia em alguns episódios de Arquivo X e a FOX achou que ali poderia render mais. Leigo engano. Mesmo com algumas participações de personagens importantes da “série mãe” o programa não passou da primeira temporada, que contou com 13 episódios. Porém, a trupe continuaria aparecendo em episódios importantes de Arquivo X.

Os Arquivos X

Ter investigadores do FBI em uma série de TV nunca foi novidade. Mas criar uma divisão especializada em casos sobrenaturais e inexplicáveis era realmente genial. A pequena sala bagunçada que trazia em uma das suas paredes um dos pôsteres mais icônicos da TV empolgava qualquer espectador. Tudo poderia ser um trabalho para os investigadores dessa divisão e claro que, no meio da rotina buscando fantasmas, alienígenas e muito mais, os agentes precisavam lutar contra o sistema, que muitas vezes estava envolvido até o pescoço.

Não foram poucos os episódios da série em que as conspirações que sempre existiram no imaginário dos americanos, e também de todo mundo, vieram a tona. O mistério envolvendo a famosa Área 51 nos Estados Unidos era um dos temas recorrentes da série. A divisão chegou a ser encerrada em alguns momentos da série, mas nunca de forma definitiva, o que gerava um suspense no espectador a cada novo episódio. Tudo era mais fácil em um tempo sem a velocidade da Internet.

Os protagonistas

A alma da série era mesmo os seus protagonistas: Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson). Mulder é aquele que vê conspiração em tudo. Atormentado pelo desaparecimento da irmã quando ele era adolescente, Mulder acredita que a menina foi abduzida por extraterrestres e esse é um dos motivos da sua entrada nos Aquivos X. Na primeira temporada Mulder é visto quase como um louco, um lunático que acredita em coisas inacreditáveis.

Ao longo das temporadas a sua verdade vai ganhando mais força, bem como o desenvolvimento do personagem vai nos mostrando que Mulder é maior do que apenas a sua crença em algo além das coisas terrenas. Seu contraponto é a médica legista Dana Scully. Cética, a personagem é uma espécie de São Tomé, só acredita naquilo que vê e por isso a dupla improvável dá tão certo. Digamos que ela é recrutada justamente para ser uma espécie de vigilante de Mulder. Com o passar das temporadas, Scully percebe que realmente algo além pode existir e entrega-se à crença de Mulder. A química entre os dois personagens é latente, já desde o primeiro episódio. Em vários outros momentos os dois transparecem esse amor, que é mostrado com detalhes a partir da sétima e oitava temporadas quando Scully engravida e dá a luz ao pequeno William, filho de Mulder.

O Homem Fumante (Canceroso, para os íntimos)

Aliens, o governo americano e muitas coisas sobrenaturais eram os principais inimigos de Mulder e Scully. Mas talvez ninguém tenha sido um vilão tão importante para a série como O Homem Fumante, ou O Canceroso. Interpretado por William B. Davis, o personagem já mostrou que daria muita dor de cabeça para os protagonistas já na primeira temporada. Ao longo dos anos, a sua relação com Mulder previa que os dois tinham algo em comum, o que de fato se confirmou na série e que deu um sentido novo para os dois personagens. O Canceroso foi um dos antagonistas mais ambíguos da TV até hoje, um personagem cheio de camadas que esteve presente em muitos eventos importantes da história americana, coisas que só em Arquivo X poderiam acontecer.

Mudanças

Na sexta temporada, as gravações de Arquivo X deixaram o Canadá e começaram a ser realizadas em Los Angeles. Parece que a troca não fez bem para a série que começou a sofrer queda de audiência e também a se perder um pouco em alguns episódios. Dois anos depois, a oitava temporada seria marcada pela saída de Duchovny, descontente com a FOX e com o andamento da série e em busca de novos papéis na TV e no cinema. No seu lugar é escalado Robert Patrick que dá vida ao Agente Dogget agora parceiro de Scully na divisão. É nessa temporada que somos apresentados a agente Monica Reyes, nova integrante da trupe.

Entre o quinto e o sexto anos, a série ganhou também as telas do cinema com o primeiro filme baseado nas histórias do agentes, também dirigido por Carter. A história da trama seguia a linha da série. Já o segundo filme lançado em 2008 se passava após os eventos do final da história.

A série também revelou o talento por trás das câmeras de seus dois protagonistas. Duchovny roteirizou nada menos que oito episódios e mostrou sua habilidade também atrás das câmeras como diretor em três oportunidades (The Unnatural S06E19, Hollywood A.D. S07E19 e William S09E16) . Já Dana dirigiu e roteirizou apenas um episódio (All Things, S07E17), mas mostrou que entendia do riscado.

Após nove temporadas Arquivo X deixou de ir ao ar, mas não sem deixar uma legião de fãs e de inspirar outros vários seriados de TV. Apesar dos altos e baixos do seriado (mais altos, ainda bem!), Arquivo X mudou a forma como se via TV nos anos 90, trazendo uma inquietude para o seu público que ainda não tinha a Internet para poder debater e criar novas teorias acerca dos personagens. Era no boca a boca mesmo, nas mesas de bar, na escola, na faculdade, que os fãs trocavam experiências. Como fã, até hoje sinto falta de um programa que questione as verdades já ditas e me coloque aquela pulga gigante atrás da orelha.

Para muitos fãs órfãos das aventuras de Mulder e Scully e das teorias conspiratórias criadas ao longo de nove temporadas ainda há esperança. A Fox, vendo mo mercado saudosista uma boa oportunidade de ganhar mais dinheiro e atrair mais audiência, decidiu criar um especial que vai ao ar a partir de 24 de janeiro. O primeiro episódio será um especial de duas horas para os fãs matarem as saudades dessa que foi uma das maiores séries já vistas. Afinal, desde 1993, ano de sua estreia, Arquivo X tornou-se uma marca lucrativa: nove temporadas, dois filmes, spin-offs, muitos livros, quadrinhos, brinquedos e produtos relacionados ao universo do programa foram criados. São mais de 20 anos servindo de inspiração e deixando milhares de pessoas com boas recordações do passado não muito distante. Quem sabe com essa retomada a série ganhe um desfecho melhor do que aquele feito no seu encerramento, que deixou uma grande parte dos fãs frustrada. E que a maior série de mistério e conspiração já feita pela TV siga sendo esse clássico em nossa memória e fazendo com que todos os milharais do mundo sejam ainda mais apavorantes do que parecem.

A gente já havia falado dos nossos episódios preferidos da série. Confere o post aqui!

Arquivo X – Série Completa (The X-Files, EUA, 1993 – 2002)
Criador: Chris Carter
Principais diretores: Chris Carter, Vince Gilligan, Kim Manners, Rob Bowman, David Nutter
Principais roteiristas: Chris Carter, Vince Gilligan, Franz Spotnitz, John Shiban, Howard Gordon, Glen Morgan
Elenco principal: Gillian Anderson, David Duchovny, Mitch Pileggi, Robert Patrick, Tom Braidwood, William B. Davis, Annabeth Gish
Duração: 44 min. (aprox. cada episódio – 202 episódios em 9 temporadas no total)

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.