Crítica | Arraste-me Para o Inferno

estrelas 4

Arraste-me Para o Inferno chegou numa época bastante propicia. A crise econômica que assolava os Estados Unidos, o hiato longínquo de Sam Raimi em relação ao gênero que o consagrou e a necessidade de filmes de terror que realmente causassem alguma comoção no público, mesmo que a trama não trouxesse nada da famigerada obrigatoriedade de “originalidade”, um termo tão escorregadio quanto uma fritura.

Cheio de truques e maneirismos de câmera, o cineasta uniu-se ao irmão Ivan Raimi para uma tarefa dupla na realização: além de assinar a direção, Sam Raimi também é coautor desta narrativa sangrenta, exagerada, visceral e extremamente divertida. Produzida pela Ghost House, em parceria com a Universal, Arraste-me Para o Inferno fez estrondoso sucesso na época de seu lançamento e demonstrou que o cineasta ainda era muito competente em mescla horror e humor em doses cavalares.

Se olharmos detidamente para a estrutura do filme, veremos que há, como pano de fundo, uma parábola sobre a crise econômica que assolou os Estados Unidos desde 2008: o banco tenta retirar a casa de uma senhora desprivilegiada, ao se encontrar diante de uma maldição, Christine Brown precisa vender os seus pertencer para pagar a sessão de libertação demoníaca, algo que lhe custará nada menos que U$10 mil, além do interesse veemente do médium ao observar o brilhante cartão de crédito da moça em desespero. É tudo alegoria das boas, basta o espectador ter a capacidade de enxergar além.

O filme se inicia estruturado nos estereótipos de sempre. É preciso, por sinal, se desvencilhar destas questões para conseguir adentrar no universo fantástico proposto pelo filme. Uma criança mexicana surge assustada, tentando desvencilhar-se de uma maldição por ter roubado uma cigana. Ao chegar numa casa de práticas mediúnicas, os responsáveis pelo local fazem de tudo para salvá-la, mas é tarde demais: a criança é levada, como sugere o título, para o inferno, e a narrativa avança dez anos para nos apresentar ao cotidiano de Christine Brown.

Conduzida pela trilha sonora viciante de Christopher Young, a história trata de nos mostrar Christine Brown (Alison Lohan), uma bancária que visa alavancar a sua carreira e esforça-se cotidianamente para conseguir a vaga de diretora assistente, posto que disputa com o igualmente competente e nada honesto Stu (Reggie Lee). Será esse entrave pela vaga, digno de uma parábola bíblica, que vai desencadear os terríveis de adiante.

Brown vive tranquilamente com o seu namorado, o professor de Psicologia Clay Dalton (Justin Long). Um dia, visando impressionar o seu chefe, ela nega o pedido de dilatação de um prazo para uma senhora exorbitantemente asquerosa. A mulher é retirada do espaço de forma brutal e humilhante, prometendo-lhe retorno. Assustado, Brown sente-se mal por dentro, mas ao receber os cumprimentos do chefe, sente-se animada, haja vista a corrida pela cadeira de diretora assistente.

Como as coisas não foram arquitetadas para serem fáceis e alguém, além do menino da abertura do filme, precisa ser “arrastado para o inferno”, eis que o conflito macabro se estabelece na vida de Christine Brown: a Sra. Ganush (Lorna Raver) a encontra no estacionamento. Entre o material e o sobrenatural, a idosa surge sedenta por vingança e a amaldiçoa. De agora em diante, cabe a Brown, assim como Rachel, de O Chamado, correr atrás para descobrir a maneira de reverter a maldição e salvar a sua pele.  Neste ponto, o filme lembra bastante A Maldição do Cigano, de Stephen King, salva as devidas proporções.

Enquanto o demônio convocado pela idosa não surge para levar Christine para as profundezas, a sua vida se torna um inferno sem precedentes: imagens sobrenaturais, sombras, situações escatológicas envolvendo imagens demoníacas, alegorias que nas mãos de Sam Raimi tornam-se obras de arte no que tange aos aspectos visuais, seja através da movimentação brusca e estilística da câmera ou dos objetos em cena. Como destaque, basta olhar detidamente para o trabalho da equipe de design de produção: a agência onde Christine trabalha é toda ornamentada em tons claros, tais como bege, branco e cinza, tendo em vista dar o destaque necessário quando o sangue começar a, literalmente, jorrar.

O riso, diante de algumas cenas, surge como descarga nervosa para a montanha-russa de emoções que o filme nos proporciona. Com roteiro pronto, mas engavetado, desde o lançamento de Uma Noite Alucinante 3, Arraste-me Para o Inferno possui carga bastante elevada no que diz respeito ao nonsense e ao kitsch. Os exageros propositais invadem a captação de imagens da produção: planos e contra-planos velozes, zoons e movimentos bruscos, além da sonoplastia que deixam de lado qualquer sutileza para demonstrar que os envolvidos na estruturação narrativa estão bastante cientes do que fazem.

Todos estes detalhes ganham forma através da parceria de sempre com Bob Murawski, editor que sabe muito bem do estilo do seu amigo/diretor Sam Raimi. Apesar de não ser um primor no que diz respeito ao desenvolvimento do roteiro, a dupla Raimi constrói personagens interessantes e que servem de escada para as melhores cenas envolvendo Christine Brown. Justin Long é o namorado compreensivo, mas cético. A sua família não aceita o relacionamento, pois acredita que o rapaz tem potencial suficiente para conseguir uma namorada mais interessante, o que por sinal, vai alavancar a sua carreira. Como adversário há o personagem desenvolvido por Reggie Lee, um acirrado competidor que deseja a cadeira de diretor assistente tão quanto a moça.

O chefe, o Sr. Jacks, interpretado por David Paymer, parece bastante pacifico, mas desenvolve a sua microfísica através do poder que o seu cargo tem dentro da corporação. O vidente Rham Jas, interpretado pelo até então desconhecido Dileep Roo é um homem que mesmo crente no sobrenatural, lê com afinco textos de Freud e Jung. Em suma, o roteiro pode não apresentar uma estrutura inovadora (e precisa?), mas delineia bem os seus personagens, coisa muito rara dentro do campo de produção do gênero terror.

Arraste-me Para o Inferno estreou em 2009 no Festival de Cannes e ganhou o Saturn Awards 2010 por Melhor Filme de Terror. Houve rumores de uma continuação, mas sinceramente, o perigo destas obras é entrar no mesmo ciclo da franquia Premonição. A cada filme subsequente, a impressão que se tem é que a mesma história é refilmada com intervalos de um a dois anos, pois muda-se os personagens, mas o mote é o mesmo. Com a história dos irmãos Raimi o risco é o mesmo. Cientes disso, a provável sequência parece ter sido cancelada. Nós, admiradores do estilo do cineasta, agradecemos, não é mesmo, caro leitor?

Arraste-me Para o Inferno (Drag Me To Hell) – EUA, 2009.
Direção: Sam Raimi.
Roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi.
Elenco: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, David Paymer, Adriana Barraza, Reggie Lee, Molly Cheek, Alex Veadov.
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.