Crítica | Arrested Development – 5ª Temporada: Parte 1

Há sempre spoilers na Barraca de Banana.

Eu assisto muitas séries, mas nem todas me deixam tão ansioso por novidades como Arrested Development. Lembro de quando a Netflix comprou os direitos da comédia e decidiu seguir a história em uma quarta temporada, foi uma alegria quase tão grande quanto a de um anúncio oficial da produção do tão sonhado filme da série Community (#sixseasonsandamovie, vamos fazer acontecer!).

Quando a nova temporada de Arrested foi lançada, as coisas tinham mudado um pouco. Uma parte do elenco, antes constituído de nomes pequenos, agora estava sendo bastante reconhecido. Michael Cera e Jason Bateman agora estão em comédias de sucesso no cinema e Will Arnett é a voz do último grande Batman da sétima arte: aquele feito de Lego. A solução que o criador da série, Mitchell Hurwitz, acabou encontrando foi trazer uma história onde os acontecimentos da temporada anterior resultam em membros da família seguindo caminhos diferentes. A narrativa foi construída em um formato que muitos fãs acabaram não gostando. Os personagens, agora separados, ganhavam episódios próprios, que serviam como um momento específico na linha temporal da temporada. Então você entrava meio perdido e tinha que ir se situando com as informações disponíveis para o público.

Eu sei que não é uma opinião popular entre os fãs, mas eu acho simplesmente genial o que foi feito, e ao reassistir – como aquecimento para a nova – foi ótimo encontrar novas piadas que só fazem sentido nesse exato formato, brincando com a narrativa normal de séries do gênero. Esse é um dos motivos pelo qual acabei não gostando tanto do “remix” da temporada, chamado “Consequências Fatais”, que a Netflix provavelmente “pediu com jeitinho” para Hurwitz montar, deixando os episódios menores (o remix foi dos originalmente quase quarenta minutos da quarta temporada para os vinte minutos pelo qual os fãs estavam habituados nas primeiras três primeiras) e na ordem cronológica, com inserções e exclusões de algumas cenas. Isso não só estragou muitas piadas que se perderam na mudança do formato, como pareceu uma desculpa esfarrapada para deixar as coisas mais acessíveis para quem não presta atenção. Não gosto nem um pouco quando comprometem uma obra tão inteligente só para agradar algumas opiniões negativas, mas é assim que funciona a vida, então… vou seguir em frente e falar sobre a quinta temporada, que só chegou longos cinco anos depois, e mesmo assim, veio dividida em duas partes (a primeira com oito episódios de um total de dezessete), por motivos de “Netflix quer entrar na corrida por um Emmy e a data para inscrição está acabando”.

A família Bluth está de volta, mais uma vez, para encarar as consequências da fatídica noite de celebração do Cinco de Mayo. Michael Bluth (Jason Bateman) precisa se reconciliar com seu filho, George Michael (Michael Cera), depois de um desentendimento envolvendo a filha de Ron Howard (o diretor também narra a série), Rebel Alley, interpretada por Isla Fisher. Mas essa aproximação não vai ser tão fácil assim, já que os Bluth são bastante teimosos, e isso faz parte do lema da família: “Melhor esquecer do que perdoar”. Essa é talvez a parte que menos me interessou até agora, mas felizmente teve um tipo de desfecho, ou o primeiro passo para um, perto do fim dessa metade de temporada.

Ao mesmo tempo, Lucille (Jessica Walter) tenta uma abordagem diferente e um comportamento novo, assim como Lindsey (Portia de Rossi), agora fazendo parte do problema e entrando na carreira política. Maeby (Alia Shawkat), sabendo dos planos da mãe, continua em sua procura por novos planos para estragar os planos de sua mãe. Lindsey pode aparecer por pouco tempo nessa temporada, mas o núcleo feminino está de parabéns com a sempre incrível atuação de Jessica Walter, que parece melhorar seu personagem cada vez mais e deixá-lo a definição do sarcasmo (se eu pudesse ilustrar a palavra no dicionário, usaria uma imagem de Lucille bebendo), e Maeby se envolve em uma trama conspiratória sem saber. Todo o seu arco no asilo para idosos rende algumas das melhores falas da temporada até agora, principalmente na presença de um casal de gansos. E o que está acontecendo com as perucas? Viraram um objeto para piadas recorrentes há algum tempo. Estou esperando uma grande revelação do mesmo nível de Buster (Tony Hale) perdendo sua mão.

Nesse assunto, Buster se deu mal por conta do desaparecimento de Lucille Austero (mais conhecida como Lucille 2, personagem da veterana e premiada Liza Minnelli) e responde por acusações de envolvimento no talvez, quem sabe, possível, assassinato da rival de sua mãe. Com sua nova mão, Buster é um dos sacos de pancada da série, mas ninguém sabe apanhar tão bem quanto Tobias (David Cross). O ex-analista/terapeuta (nunca peça para ler seu cartão) não sabe como lidar com sua crise de identidade por conta dos vários personagens interpretados sem sucesso.

Meu núcleo favorito, e isso não me surpreende, é George Sr (Jeffrey Tambor) e Gob (Will Arnett). Gob mantém seu relacionamento com Tony Wonder (Ben Stiller), sem ao menos saber o que esse relacionamento é, e Arnett é meu ator favorito em todo o elenco, então só deixo aqui todos os meus elogios para essa pessoa que imortalizou The Final Countdown, de novo, com um truque mágico valendo a melhor e mais engraçada cena desses novos episódios até agora.

A linha do tempo de George foi facilmente a menos interessante da última vez, mas agora tudo está se desenrolando, sua trama transformou-se em um mistério intrigante, introduzindo elementos divertidos e mais daqueles trocadilhos e piadas recorrentes que comprovam a genialidade do roteiro de Arrested Development. O jogo de palavras com o retorno de “Mr. F”, a trilha utilizada como uma das premonições narrativas que acabam tendo soluções imprevisíveis e aquela pessoa ecoando “coincidência” no meio da cena, tudo que você sentiu falta está de volta e finalmente temos algumas respostas para pontas soltas da temporada anterior, como as visões de George Sr. no deserto e o que aconteceu com toda aquela confusão envolvendo a muralha. Por falar na muralha, se tem uma coisa boa da presidência do apresentador original da versão norte-americana de O Aprendiz é sua colaboração para a série achar novas maneiras de fazer graça da barreira proposta pelos Bluth, sem perder a oportunidade de parafrasear seus discursos através de Lindsay. Arrested se destaca no meio de tantos programas desesperados em zombar do homem mais bronzeado dos Estados Unidos, jamais soando como um sermão, indo longe ou óbvio demais em sua abordagem.

Depois de ter aprendido a lição que não deveria ter sido dada em primeiro lugar, a série faz questão de mostrar todo o elenco unido em um mesmo set várias vezes, distribuindo-os de um jeito mais orgânico no resto da temporada, e quando não tem tempo para isso, arranja uma desculpa que dá pra perdoar por conta da natureza absurda da série. Para parecer que a agenda de todos estava sincronizada e coincidiu com as gravações de Arrested, foram usadas várias técnicas para manter a ilusão, como jogos de câmera ou um lençol jogado em cima da Lindsey para parecer que ela estava no mesmo plano que sua mãe, mas fica bem óbvio o propósito do tecido, sem contar que se você ainda tinha duvida, é só ver as cenas em que ela está sem o lençol e sua silhueta revela que aquilo tudo foi feito em um fundo verde. Essa parte até passa despercebida se você não se incomoda, mas tem uma envolvendo Gob e Kitty (Judy Greer) que dá vontade de retirar aquilo que eu disse sobre perdoar essas soluções.

Arrested Development retorna devagar e demora um pouco para entrar nos trilhos depois de tudo que passou, mas continua forte, dando aquela sensação familiar das primeiras temporadas, com o elenco reunido, e isso é uma coisa maravilhosa. Pode não ser mais tão energético e insano como lembramos, e isso é normal para uma produção com uma equipe que já não é tão jovem quanto antes, mas amadurecer é bom, e deveria ser bem recebido pelo público, isso é um sinal de mudança, e não importa se até o título da sua série indica uma recusa em evoluir, ninguém aguenta a mesma coisa pra sempre. Com esses oito episódios ficou clara a intenção de incluir um pouco mais de drama na história, confrontando partes do passado de Michael que nós ainda não tivemos a chance de ver.

Com todos as recentes polêmicas envolvendo o comportamento abusivo de Jeffrey Tambor durante as filmagens e a desastrosa entrevista para o The New York Times, que eu nem vou detalhar aqui por ser tão vergonhosa, mas espero que tudo isso não tenha afetado a possibilidade de uma sexta temporada, isso se Hurwitz desejar. Vamos esperar a segunda parte e ver se esse é o fim da família do ano ou teremos mais dos Bluth. Digamos que estou “bi curioso” pelo que está por vir. 

Arrested Development – 5ª Temporada: Parte 1 — EUA, 29 de maio de 2018
Criação: Mitchell Hurwitz
Direção: Troy Miller
Roteiro: Mitchell Hurwitz, James Vallely, Maggie Rowe, Hallie Cantor
Elenco: Jason Bateman, Michael Cera, Alia Shawkat, David Cross, Jeffrey Tambor, Portia de Rossi, Will Arnett, Tony Hale, Jessica Walter, Ron Howard, Henry Winkler.
Duração: 8 episódios de aprox. 26 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie