Crítica | Arrow – 1ª Temporada

estrelas 3

Depois de aparecer esporadicamente nas 6ª e 7ª temporadas de Smallville e de ganhar lugar fixo na mesma série a partir da 8ª temporada, Oliver Queen, o Arqueiro Verde, ganhou uma série solo no ano seguinte do final de suas aventuras com o jovem Clark Kent. No entanto, talvez muito sabiamente, a CW tenha começado do zero, escalando outro ator para o papel do mais famoso arqueiro dos quadrinhos e ignorando eventual continuidade ou relação com Smallville.

De certa forma, a primeira temporada de Arrow sofre exatamente dos mesmos problemas de Agents of S.H.I.E.L.D., só que em ordem inversa. Mas em breve chegarei aos problemas, pois prefiro focar no que a série tem de bom primeiro.

Os showrunners nos pedem que aceitemos a premissa improvável: um jovem playboy bilionário, depois de naufragar no mar da China, passa cinco anos em uma ilha e, durante esse tempo, torna-se um exímio arqueiro e, mais importante que isso, deixa para trás seu passado irresponsável, para adotar uma postura séria, responsável e preocupada. Com sua volta à civilização, para surpresa geral, ele emprega suas habilidades para, secretamente, com um livro de nomes dos ricos corruptos de Starling City entregue por seu pai, que morrera em decorrência do naufrágio, limpar a cidade desses vilões utilizando-se da persona de um justiceiro encapuzado que maneja o arco e flecha com precisão absoluta.

E aceitarmos que um justiceiro pode agir quase que livremente pelas sombras de uma cidade flechando os vilões é algo que faz parte da suspensão de descrença necessária para qualquer série ou filme desse tipo. O que os showrunners nos garantem é um bom grau de “veracidade” nas ações do jovem e revoltado Oliver Queen (Stephen Amell). Seu sofrimento na ilha misteriosa é visível, com sequelas por todo o seu corpo (20% de sua pele é coberta de tecido de cicatriz, como os primeiros episódios deixam bem claro) e que são plenamente justificadas pelos flashbacks utilizados para nos mostrar o que aconteceu nesses cinco anos de ausência.

Confesso que, por alguns episódios, fiquei receoso que o roteiro caísse na armadilha mortal de Lost, fiando-se demais na “volta ao passado”, complicando demais a trama e criando mistérios insolúveis. Mas esses flashbacks são homeopáticos e, apesar de aparecerem em todos os episódios, a cadência do que vemos na ilha é bem mais lenta do que o que vemos no presente, em Starling City. Não sei o que o futuro trará e o quanto esse artifício ainda será explorado, mas a progressão narrativa do que se passa na ilha é perfeitamente suportável e dá estofo e profundidade ao Oliver Queen que vemos flechar vilões sem dó nem piedade em sua cidade corrupta.

E Queen logo se cerca, revelando sua identidade secreta (que, até o final da temporada, mais umas 18 pessoas descobrem), de um parceiro, o guarda-costas e ex-soldado condecorado John Diggle (David Ramsey) que faz as vezes de sidekick, mas, também, de “Grilo Falante”, atuando como a consciência de Queen que, no começo, é carregada de ódio que acaba atrapalhando sua determinação. Esse ódio, aliás, impede que a série caia em outra armadilha, que é o uso de saídas, normalmente patéticas, para se evitar mortes. O justiceiro encapuzado mata mesmo seus inimigos, sem muitas firulas ou dores de consciência, especialmente no começo da temporada. Depois, com a evolução do personagem, há um cuidado maior para a diminuição das mortes, mas o fato é que, até o fim, Queen atira para matar sempre que necessário. Isso empresta seriedade e veracidade à história, pois seria incrivelmente ridículo se um arqueiro saísse pela cidade com flechas não mortais, como acontece, aliás, nos quadrinhos, com as várias trick arrows do Arqueiro Verde.

Arrow não cai pelo lado da invencionice. É “pão, pão; queijo queijo” nesse lado mais, digamos, sombrio (palavra essa que cada vez mais perde seu significado). E o mesmo vale para o nome do personagem. Nada de ele se auto-denominar Arqueiro Verde, o famoso personagem criado por Morton Weisinger e George Papp, em 1941. Na série, o herói – ou anti-herói, dependendo de seu ponto de vista – é , apenas, o “Capuz” (The Hood) que é como a polícia o chama em sua caçada ao vigilantismo. Apenas uma vez, e em tom jocoso, o “Capuz” é chamado de Arqueiro Verde.

Além disso, e aí estabeleço comparação direta com o que escrevi sobre Agents of S.H.I.E.L.D., a série começa de maneira muito ágil, engatando um episódio atrás do outro de maneira muito eficiente, brincando, muito eficientemente, com a curiosidade do espectador de, um lado, ver o que pretende o herói encapuzado e, de outro, entender exatamente o que raios aconteceu na ilha misteriosa. São os cinco ou seis episódios iniciais que fazem enorme bem à temporada como um todo, com um personagem ainda em desenvolvimento, primeiro agindo sozinho e, depois, apenas com a inicialmente hesitante ajuda de Diggle.

Já entrando no terreno do “não tão bom”, a série, então, começa a se repetir. Claro, isso era algo completamente inevitável considerando-se sua estrutura longuíssima de 23 episódios por temporada, algo que nenhum roteiro, por melhor que seja, consegue sustentar (falei sobre isso em detalhes, bem aqui). Depois de apresentado e estabelecido o personagem, o que se vê, por mais que os fanboys ganhem dezenas e dezenas de referências ao material fonte, especialmente a presença de Slade Wilson (Manu Bennett), conhecido nos quadrinhos como o Exterminador (Deathstroke), Floyd Lawton (Michael Rowe), conhecido como o assassino Deadshot e diversos outros, é o engate na estrutura do “caso da semana” ou “vilão da semana” que tanto atrapalha séries com potencial. A partir daí, tudo fica mais burocrático, mais padrão e bem menos interessante.

Além disso, também com o objetivo de esticar a narrativa o máximo possível e dar um caráter indesejado de Barrados no Baile à série, há um gigantesco número de romances complicados e jovens com olhares chorosos, como o próprio Oliver Queen, sua ex-namorada Laurel Lance (Katie Cassidy), seu amigo de infância Tommy Merlyn (Colin Donnell), filho do outro bilionário Malcolm Merlyn (John Barrowman), sua irmã Thea (Willa Holland) e até o caso dela, Roy Harper (Colton Haynes). Tudo é promíscuo, todos ficam com todos, todos têm passados traumáticos, todos têm tudo que toda série clichê de romance, aparentemente, precisa ter, inclusive uma capacidade de atuação bastante limitada (repare nas não mais do que duas expressões faciais diferentes do protagonista Stephen Amell). Até mesmo a mãe de Oliver, Moira (vivida pela bela Susanna Thompson) tem sua carga dramática exacerbada como mãe de família, viúva (mas casada com Walter Steele, vivido por Colin Salmon – executivo da Queen Consolidated) e também executiva, além de umas coisinhas mais que não revelarei para evitar spoilers. Tudo é muito dramático e arrastado, além de todos os personagens – TODOS! – serem sempre lindos e maravilhosos, como se tivessem, em qualquer situação, acabado de sair do salão de beleza. Aliás, lembram quando falei que 20% do corpo de Oliver é tomado por cicatrizes? Pois bem, nenhuma delas, eu repito, nenhuma delas é em seu belo rostinho com uma barba perfeitamente “mal feita”. Coincidência? O único personagem que foge à essa regra é o detetive Quentin Lance (Paul Blackthorne) que sempre está com cara de enjoado e como se tivesse acabado de acordar, mas policial precisa ser um pouco assim para funcionar dentro de uma estrutura narrativa como essa, não é mesmo?

Mas há mais problemas no próprio grau de suspensão de descrença que a série nos exige. É perfeitamente aceitável toda a situação de “origem” do herói, mas os showrunners, não satisfeitos, magicamente criam uma flecha-caverna (a base de operações de Oliver Queen chega mesmo a ser chamada disso na série) toda equipada com computadores de ponta que Queen aparentemente sabe operar como se a ilha em que tivesse vivido por cinco anos fosse, na verdade, um parque tecnológico. Além disso, eles esperam que aceitemos o mais imbecil dos uniformes: um capuz que impede quase que 100% da visão periférica do arqueiro (como a viseira de cavalos), com olhos com tinta verde borrifada. Com isso, ele não só é um arqueiro impossível, como toda vez que tem que falar com alguém que conhece, é obrigado a apagar as luzes (ou melhor, flechá-las, porque apagar só não é bacana) e falar com a cabeça baixa, olhando para o chão. Não há como não ter espasmos de risos com isso. E antes que venham os fanboys me xingar aqui, dizendo que fica mais realista ou cool ou sei-lá-o-quê, por favor, olhem novamente e pelo menos admitam o seguinte, “é ridículo, mas eu gosto mesmo assim”, pois isso eu consigo aceitar sem problemas.

E, como se um herói arqueiro obrigatoriamente tivesse que ter como vilão principal outro arqueiro, somos apresentados ao grande nêmesis dele, um arqueiro sombrio que se revela como sendo, claro, o personagem mais óbvio possível, cuja identidade não direi aqui em respeito à minha tentativa de evitar spoilers. E o mais divertido é que o tal arqueiro também usa capuz!

Apesar de ter atmosfera marcadamente mais sombria que Agents of S.H.I.E.L.D., a grande verdade é que Arrow também é endereçada a exatamente o mesmo público: o fanboy e/ou o/a adolescente que se diverte com séries simplistas e rasas, com soluções normalmente banais para propostas que, em um primeiro momento parecem inteligentes e bem construídas (como é o caso do grande projeto do grupo de vilões, que se revela patético ao final). Mas vejam, não há mal algum em um escapismo de vez em quando e, nesse quesito, a primeira temporada de Arrow funciona razoavelmente bem, com um design de produção coeso, efeitos bons e uma fotografia escurecida (à la Batman) que parece ser a norma hoje em dia para qualquer coisa.

Em um mundo ideal, porém, teríamos bem menos episódios e mais densidade dramática entre uma flecha e outra. Mas talvez seja exigir demais, não sei…

Arrow – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2012/2013)
Showrunners: Greg Berlanti, Marc Guggenheim, Andrew Kreisberg
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Stephen Amell, Jamey Sheridan, Susanna Thompson, Colin Salmon, Willa Holland, Colin Donnell, John Barrowman, Katie Cassidy, David Ramsey, Emily Bett Rickards, Manu Bennett, Colton Haynes, Paul Blackthorne, Michael Rowe
Duração: 989 min. (23 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.