Crítica | Arrow – 2ª Temporada

estrelas 2

Obs: Há spoilers das duas temporadas. 

Começo a chegar à conclusão que séries enormes, de mais do que 13 episódios, são feitas exclusivamente para serem degustadas semana a semana e não de uma vez só – ou quase isso – depois que cada temporada acaba. E a razão parece ser muito simples, mas que só reparei agora: o showrunner conta com nossa memória falha, espaçada ao longo de 22 ou 23 semanas (mais ainda com o hiato) para que literalmente esqueçamos os defeitos da série que ficam evidentes em uma sentada só.

Essa é a única explicação para o sucesso de Arrow. Bem, isso e mais a necessidade quase patológica dos fãs de verem o maior número possível de heróis e vilões dos quadrinhos em uma série, de preferência uns quatro ou cinco por episódio se possível for.

Se, durante a primeira temporada, Arrow se mostrou uma grata surpresa, com um começo sólido e intrigante – mesmo já tendo que perdoar a premissa simplista e os diversos problemas de lógica interna, claro – na segunda a série já começa a caminhar por caminhos perigosos, cada vez mais dependentes da “surpresa a cada esquina” para se sustentar de maneira minimamente razoável. Além disso, a suspenção da descrença precisa crescer assustadoramente, com o showrunner exigindo do espectador que ele aceite coisas como a manutenção da identidade secreta super-heroística para um punhado cada vez menor de personagens (que devem ter QI em dois dígitos, com o primeiro não maior do que 4 para não adivinharem) e uma lógica furada, fortemente galgada na técnica do “para que simplificar se é possível complicar” e, obviamente, no esquecimento que mencionei mais acima, que torna a passagem de episódio para episódio bem mais suave do que quando a temporada é assistida de uma vez só.

O mote da segunda temporada é o retorno dos mortos. Assim como nos quadrinhos, todo mundo que morreu volta para assombrar Oliver Queen. Seu caso e irmã de Laurel (Katie Cassidy), Sara Lance (Caity Lotz), volta dos mortos e como a assassina super-treinada Canário (deve ser um padrão: todo mundo que naufraga no mar da China é transformado em ninja…), Slade Wilson (Manu Bennett) reaparece para atazanar a vida do nosso herói e Malcolm Merlyn (John Barrowman), morto na temporada anterior, claro, também ressuscita. É um festival de roteiros que precisam repisar terreno conhecido e teimam em não tentar algo novo.

Estou sendo injusto? Duro demais? Creio que não. Notem que Oliver continua atuando da mesma maneira que antes, mas com um diferencial: agora ele não mata. Tornou-se um aguerrido defensor da vida, um completo oposto mágico de seu modus operandi na temporada anterior. Mas ele continua usando um arco e flecha para isso, trazendo para a série as trick arrows dos quadrinhos que, mesmo que funcionem na Nona Arte, tornam tudo absolutamente ridículo em uma série que tenta se vender como realista. E as histórias paralelas, especialmente envolvendo Amanda Waller (Cynthia Addai-Robinson) e a agência A.R.G.U.S. em nada acrescentam à história, a não ser, claro, mais episódios para estender a narrativa e um gancho para uma nova temporada, com uma surpreendente (só se você for muito inocente na arte de assistir séries, claro) revelação final.

E a narrativa em si é uma absoluta cópia, quase passo-a-passo, do que ocorreu na temporada anterior, ou seja, Arrow (agora ele é chamado assim, apelido de herói e não mais Hood, que se relacionava com bandido – repararam na “esperteza” do roteiro?) luta contra vilões aleatórios até que uma trama maior, dessa vez substituindo Malcolm Merlyn por Slade Wilson, tem exatamente o mesmo objetivo: destruir Starling City da maneira mais absurda possível. Antes era a “máquina” do terremoto e, agora, um exército de super-soldados com soro Mirakuru nas veias, soro esse que, como não poderia deixar de ser, tem origem na misteriosa ilha onde Queen ficou durante seu desparecimento. É doloroso ver o roteiro se repetir na maior desfaçatez, com exatamente o mesmo resultado final. A única diferença é que Slade Wilson, o Exterminador (Deathstroke), é um personagem muito mais cool do que Merlyn jamais foi. Afinal, nada é mais bacana do que sotaque australiano falado entre dentes cerrados, tapa-olho e um uniforme com máscara de hockey (que, claro, é tão prática e funcional quanto o capuz usado por Arrow – mas caramba, tudo deve ser pensado pelo fator “uau”, não?).

Mas não estou sendo sarcástico ao falar que o personagem de Manu Bennett é mais interessante que o de Barrowman. Ele é mesmo. Bem mais complexo e melhor construído – via flashbacks para a ilha, que continuam em doses homeopáticas, sem quebrar muito o ritmo dos episódios – do que o vilão anterior. Há um senso de ameaça mais genuíno, pois o Exterminador é um homem que está atrás de vingança a todo o custo e alguém assim costuma trazer imprevisibilidade a tudo (não é culpa do personagem se os roteiristas só sabem escrever o óbvio ululante).

O que realmente incomoda é outro personagem, a Canário, alter-ego de Sara Lance, trazida dos mortos (e ela morre duas vezes, conforme aprendemos!) para ajudar Arrow e vivida por Caity Lotz que consegue ser pior do que Stephen Amell como Oliver Queen/Arrow. Deve ter sido uma escalação proposital para fazer Amell ficar bem na fita, pois a menina é só caras e bocas – especialmente bocas, já que ela faz questão de fazer beicinhos com a mesma frequência que Amell vira o pescoço – e expressões vazias, tentando mostrar intensidade. A dupla Lotz/Amell consegue realmente ser a pior da série quando contracenam sem máscaras ou com diálogos mais revelantes. Quando estão mascarados, então as atuações não fazem diferença, o que não os converte em atores minimamente aceitáveis, desnecessário dizer.

Mas voltando ao roteiro, toda a trama, que tinha, na primeira temporada, uma tentativa de pegada realista, sofre tremendamente não só com a atitude “nouveau-pacifista” do arqueiro, como, também, com as conveniências da narrativa, com personagens aparecendo e desaparecendo do nada de acordo com a conveniência dos roteiristas, situações contraditórias risíveis, como a preocupação de Oliver com sua ex-atual-ex namorada Laurel em um túnel que ele mesmo explode sobre a cabeça dela para evitar um ataque de brutamontes “mirakuruzados”, a necessidade maniqueísta e chauvinista de toda a mulher da série ter sido caso do protagonista, menos sua mãe e sua irmã (por enquanto…) e os vários usos de atalhos para curar ferimentos e “descobrir” coisas novas no último segundo e aí incluo o completamente artificial e forçado episódio duplo que introduz Barry Allen, o futuro Flash, no universo de Arrow.

Falta sentimento à série. Nada soa verdadeiro. O dito sofrimento de Oliver na ilha fica cada vez mais distante; é quase impossível aceitar e muito menos simpatizar com  o amor enlouquecido de Slade por Shado; chega a ser patético o quão banal é a recepção de personagens mortos há anos, especialmente no caso de Sara. Falta urgência, verossimilhança, empatia em cada olhar de cada personagem. Nem mesmo a morte da matriarca Moira Queen (Susanna Thompson), que eu não duvido que volte como uma arqueira cinquentona (e belíssima) uma hora dessas, funciona como tragédia. É apenas mais uma morte, mais um assassinato a sangue frio que acontece todos os dias em Starling City. É o roteiro ditando aos espectadores como temos que nos sentir, jamais efetivamente trazendo esse sentimento à tona. É quase como aquela chamada luminosa de “aplausos” em shows de auditório…

A série é completamente imprestável?

Apesar de todos os seus graves defeitos, minha conclusão é que não, não é completamente imprestável. Há, por debaixo de camadas e mais camadas de incompetência, alguns veios de brilhantismo, como o torturado personagem de Paul Blackthorne, o policial Quentin Lance, pai de Laurel e Sara e que se transforma de inimigo em simpatizante e defensor feroz (a ponto de contemplar uma sentença condenatória!) do vigilante mascarado. Ele é o único ator que tem latitude para trabalhar com roteiros que oscilam entre o chinfrim e o quase bom. Ele consegue tirar o proverbial leite de pedra, entregando-nos um personagem que faz a ponte entre as improbabilidades da narrativa e o espectador (mesmo que ele seja um dos poucos que ainda não sabe – e não quer saber – a identidade de Arrow, o que automaticamente me faz duvidar da inteligência do personagem…) e que tem um arco de desenvolvimento que não depende apenas de olhos cheios de lágrimas e bocas trêmulas (e viradinhas de pescoço, claro).

David Ramsey, como o guarda-costas e braço direito de Oliver, John Diggle, também mostra potencial, mas seu papel é ainda diminuto e repetitivo demais – culpa novamente dos roteiristas que perdem oportunidade aqui – para ele ser realmente um destaque como Blackthorne. E aqueles que por acaso estiverem se perguntando se falarei de Emily Bett Rickards, a linda nerd Felicity Smoak, favorita dos fãs, minha resposta é um simples “não”, mas com uma explicação: ela é só um rosto – e corpo – bonitos, mais nada. Suas atuações são idênticas do primeiro fotograma do primeiro episódio até o último do último episódio, com exatamente as mesmas piadas – que já tinham perdido a graça na primeira temporada – repetidas religiosamente todo capítulo. Não posso nem dizer que por mim a personagem poderia morrer, pois, se eu fizer isso, ela ressuscita como outra arqueira ou ninja ou sei-lá-o-que.

Há também a atmosfera da série, escurecida, entristecida e que consegue trazer, com alguma competência, graças a uma fotografia bem feita, o clima tenso de algumas poucas sequências. O problema é durante o dia, quando todos os ambientes são pasteurizados e os filtros são idênticos, com cenários pouquíssimos inspirados. Ok, é TV, mas estamos falando de uma das séries com maior audiência nessa mídia e um pouco mais de capricho ajudaria.

No final das contas, a 2ª temporada de Arrow é feita unicamente para agradar um público que parece ser facilmente manipulável por rostos e corpos masculinos e femininos bonitos, momentos cool de ação e a maior quantidade possível de referências aos quadrinhos. E vejam: nada contra entretenimento escapista aqui ou ali, desde que se reconheça que é só isso e nada mais. O problema mesmo é que a CW perdeu a oportunidade de pegar um material muito bom e produzir uma série foram do comum, talvez reduzindo o número gigantesco de episódios para tornar cada um deles verdadeiramente relevante. Já seria um começo, ao menos.

Arrow – 2ª Temporada (Idem, EUA – 2013/2014)
Showrunners: Greg Berlanti, Marc Guggenheim, Andrew Kreisberg
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Stephen Amell, Jamey Sheridan, Susanna Thompson, Colin Salmon, Willa Holland, Colin Donnell, John Barrowman, Katie Cassidy, David Ramsey, Emily Bett Rickards, Manu Bennett, Colton Haynes, Paul Blackthorne, Michael Rowe, Caity Lotz, Cynthia Addai-Robinson, Kevin Alejandro, Summer Glau, Audrey Marie Anderson, Celina Jade
Duração: 989 min. (23 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.