Crítica | Arrow – 3ª Temporada

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estrelas 0,5

Obs: Há spoilers das três temporadas. Leiam as críticas das demais, aqui.

A primeira temporada de Arrow é boazinha e mostra o potencial que o Arqueiro Verde tem na telinha. Minha esperança era que a DC/The CW trabalhasse em uma curva ascendente, corrigindo rumos como a Marvel/ABC fez com Agents of S.H.I.E.L.D. Mas, então, veio a segunda temporada e minha esperança foi fulminada. No entanto, perseverei e continuei assistindo a série, desejando fervorosamente que a produtora acordasse para o desastre iminente a que Arrow caminhava.

Acontece que o desastre veio rapidamente, já na terceira temporada, que é completamente descartável. O que era bonzinho na primeira temporada e tornou-se ruim na segunda, agora ficou imbecil. Sim, imbecil. E antes que venham com pedras na mão interpretando erroneamente o que disse, já digo logo que não quero dizer que quem assiste Arrow e gosta é imbecil. Nada disso. A série pode ser apreciada como um guilty pleasure, mas um guilty pleasure implica em a pessoa saber que é ruim, mas mesmo assim gostar (eu mesmo tenho vários guilty pleasures, basta ver, por exemplo, os números 2 e 3 de minha lista de filmes favoritos). O que fica difícil de entender são os elogios rasgados que os fanboys cegos derramam sobre a série, o que só me faz crer que esse pessoal realmente não tem salvação ou nunca na vida viu uma série de qualidade, limitando-se à oferta em geral fraca para mediana de séries baseadas em quadrinhos (com honrosas exceções, que só confirmam a regra).

E olha que minha conclusão sobre a temporada não advém de reclamações comuns por aí, como uns que alegam que Arrow tenta imitar Batman ou que a série tem muita coisa alterada em relação à versão dos quadrinhos do Arqueiro Verde ou coisas do gênero. Esses são aspectos irrelevantes. Meu olhar é muito mais pelos paupérrimos aspectos técnicos dessa temporada que detectei ao longo desses torturantes 23 episódios e que estão concentrados em roteiros abissais.

E, de fato, qualquer outro problema com essa temporada de Arrow empalidece perante seus roteiros, que parecem ter sido escritos em um carro em movimento por assistentes de estagiários das secretárias dos assistentes dos produtores. E esse é o ponto nodal de meu mais completo desapontamento com o trabalho desenvolvido, já que a mitologia do Arqueiro Verde, nos quadrinhos, é vasta e riquíssima e muitas ideias poderiam ter sido pinçadas aqui e ali não fosse a necessidade quase patológica de emburrecer e infantilizar a narrativa ao ponto de torná-la compreensível até por amebas.

Reparem, por exemplo, como cada episódio é estruturado. Em sua grande maioria, temos casos da semana entrecortados com uma história maior envolvendo a Liga de Assassinos e seu líder, Ra’s al Ghul (Matthew Nable), cuja existência já havia sido mencionada na temporada anterior. Agora, ele passa a ser um personagem fixo da série e, de certa forma, o grande vilão da temporada. Até aí, nada tremendamente errado, apesar de a majestade do vilão ser soterrada por sua completa subutilização ao longo dos episódios e uma atuação afetada de Nable.

A grande questão é que cada episódio (ou, para ser honesto, a grande maioria deles) acaba com 36 ou 37 minutos. Os cinco ou seis minutos finais são usados para o dénouement, que parece ser algo obrigatório e para artificialmente armar a situação do episódio seguinte. Isso demonstra a completa incapacidade do exército de roteiristas e dos showrunners Greg Berlanti, Marc Guggenheim e Andrew Kreisberg em organicamente inserir os elementos necessários para a fluidez da temporada dentro da narrativa de cada episódio. Reparem bem. A trama caminha lentamente até quando o relógio bate o 30º minuto e toda ela é, então, resolvida nos cinco ou seis minutos seguintes, com um “intervalo” que nos leva ao “gancho” para o episódio seguinte. É como se os roteiristas tivessem voltado no tempo, para os anos 90, quando esse artifício era mais constantemente usado.

Com isso, o resultado é de uma previsibilidade ímpar, com longos momentos arrastados e “marretados” na história unicamente para que possamos pular para a história seguinte. A inabilidade com os roteiros é assustadora.

Mas não é só a estrutura fajuta que merece comentários. A própria história não funciona, pois os episódios repetem a mesma fórmula para justificarem sua existência. Três fórmulas na verdade. A primeira delas é a tragédia, mas não no sentido grego da palavra e sim no sentido banal de hoje. É personagem que morre (o primeiro deles é a Canário, vivida por Caity Lotz, em uma sequência estupidamente blasé e altamente improvável dentro da própria lógica da série), outros que revivem (Oliver Queen, afinal, morre mais uma vez perfurado por uma espada enorme e jogado de um penhasco nevado e se recupera como se nada tivesse acontecido) e traumas que são lembrados (a forma como a segunda morte de Sara afeta seu pai é amadora).

A segunda delas é a revelação de mentiras e segredos e a criação de novos segredos e mentiras. Tudo é mentira ou segredo nessa série. Todo mundo guarda segredo de todos, menos a identidade “secreta” de Oliver Queen. Mesmo quando os personagens sentam para conversar justamente sobre essas mentiras, abrindo seus corações, outras mentiras pipocam do nada, sem que exista qualquer justificativa para mantê-las escondidas. E o pior é que todos almejam o mesmo objetivo geral e, mesmo assim, escondem aspectos de sua vida pregressa ou que aconteceram há horas atrás como se seu interlocutor fosse morrer se escutasse a verdade. Essa é, aliás, a desculpa para a absurda manutenção da segunda morte de Sara em segredo especialmente de seu pai, o agora capitão de polícia Quentin Lance. Como ele tem um passado de doença cardíaca, sua filha Laurel simplesmente decide manter Sara “viva” para todos os efeitos. Mas não é só aí que os segredos e mentiras são mantidos. Parem bem para pensar e tentem me dizer alguma dupla de personagens que não tem segredo algum. Pensaram? Pois é, a não ser que vocês estejam pensando em duplas completamente improváveis, todas os demais relacionamentos são construídos sobre palafitas frágeis de mentiras e verdades escondidas.

Dentro ainda do espírito dos “segredos”, há que se falar na estrutura de flashbacks, que marca a série e que foi objeto de elogios em minhas críticas nas temporadas anteriores. O flashback pode ser um artifício batido na televisão, mas o fato é que, em Arrow, seu uso constante, mas parcimonioso enriquecia a história como um todo, notadamente o passado de Oliver Queen em Lian Yu, ilha no Mar da China. No final da segunda temporada, porém, descobrimos (para surpresa de absolutamente ninguém, ou pelo menos ninguém que tenha alguma experiência com “reviravoltas” em séries de TV) que Oliver não ficou os cinco anos na ilha perdida. Ele foi recrutado por Amanda Waller – por razões que, se formos espremer e pensar muito, concluiremos que não faz sentido algum – da agência A.R.G.U.S. para ser um assassino trabalhando com Maseo Yamashiro (Karl Yune) e sua esposa ninja Tatsu (a Katana dos quadrinhos e porque todo personagem na série obrigatoriamente tem que ter alguma habilidade letal). O que vemos, então, na terceira temporada, é o desenrolar dessa relação tanto em Hong Kong, como também em Starling City (foram incontáveis as vezes que fui obrigado a revirar os olhos pela completa idiotice que é infiltrar um dos rostos mais conhecidos da cidade esperando que ele se mantenha incógnito). Mas, diferente dos flashbacks em Lian Yu, os novos são mal escritos e muito mais distraem e quebram o ritmo dos episódios do que qualquer outra coisa. Em outras palavras, uma das poucas características boas da série vai para o ralo na terceira temporada.

E, voltando para minha “lista de fórmulas” dos episódios dessa temporada, a terceira e última é o uso constante e repetitivo das aparições de novos personagens ou ressurgimento de outros. Essa, na verdade, sempre foi uma característica da série, que parece existir única e exclusivamente para satisfazer desejos fanboys de ver o máximo de seus personagens favoritos aparecerem nas telinhas. Com isso, há uma enorme pluralidade de vilões e heróis vicinais dos quadrinhos que surgem agora, como a já mencionada Katana, mas também o Pantera, Komodo, Cupido, Capitão Bumerangue (um cara que usa bumerangues para cometer crimes automaticamente perde meu respeito…) e um sem-número de outros. E isso sem falar, lógico em Ra’s al Ghul, que já tive a oportunidade de abordar mais acima, além de Ray Palmer, o Átomo.

Palmer (vivido pelo Superman Brandon Routh) já havia aparecido na segunda temporada, como o gênio bilionário benevolente que compra a empresa da família de Queen. Mas, como quase ninguém nessa série pode ser uma pessoa normal, é óbvio que ele tem o desejo secreto (mais segredo!) de ser um vigilante mascarado e, para isso, inventa uma armadura que tem mais usos que Bombril. Seu personagem bom-moço é tão raso, mas tão raso, que não existe arco de desenvolvimento. Ele começa e acaba a temporada exatamente como ele sempre foi, com algumas inexplicáveis (são explicáveis pelos roteiros péssimos, lógico) mudanças de caráter, como quando, da noite para o dia, ele passa a condenar as ações vigilantes de Arrow em mais uma absurda contradição. Sua presença, na série se justifica única e exclusivamente para dar mais um presente para os fãs e, lógico, para servir de “plataforma” de lançamento de uma nova série spin-off, Legends of Tomorrow.

Dentro ainda dessa terceira fórmula, há outro aspecto que mencionei algumas vezes mais para cima: todo personagem tem que transformar em alguma super-pessoa. Laurel Lance acha que pode substituir sua irmã na luta contra o crime e, com meia-dúzia de aulas de boxe, se transforma na Canário Negro. O mesmo vale para Roy Harper que se torna Arsenal e, automaticamente, um exímio arqueiro com cara de cachorro de rua. Até mesmo a irmã de Oliver, Thea, aprende, na noite para o dia (quase que literalmente) a ser uma máquina letal de combate. Os únicos que permanecem, por enquanto, incólumes, são o completamente perdido e quase sem função a não ser a de “Grilo Falante” John Diggle e a bibelô de nerd babão Felicity Smoak (realmente linda, mas com a mesma capacidade de atuação de uma maçaneta).

Como fica evidente pelos meus comentários, não há como construir uma narrativa com essa quantidade de problemas sérios no roteiro, que acabam afetando diretamente a já pouca capacidade do elenco em demonstrar alguma habilidade de atuação. Nesse ponto, aliás, os únicos atores que podem ser considerados como tais na série são John Barrowman (que vive o não-tão-sinistro-assim Malcolm Merlyn), David Ramsey (Diggle) e Paul Blackthorne (Quentin). No entanto, mesmo esses são soterrados pela inconstância dos roteiros que os utilizam mal e afetam seus respectivos caráteres.

Fiz um esforço enorme para realmente achar algum ponto de positivo nessa série e eles se resumem a dois: fotografia e montagem. Como grande parte da ação da série se passa de noite, o trabalho de fotografia noturna merece comenda, pois nem sempre os diretores de fotografia se utilizam dos “truques” padrão da indústria, como o famoso chão molhado e outros. Há, aqui, efetivo esforço em se trabalhar uma fotografia sombria, ainda que as situações sejam tão repetitivas e enfadonhas que não exista espaço para muita imaginação. Em termos de montagem, o grande trunfo é que a série evita a confusão o máximo possível, mesmo em algumas frenéticas sequências de luta e ação entrecortadas com cenas em outros locais. Há ótimo controle da técnica que permite o acompanhamento da série sem percalços (mas lógico que o roteiro pode ser perfeitamente compreendido até por um hamster).

Mas é só. Não há mais nada que realmente se salve nessa infeliz e imbecilizante temporada.

Arrow chegou ao fundo do poço. Foi uma queda vertiginosa, que nenhuma trick arrow pode resolver facilmente sem uma reformulação completa da estrutura da série. Mas a reformulação não virá, pois o rating continua alto. Uma pena, pois é um enorme oportunidade perdida.

Arrow – 3ª Temporada (EUA, 2014/2015)
Showrunners: Greg Berlanti, Marc Guggenheim. Andrew Kreisberg
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Stephen Amell, Katie Cassidy, Colin Donnell, David Ramsey, Willa Holland, Paul Blackthorne, Emily Bett Rickards, Colton Haynes, Manu Bennett, John Barrowman, Karl Yune, Rila Fukushima, Matthew Noble, J.R. Ramirez, Brandon Routh, Caity Lotz, Katrina Law, Audrey Marie Anderson, Celina Jade, Michael Rowe, Cynthia Addai-Robinson
Duração: 1056 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.