Crítica | Arrow – 6X08: Crisis on Earth-X, Parte 2

  • Contém spoilers.

Em Invasion!, primeiro crossover das séries da DC-CW depois que Supergirl passou a oficialmente fazer parte do Arrowverse e que adaptava a saga em quadrinhos homônima sobre uma invasão alienígena, os quatro episódios que o compuseram foram usados de maneira tímida, quase como se a produção tivesse vergonha de reunir seus heróis ou não soubesse o que fazer com tanto personagem ao mesmo tempo. E, especificamente falando sobre o episódio de Arrow, havia ainda o problema adicional de ele também ser o 100º da série, o que forçou uma tentativa de abordagem comemorativa que realmente não deu certo.

O segundo crossover, Crisis on Earth-X, baseado na Terra paralela onde os nazistas ganharam a guerra e dominaram o planeta e que surgiu pela primeira vez nos quadrinhos em Liga da Justiça da América #107, de outubro de 1973, a sensação de continuidade de um episódio para o outro – pelo menos do primeiro para o segundo – é muito maior, com a produção efetivamente abraçando a ideia de uma grande história de quase três horas. Isso somado ao fato de que não estamos diante de um episódio comemorativo da série do Arqueiro Verde já ajuda bastante o episódio, que, apesar de focar suas atenções levemente mais em Oliver Queen, não parece, em termos narrativos, algo estanque e sim uma mixagem interessante dos vários grupos ou, pelo menos, de representantes das várias equipes, já que nem todo mundo dá as caras aqui ainda.

Mas “interessante” é tudo que o episódio consegue ser, pois os maneirismos – que almas mais benevolentes chamarão de “estilo” – que assola Arrow está bem presente nesta Parte 2. O primeiro e mais irritante deles é o uso da câmera em tomadas circulares ou rotatórias, que dão voltas e mais voltas nos personagens e que, quando param, marcam os momentos de corte para que, então outra sequência circular aconteça. É como colocar uma micro-câmera em um pião e, depois, projetar a filmagem resultante em câmera lenta. O outro elemento vindo da primeira série do Arrowverse e que a cada nova temporada ganha uma espécie de ousadia cansada, são os planos-sequência estendidos sem cortes lidando com as mais variadas lutas. Aqui, a direção de James Bamford nem é das piores, pois ele consegue manter a narrativa fluindo sem deixar de esbanjar pancadaria super-heróica, notadamente no armazém com a ação intercalada com a invasão do Star Labs pelo Nazi-Queen (que também usa barba por fazer, vejam só!). No entanto, aqui o que vemos é estilo sobre substância, pois a pancadaria – cheia de inconsistências que nem valem ser abordadas, pois em tese caem debaixo do guarda-chuva bem grande da suspensão da descrença necessária para essa série – é vazia, inconsequente, com um fim em si mesma.

Por outro lado, a sequência de salvamento do prédio, apesar de rápida, mostra habilidade de Bamford no manuseio de CGI, com um bom momento de ação em conjunto que quase funciona integralmente. O “quase” fica por conta justamente da presença de Oliver Queen ali que, com flechas, consegue “estabilizar” o esqueleto de um prédio em construção altíssimo como se fosse algo trivial, que ele faz todo final de semana. São os problemas de um roteiro que estabelece uma trama talhada para heróis com super-poderes e, depois, não sabe o que fazer com aqueles que só têm habilidades humanas mesmo e alguns gadgets aqui e ali.

Falando em roteiro, o trabalho de Wendy Mericle e Ben Sokolowski chega a ser louvável ao tentar inserir os usuais dramas de relacionamento amoroso em meio a uma invasão nazista de outra dimensão. Mas a mera leitura da frase anterior já revela o quão ridícula essa tentativa na verdade é. Afinal, se os escritores fazem de tudo para mostrar que os heróis ficaram extremamente chocados e profundamente abalados quando descobrem que há uma dimensão em que a Terra foi tomada por nazistas, com Prometheus – revelado como Tommy Merlyn (Colin Donnell voltando momentaneamente à série) – cometendo suicídio na frente de Oliver em nome de sua “pátria”, todo esse trabalho vai para o ralo quando o draminha adolescente recomeça entre Felicity e Oliver, com um pouco do rolo entre Sara e Alex compondo o quadro e um horrivelmente deslocado momento Bobby-Pai/Bobby-Filho entre Stein e Jackson, que precisava ter sido organicamente inserido para efetivamente funcionar em relação ao que acontece na Parte 3.

No entanto, por incrível que pareça, como se isso não bastasse, vemos a introdução de uma linha narrativa idêntica de draminha entre Dark Oliver e Dark Kara, com direito a Eobard Thawne dando ataque de ciúmes com a moça quando essa relação ameaça o plano maligno dos vilões da Terra-X. Não quero aqui condenar a necessidade de amorzinho para lá e amorzinho para cá, mas convenhamos que, diante da situação macro apresentada, o espelhamento dos dramas pessoais entre dimensões chega a ser risível, como se fosse obrigatório que todo e qualquer episódio de todas as séries DC-CW (ok, com exceção honrosa de Legends of Tomorrow) abordasse esse tipo de pegada Barrados no Baile, mesmo quando a Terra-1 está sendo invadida por nazistas que, aparentemente, só são detectados pelos heróis, claro. Só falta agora me dizer que os nazis serão derrotados pela “força do amor”…

Além disso, há a insistência em se trabalhar a surpresa na identidade dos vilões como na Parte 1, algo que não faz nenhum sentido dramático. Afinal, como justificar a surpresa de Oliver e Kara ao descobrirem que o arqueiro e a mulher que voa vindos da Terra-X são seus doppelgängers? Seria surpresa se não fossem seus duplos… E, em meio a tudo isso, há, ainda, a incapacidade de tornar a ameaça nazista mais séria, com consequências mais nefastas fisicamente para os heróis. E não falo de mortes, pois isso não aconteceria mesmo, mas ninguém sequer fica ferido, nem mesmo com as inexplicáveis flechas de kriptonita que Oliver tem em sua aljava (provavelmente junto com as flechas anti-força de aceleração e anti-fissão nuclear) ou com o soco que Overgirl dá no arqueiro. Considerando que eles só precisam da Supergirl viva, manter os outros acorrentados apenas parece artificial demais.

Crisis on Earth-X tem uma sensacional premissa e uma enorme possibilidade de ser mais do que algo burocrático. Infelizmente, porém, a CW insiste em fazer o básico, o rasteiro. Uma pena.

Arrow – 6X08: Crisis on Earth-X, Parte 2 (EUA, 27 de novembro de 2017)
Showrunners: 
Greg Berlanti, Marc Guggenheim, Andrew Kreisberg
Direção:
James Bamford
Roteiro: Wendy Mericle, Ben Sokolowski (baseado em história de Marc Guggenheim e Andrew Kreisberg)
Elenco: Stephen Amell, Melissa Benoist, Grant Gustin, Tom Cavanagh, Caity Lotz, Dominic Purcell, Candice Patton, Franz Drameh, Danielle Panabaker, Colin Donnell, Chyler Leigh, Victor Garber, Juliana Harkavy, Rick Gonzalez, Echo Kellum
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.