Crítica | Artista do Desastre

Há um laço existente entre Artista do Desastre e The Room que é bem mais interessante do que aquele que se sobressai para nós em uma visão superficial. O livro The Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Movie Ever Made, escrito por Greg Sestero e Tom Bissell, conta os bastidores do melhor pior filme da história, o qual também é, surpreendentemente, amado por milhares de pessoas no mundo inteiro, assistido em inúmeras sessões noturnas há mais de 10 anos. Contudo, assistir ao filme The Room antes de Artista do Desastre não é necessário. E vice-versa também. Mas assistir aos dois, independente da ordem, é essencial para um experiência completa. The Room Artista do Desastre são obras que se complementam perfeitamente. Enquanto o primeiro nos dá uma noção integral das proporções catastróficas do desastre que é tanto o filme em si quanto o artista, produtor, diretor, roteirista e estrela por trás do enigmático longa-metragem, o segundo promove uma visão, ainda cômica, mas revigorante no sentido das lendas que realizaram tal pérola serem verdadeiramente humanizadas e não abordadas como meras peças para a criação de uma outra comédia, agora com intencionalidade para isso. Artista do Desastre consegue denotar beleza do fracasso – e do sucesso – de Tommy Wiseau, uma pessoa ímpar que criou uma improvável amizade com Greg Sestero, autor do livro adaptado e também estrela de The Room.

Nesta revisitação de tal história surreal, a narrativa primeiramente foca no crescimento do próprio Greg Sestero (Dave Franco) como ator e a conexão feita entre ele e Tommy Wiseau (James Franco), uma das maiores lendas urbanas que já pisaram na Terra. Os irmãos Franco, logo, tem espaço para esbanjar química e sintonia, algo nunca antes visto nas telas. Isso é, portanto, essencial para que o próprio Dave Franco não fique deslocado em cena, se comparado com o “personagem” icônico interpretado por James. Em comparativo com a carreira do irmão, Dave mostrou-se um ator muito menos hábil, e é extremamente frutífero para a sua própria carreira esta primeiríssima reunião, a qual não o estabelece necessariamente como um bom intérprete, mas como um ator funcional, algo que está anos-luz de interpretações completamente inexpressivas do artista. O que temos, enfim, é uma proximidade imensa entre o próprio Greg Sestero e Dave Franco, ambos procurando crescer dentro da indústria cinematográfica. Inacreditavelmente, nos dois casos, há um outro alguém que será realçado, diminuindo a relevância da atuação canastrona de Sestero em The Room e elevando a funcionalidade interpretativa de Dave em Artista do Desastre.

Isso aconteceu porque, mesmo que todos os atores de The Room fossem mais que medíocres, ninguém se igualava a Tommy Wiseau. O mesmo pode se dizer de James Franco, que tem ao seu lado a natureza caricata do próprio Wiseau, conseguindo, em consequência, dar margem àquela que provavelmente é a performance de sua vida. O engraçado de tudo é que se a interpretação de Johnny tivesse sido intencional, Wiseau provavelmente seria um dos grandes gênios da comédia. Todavia, esta hilariante figura inacreditável é a verdadeira face do cineasta, o que torna toda a atuação de James Franco deslumbrante e magnética, pois a fala, as expressões faciais, a risada aleatória, entre outras características peculiares do protagonista, são extremamente semelhantes às deste artista do desastre. Além do mais, o roteiro da obra não se contenta em apresentar apenas essa identificação de Wiseau, a mesma que visualizamos em The Room. Os roteiristas se aprofundam no psicológico do personagem com o intuito de humanizar o homem, demonstrar suas falhas (inúmeras, tanto atrás de uma câmera quanto no tratamento feito a sua equipe), mas também suas virtudes. Destas qualidades, a principal delas e cerne da obra é a determinação contagiante de Wiseau em fazer seu próprio filme e alcançar a tão sonhada fama. Com um sonho teoricamente impossível, eis a história de sucesso mais improvável de todas, inesperadamente tocante.

Outrossim, junto com o acerto na carga dramática, o tom da comédia e o próprio caráter do humor em Artista do Desastre são pontos que James Franco atingiu certeiramente, visto que o ator também dirigiu a obra. Uma reprodução das cenas do filme base durante o segundo ato seria uma saída muito fácil, e provavelmente renderia as mesmas risadas inexoráveis àquela anti-obra-prima. Porém, o mais importante de tudo é que a ruindade de The Room ganha um contexto – e esse contexto não poderia ser mais hílare. Os bastidores de cenas, como a clássica resposta “What a story, Mark!” à história contada por Greg Sestero, durante a interpretação de seu personagem Mark, sobre uma mulher que foi agredida e parou num hospital, dão vigor ao filme e promovem a curiosidade do espectador em saber mais curiosidades sobre a realização desta desgraça cinematográfica. Todas as sequências que mais fizeram o público rir nos cinemas retornam, mas por um outro lado da mesma moeda, tão engraçado quanto o original, tão surreal quanto verdadeiro. Aliás, Seth Rogen é um dos maiores escapes cômicos do filme, projetando visões que o próprio espectador tem sobre as confusões que aconteceram no set. Retomando a questão “dramática”, reparem a mudança que “You are tearing me apart, Lisa.“, outro grande momento da história do cinema, sofre em termos contextuais, após ganharmos todo um background relacionado à vida e à morte de James Dean, o qual é citado em diversas passagens da obra.

Em um último plano acerca dessa loucura desastrosa, os únicos deméritos factuais do longa encontram-se, primordialmente, no acelerado processo conclusivo da obra. Toda as complicações na relação entre Sestero e Wiseau são resolvidas abruptamente, sendo que Artista do Desastre perde uma boa parte da história da catástrofe real ao deslocar, nesse segmento, sua atenção total para o ponto de vista de Greg. Em uma história que pretende contar os bastidores de The Room, acabamos sendo dissociados do impacto verdadeiro da mão de Tommy no processo de pós-produção, a qual não contou com a visão de Sestero. Mesmo assim, Artista do Desastre é uma grandiosa forma de se ver um grandioso filme, mesmo que esse status não tenha sido dado para o segundo da forma que Tommy Wiseau esperava. É um trabalho que questiona as nossas óticas do que categorizamos como qualidade, apesar de falhar no breve terceiro ato em trabalhar afundo esse ângulo relevantíssimo, e que traça uma rota consideravelmente singela através de uma pequena, mas singular, parte da vida de um homem que ficará marcado para sempre na memória de tantas pessoas, tanto quanto cineastas aclamadíssimos como Orson Welles, diretor de Cidadão Kane, ficaram. Artista do Desastre não passa a sua duração de quase duas horas debochando dos erros dos outros, mas cria, por cima de toda uma superfície maravilhosamente engraçada, uma verdadeira carta de amor aos amantes de cinema, aos cineastas fracassados, que nunca viram seus projetos ganhar vida, ou se viram, foram abraçados por um mundo que conseguiu enxergar ou se divertir com uma arte fora dos padrões, muitas vezes despropositadamente subversiva.

Artista do Desastre (The Disaster Artist) — EUA, 2017
Direção:
 James Franco
Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber (baseado no livro de Greg Sestero e Tom Bissell)
Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen,  Zoey Deutch,  Alison Brie, Kristen Bell, Tommy Wiseau, Megan Mullally, Lizzy Caplan, Zac Efron, Jason Mantzoukas, Bryan Cranston, Sharon Stone, Hannibal Buress
Duração: 103 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.