Crítica | As 6 Viagens de Lone Sloane

Lone Sloane 01 - The Voyages of Lone Sloane #6 (2015) - plano critico viagens

estrelas 4

No mesmo ano em que surgiam, nos Estados Unidos, Galactus e o Surfista Prateado, a França ganhava o seu próprio singrador cósmico com pitadas filosóficas no roteiro. Obra de Philippe Druillet, Lone Sloane surgiu pela primeira vez em O Mistério do Abismo (Le Mystère des Abîmes, 1966), álbum que acabou se tornando lenda com o passar dos anos, diante das dificuldades propositalmente impostas pelo autor para sua republicação, diferente de qualquer outra obra que tenha escrito e desenhado depois.

A primeira coisa que impressiona um leitor que chega ao universo de Druillet é a sua arte. É como se estivéssemos vendo o casamento entre a perfeição cósmica de Jack Kirby e as viagens lisérgicas de Moebius, tendo como padrinhos os pesadelos de H.P. Lovecraft, uma série de ingredientes corrompidos e transformados de três distintos períodos artísticos; o barroco, a art nouveau e o art-déco; e a intricada perspectiva de M. C. Escher para a composição de espaços, algo que vemos servir para o autor fazer da diagramação de suas páginas uma forma completamente diferente de organizar uma leitura em quadrinhos. Essa diferença também é sentida na aplicação de letras, balões e outras formas de avanço da narrativa.

No encadernado As 6 Viagens de Lone Sloane publicado pela Titan Comics em 2015 (outras compilações do mesmo material já tinham sido lançadas) temos as edições #2 a 7 das aventuras deste terráqueo do ano 804 da Nova Era depois do Grande Susto; e a primeira delas é O Trono do Deus Negro (Le Trone du Dieu Noir, 1970), originalmente publicada na edição #538 revista Pilote (a mesma de Valérian e Laureline e tantos outros icônicos quadrinhos fraco-belgas). Nesta aventura, temos uma rápida apresentação de quem é Sloane. Ele está em seu foguete, aparentemente voltando de uma missão, quando é atingido e sua nave imediatamente consumida por uma força misteriosa, deixando o assustado homem ser levado por um trono de pedra (AQUELE QUE PROCURA) até os sacerdotes de máscaras de ferro. Este trono e a dinâmica de busca por conhecimento e a manipulação do espaço-tempo certamente inspiraram Jack Kirby a criar Metron na New Gods Vol.1 #1, no ano seguinte.

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O plano para a dominação do Deus Negro é posto em ação.

Enquanto a primeira história cria um cenário místico de ligação e aliança entre deuses e homens, a segunda, A Ilha dos Ventos Selvagens (Les Iles du Vent Sauvage, 1970) publicada na edição #553 da Pilote, cai consideravelmente de qualidade narrativa (a primeira trama também não é um primor de roteiro) mas ainda assim nos traz uma realidade bastante curiosa. Temos Sloane inicialmente em seu trono, como se esperasse os piratas enviados por Shonga para “capturá-lo”. O ruim de todo o processo é o período que demora para entendermos que tudo não passa de algo já escrito e que Sloane está representando um papel. Seus olhos vermelhos e sua ligação com os deuses lhe dão uma visão do todo da História; do passado, presente e futuro. Ele sabe que será capturado (ou melhor, precisa se deixar ser capturado) e trilha o caminho necessário para levar os piratas ao seu já estabelecido “momento final”.

As resoluções ao longo do conto carregam características dos quadrinhos de super-heróis e isso se deve ao fato de o autor ter apenas oito páginas para dar sequência às andanças de Sloane pelo Cosmos. É pouca página para o muito que se tem para falar e para a grandiosidade dessa saga que Druillet. É possível olhar a história por esses dois ângulos, mas é sempre bom considerar o todo pelo que é apresentado, sem condições paralelas do por quê a trama não ter sido melhor. Curiosamente, os últimos quadros arrancam os eventos do simples drama de piratas “forçando” Sloane e passa a uma reflexão sobre causalidade, feita com organicidade, profundidade e em apenas quatro quadros.

Escrita por Jacques Lob e colorida por Jean-Paul Fernandez, Rose é a única história dessa fase que apresenta a arte de Druillet acompanhada da participação de outros colegas. A trama, porém, não é das melhores e nos confunde bastante, se considerarmos os poderes de percepção e conhecimento da realidade que Sloane mostrou em Ventos Selvagens. Publicada na edição #562 da revista Pilote, em 1970, esta aventura coloca o nosso angustiado singrador do espaço em um planeta ferro-velho, de onde não consegue sair porque não consegue encontrar naves. O senso de continuidade me diz que esta aventura caberia muito mais organicamente se tivesse acontecido antes do encontro de Sloane com o Mestre Pirata Shonga. Apesar de a arte ainda manter um ótimo nível, a história não cumpre bem a tarefa de nos fazer viajar pelo espaço ao lado de Sloane, vivendo com ele as diversas fases após ter sido favorecido pelo Rei dos Deuses.

Lone Sloane 01 - The Voyages of Lone Sloane #6 (2015) - a ponte sobre as estrelas plano critico as viagens de lone sloane

Tudo o que um amaldiçoado e entediado pode fazer…

Publicada na edição #569 da Pilote, A Ponte Sobre as Estrelas (Torquedara Varenkor: Le Pont sur les Etoiles, 1970) é uma sequência imediata de Rose, com Sloane chegando ao domínio de Torquedara, um amaldiçoado a ser, para sempre, entediado. O tipo de personagem aqui pode ser ligado a alguns “jogadores” que Star Trek nos trouxe ao longo dos anos ou mesmo com o Celestial Toymaker de Doctor Who. Uma personalidade dotada de grandes poderes que coloca seus capturados em situações de vida e morte apenas para a própria diversão. Sloane precisa fazer um grande sacrifício aqui e não está contente com o fato de ter perdido sua nave-órgão, com a qual viajada o Universo desde a saída do planeta ferro-velho. O gancho para a história seguinte é óbvio e a narrativa, apesar de não ter nada demais além da soberba arte, é bem mais divertida de acompanhar do que a anterior.

Penúltima história desta saga, O Sidarta, originalmente publicado na Pilote #578, de 1970, mostra o nosso herói de olhos vermelhos encontrando uma tripulação terráquea. Aqui, aprendemos que Sloane foi procurado por muito tempo, mas as buscas por sua nave foram infrutíferas. O que acontece aqui é que o personagem assume o comando da nave por meios bem pouco amigáveis, gerando visões de terror e paralisando os tripulantes. A busca pela “verdadeira Terra” começa.

O ciclo então se fecha com Terra, história publicada na Pilote #598, de 1971. Há uma estranha, curiosa e bem-vinda intertextualidade com Elric, personagem de Michael Moorcock. Nesta realidade, a Terra foi ocupada por deuses. Os humanos foram expulsos e Sloane, apesar de ter seus próprios poderes, não é capaz de persuadir ou forçar os atuais residentes do planeta a deixarem-nos viver ali. Não há exatamente uma história sendo contada. A trama é mais marcada por ações pontuais, com descrições e diálogos rápidos, mas realmente não há tempo de ver tudo isso explorado. O final diz que esta fase na vida de Sloane estava terminada, mas ele está indo para o planeta Delirius, que de fato seria a próxima história do personagem, agora bem mais longa, a ser publicada na Pilote.

Terra Lone Sloane 01 - The Voyages of Lone Sloane #6 (2015) - plano critico

E se um dia a Terra fosse tomada por deuses e os humanos expulsos do planeta?

As duas coisas mais importantes desta primeira fase de histórias de Lone Sloane é a concepção de um Universo riquíssimo, cheio de transformações que nos lembram as fases pelas quais os muitos planetas, em diversos setores da Galáxia atravessam em Fundação e Fundação e Império, de Isaac Asimov, e com uma série de janelas abertas para que o autor trabalhe esses mesmos conceitos no futuro, com uma abordagem mais madura e estendida. O grande inimigo é o reduzido número de páginas dedicados a cada história, o que faz com que tenhamos apenas uma noção básica do que está acontecendo, com poucos momentos de verdadeiro deslumbre narrativo, algo que funciona de maneira completamente diferente para a arte, que é sempre um esplendor.

Entre gloriosas construções arquitetônicas, modelos de naves, espécies e representações de um Universo (ou de diversos Universos) marcado por homens e deuses, Philippe Druillet realiza um trabalho viciante em Lone Sloane. Mesmo que os seus roteiros não sejam nem de longe tão bons quanto a sua arte, toda a concepção de uma nova realidade dentro da ficção científica e fantasia, como a que temos aqui, é uma verdadeira pérola encravada nas paredes seculares do gênero e que merecia ser muito mais conhecida.

As 6 Viagens de Lone Sloane (The 6 Voyages of Lone Sloane Vol. 1) — EUA, 2015
Editora:
 Titan Comics
Contendo: As histórias #2 a 7 de Lone Sloane, publicadas na França, entre 1970 e 1971, originalmente reunidas em encadernado pela Dargaud, em 1972.
Roteiro: Philippe Druillet / Jacques Lob (apenas na 3ª história)
Arte: Philippe Druillet
Cores: Philippe Druillet / Jean-Paul Fernandez (apenas na 3ª história)
72 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.