Crítica | As Aventuras de Paddington 2

Mesmo com ótimo elenco, boa dose de bom humor e um certeiro moralismo fabulesco, o primeiro As Aventuras de Paddington pode ter passado despercebido no radar de muitos – definitivamente passou no meu. Mais uma animação, afinal, no meio de tantas mais coloridas, chamativas e aparentemente originais, não soa muito atrativo. Junta-se a isso o fato de se tratar de um urso peruano que se muda para Londres e interage com atores em live-action… e um bobo preconceito se torna realidade.

Saindo, porém, dessa pobre teia, o que se ganha é um magnífico filme família. Em As Aventuras de Paddington 2, felizmente, a já recomendável obra original é melhorada em todos os seus aspectos.

Conhecido do público britânico desde os anos 50 graças aos contos infantis de Michael Bond, o urso Paddington é uma importante parte do folclore inglês. Paul King, diretor dos dois filmes da figura, conseguiu traduzir para a linguagem cinematográfica toda a docilidade, força e inocência de Paddington.

Neste segundo filme, já estabelecido em Londres com a família Brown, o ursinho agora busca um presente especial para o aniversário de sua tia. Basta dizer que o presente não é o que parece e que seus segredos chamarão a atenção de personagens menos fofos que Paddington.

Se pensarmos que os temas principais tratados aqui são a família – o lar, como no primeiro filme – e a etiqueta no trato com o outro, As Aventuras de Paddington 2 acaba ganhando uma relevância atual maior do que se imagina. Ainda que se trate de temas banais, o que acaba acontecendo é um leve apontamento cirúrgico – e tipicamente britânico – sobre a importância da difícil conservação de laços afetivos, que por vezes requerem confiança e sacrifícios para resistirem aos muitos tipos de ameaça. Um bom prato tanto para crianças quanto para adultos, convenhamos.

Também pode ser chover no molhado dizer o que vou dizer na era tecnológica de hoje, mas a animação digital de Paddington não só é um primor como também encanta por sua inserção orgânica nos cenários. Muito ajuda a aconchegante fotografia de Erik Wilson, capaz de manter um tom serenamente lúdico sem cansar o espectador.

O mérito de King como diretor, para além do esmero fotográfico e da fluidez de ritmo tanto nas surpreendentes cenas de ação como no humor nunca exagerado, é também o de dirigir um elenco de nomes importantes em um filme, essencialmente, infantil. Sem o foco de Sally Hawkins, Hugh Bonneville e o elenco do primeiro longa, certamente o projeto cairia em alguma caricatura a deixar o filme medíocre como tantas outras animações. Um cuidado com a evolução de cada personagem acaba sendo um cuidado com a imersão que o filme provoca, mesmo sendo essa evolução apenas pincelada em detalhes da personalidade dos filhos, por exemplo, agora adolescentes.

Dentre as figuras novas, o destaque vai para a personagem de Hugh Grant. Interpretando um ator narcísico – “afetado” seria um termo adequado, pois narcísico todo ator é – Grant aceita a brincadeira metalinguística e dá um show em cada cena que aparece. Sua adição não só melhora o humor já decente do primeiro longa como ainda o deixa mais leve, claro e colorido, em contraste com o tom soturno da vilã interpretada por Nicole Kidman no filme original.

As Aventuras de Paddington 2 consegue refinar o charme de seu antecessor e manter a ternura nas suas abordagens morais com o devido zelo. Em meio à divertida ação e simpático bom humor, propõe boas reflexões na medida que um filme infantil pode apresentar. Um prato cheio para aproveitar em família.

As Aventuras de Paddington 2 (Paddington 2) – Reino Unido/França, 2018
Direção: Paul King
Roteiro: Paul King, Simon Farnaby (baseado em obra de Michael Bond)
Elenco: Hugh Grant, Brendan Gleeson, Ben Whishaw, Michael Gambon, Peter Capaldi, Sally Hawkins, Imelda Staunton, Jim Broadbent, Hugh Bonneville, Julie Walters, Madeleine Harris, Samuel Joslin, Marie-France Alvarez, Sanjeev Bhaskar, Ben Miller, Jessica Hynes, Robbie Gee, Nicholas Woodeson, Tom Conti, Noah Taylor, Aaron Neil
Duração: 103 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.