Crítica | As Aventuras de Paddington

estrelas 3,5

Já no prólogo de As Aventuras de Paddington, fica evidente que o filme se passa em um universo alternativo. Seguindo a corrente de produções como Stuart Little, ninguém parece estranhar que ursos falem, usem chapéus e se contentem com sanduíches de marmelada como alimento.

Mais do que criar uma fábula, desse modo a história não deixa dúvidas quanto à função do urso como mera parte da representação das relações, das diferenças e do comportamento humanos. A abertura do longa também funciona como um dos mais gritantes momentos dessa representação, na qual o explorador Montgomery Clyde (Tim Downie) interage com ursos na mata peruana tal qual o faria com um grupo humano tido como não civilizado, numa representação exagerada de um documentário antigo, em preto e branco.  Esse momento é claramente justificado perto do fim da projeção, talvez no auge da trama em matéria reflexiva, ainda que por uma pequena frase de um dos personagens, com o bom e velho humor britânico, com relação ao que torna ou não um povo civilizado – relevando-se o uso de uma linguagem, é claro, que não disperse o público infantil.

Sim, o ursinho Paddington é um personagem infantil icônico na Inglaterra. Sua criação se deu em 1958, em uma série de livros infantis escritos por Michael Bond e ilustrados por Peggy Fortnum (mesmo adaptada ao contexto contemporâneo, não são à toa as referências da releitura à Segunda Guerra Mundial). Presente, inclusive, numa série animada da BBC da década de 70, agora ganha esta versão em live action, dirigida e roteirizada por Paul King.

Após a partida do explorador da floresta peruana, anos depois somos apresentados a Paddington (voz de Ben Whishal) e aos seus tios Pastuzo (voz de Michael Gambon) e Lucy (voz de Imelda Stauton), que tiveram contato com o humano que se foi. Risadas, lembranças e sonhos de família depois, um terremoto abala a integridade do trio (sequência poética em sua sensibilidade, porém mal desenvolvida) e a tia envia Paddington a Londres (onde supostamente vive o explorador que os visitou), em um barco no qual viaja clandestinamente. Chegando a uma estação de trem, desesperado por encontrar um novo lar, topa com a família Brown. A Sra. Brown (Sally Hawkins) o acolhe sob os protestos do marido, Henry (Hugh Bonneville). O urso, então, passa a morar com a família, , tentando adaptar-se à nova civilização humana enquanto procura pelo explorador que esteve em seu antigo lar. Só que a taxidermista Millicent (Nicole Kidman) – vilã caricata ao seu público alvo, mas que também lembra muito a personagem Milady, de Alexandre Dumas, pela ótima representação de sua independência, sedução e frieza – fica sabendo que um urso está na cidade e deseja empalhá-lo.

Apesar do afastamento de Paddington do seu lar original e da perda do seu tio passarem batidos pelo roteiro, o script abraça o núcleo da narrativa e retrata muito bem a luta do jovem urso para conquistar seu lugar na complexa, plural e imperfeita sociedade inglesa – uma extensão, é claro, de muito do retrato social global. O tom crítico flerta com diversos temas sem se aprofundar na maioria deles – o comodismo e a hipocrisia de representantes da boa vizinhança dos abastados, a vida precária de quem vive à margem, corrupção, insegurança – mas quase sempre com leveza, bom humor e trapalhadas típicas do protagonista em produções do gênero. Cabe imaginar, contudo, a reação da censura décadas atrás a um trecho no qual dois personagens competem para ver quem bebe mais.

Observa-se, também, além da ótima caracterização do elenco de peso, não só a competente construção gráfica dos ursos como o realismo na relação de Paddington com os atores. A trilha sonora de Nick Urata, e que também trabalha com canções originais atípicas – incluindo o referencial à sonoridade peruana – tem momentos interessantes, especialmente em sequências panorâmicas ou de grande entrada desastrosa do protagonista em cena, mas muitas vezes é irrelevante e mesmo incômoda na sua persistência.

Em suma, um filme eficaz em divertir tanto crianças quanto adultos e até em pôr alguma caraminhola na cabeça dos últimos. Apenas impossível não advertir, por fim, quanto no mínimo a um equívoco gravíssimo da direção de dublagem brasileira do longa. Sem falar no sotaque paulista de Danilo Gentili, que incomoda muito por destoar totalmente dos demais sem motivo, menções ao Corinthians e ao Flamengo, que buscam fazer sentido ao público verde e amarelo, soam completamente fora de contexto, visto que sabemos que a história se passa em Londres e, adivinhe, em selva peruana.

As Aventuras de Paddington (Paddington, Reino Unido/França – 2014)
Direção: Paul King
Roteiro: Paul King, Hamish McColl (baseado em obra de Michael Bond)
Elenco: Nicole Kidman, Ben Whishaw, Michael Gambon, Peter Capaldi, Sally Hawkins, Imelda Staunton, Jim Broadbent, Hugh Bonneville, Julie Walters, Matt Lucas
Duração: 95 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.