Crítica | As Aventuras de Pedro Coelho, de Beatrix Potter

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Beatrix Potter nasceu em uma família britânica ligada ao comércio de algodão, com pais de inclinação artística e muito próximos à natureza. A casa onde a ilustradora, escritora e micologista (especialidade da Biologia que estuda os fungos) cresceu, com seu irmão, comportava uma série de animais de estimação: ratos, coelhos, ouriço, alguns morcegos e uma coleção de borboletas e outros insetos que Beatrix e o irmão desenhavam e estudavam. Sua influência, na infância, foi a básica de qualquer criança europeia, com as Fábulas de Esopo e os contos dos Irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. Mais tarde, após seu interesse por História Natural e aprimoramento nos desenhos de animais, Potter também começou a estudar alguns modelos narrativos de histórias que tinham animais como protagonistas. Ela estava preparando o terreno para a criação de algo que marcaria para sempre a literatura infantil do Reino Unido.

A primeira (e mais conhecida) história escrita e desenhada por Beatrix Potter, aos 27 anos, foi A História de Pedro Coelho (The Tale of Peter Rabbit), dedicada ao filho mais novo de uma antiga governanta da família, Annie Carter. Após tentar, ao longo de 1893, a publicação do conto em diversas editoras e ser recusada em todas, a escritora e ilustradora fez uma impressão particular do material, em 1901. No ano seguinte, a Frederick Warne & Co. manifestou interesse e publicou profissionalmente o material, a curiosa história do coelho mais travesso da floresta, alcançando sucesso imediato. As lições familiares, o ponto trágico inicial, a prova misturada com poesia e os belos desenhos da autora são algumas das coisas difíceis de se resistirem nesta bela história.

Em seu conto de estreia, conhecemos os coelhinhos Flocos, Flux, Rabo de Algodão e Pedro (achou que ia ter padrão para os nomes?), filhos da Coelha Josefina, que são deixados para brincar perto da casa enquanto D. Coelha vai à padaria. Acontece que Pedro, a ‘ovelha negra‘ da casa, vai justamente para o lugar onde a mãe proibira as crianças de ir: a casa do Sr. Severino e da Sra. Severina. E é aí que o ‘dia de cão‘ de Pedro começa. Lendo este livro já sendo um ‘cavalo velho‘ eu ‘lavei a burra‘ me divertindo e vendo Pedro ‘engolir sapo‘ o dia inteiro, correndo riscos verdadeiros e chegando em casa quase morrendo de tanta estafa. A impressão, pelo olhar que tenho hoje, é que “não é uma história para criança“, mas isso é só uma observação crítica do que acontece nesta narrativa sensacional, algo que uma criança não vai ter. Existe uma grande desesperança no final dessa primeira história. A mensagem moral é a mais dura possível. Se pensarmos que as crianças que cresceram ouvindo ou lendo essa trama são alguns dos britânicos que lutaram na Segunda Guerra Mundial, a gente entende um monte de coisa…

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Uma das 250 cópias caseiras impressas por Potter, em 1901, após ser rejeitada por diversas editoras.

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A História do Coelhinho Benjamin

Originalmente publicada em setembro de 1904, pela Frederick Warne & Co., A História do Coelhinho Benjamin (The Tale of Benjamin Bunny) é a quarta da série As Aventuras de Pedro Coelho, mas serve de sequência imediata à primeira história. Não é de se espantar que tenha sido um sucesso imediato, quando foi publicada, vendendo 20 mil cópias na semana de lançamento e mais 10 mil cópias na reimpressão feita logo no mês seguinte, em outubro.

Aqui, estamos novamente diante de uma história “bastante dura com as crianças”, e, novamente, é muito interessante ler essa história como um adulto, imaginando o impacto que pode ter para os pequenos. Como sabemos desde a aventura anterior, Pedro Coelho está passando mal — certamente traumatizado — depois de ter corrido um dia inteiro da perseguição do Sr. Severino. Na presente trama, ele se encontra com seu primo Benjamin, que vê os Severinos saíram da fazenda e irem com a charrete para algum lugar, estando a Sra. Severina “com a sua melhor touca“. Isso dá mais ou menos alguma liberdade para as crianças pintarem e bordagem na horta do vizinho, tendo, como era de se esperar, a punição merecida no final da história.

Um ponto muito curioso aqui é a meticulosidade com que Potter fez os desenhos (acho-os muito mais interessantes e detalhados que os do conto de origem) e como certas “coisas de criança” são bem colocadas na história, dando uma veracidade enorme ao comportamento dos personagens. Benjamin, por exemplo, não quer ver a tia no começo da trama, evitando entrar na toca pela frente. Mas é dele a ideia de levar cebolas de presente para a tia, na volta de suas aventuras com o primo. De certa forma, ele repete o erro que Pedro tinha feito pouco tempo antes e tem algo bom sobre isso aqui: Pedro se lembra do que passou e reluta ou tenta resistir à proposta do primo, mas a perspectiva de aventura e a insistência do parente acabam fazendo com que ele mude de ideia. O único ponto “menor” dessa história é que ela não é bem fechada. Parece que faltam umas 5 linhas de texto para dar a sensação gostosa de fim de conto infantil. Mas não deixa de ser encantadora por isso.

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A História dos Coelhinhos Felpudos

Terceiro conto envolvendo Pedro Coelho, A História dos Coelhinhos Felpudos (The Tale of the Flopsy Bunnies), lançado em 1909, se passa no futuro do personagem. Aqui temos o Coelho Benjamin, da história anterior, casado com a prima Flocos (irmã de Pedro) e com seis filhotes já capazes de fazerem suas próprias traquinagens. No começo, o leitor percebe a falta de envolvimento emocional da escritora com o que está acontecendo com os pobres bichinhos, cabendo, inclusive, uma visão bastante disfuncional (de certa forma) de família aqui. O texto deixa claro que Benj e Flocos eram “felizes, mas descuidados” e que a “comida nem sempre era suficiente“. Mas não para por aí. Há a indicação de que Benj tinha o hábito de sempre pedir “repolhos que sobravam” para o primo Pedro, agora com uma horta só sua. E como nesta ocasião o primo não tem sobras, ele vai com os filhotes caçar comida no lixo (isso mesmo!) do Sr. Severino, em uma vala do quintal do velho mais temido dos coelhos da região.

Depois do sucesso de A História de Pedro Coelho e A História do Coelho Benjamin, Potter foi requisitada diversas vezes para escrever mais sobre coelhos e continuar as aventuras desses personagens. No entanto, ela não via nenhum prazer nisso, pois ficava enjoada de desenhar na sequência o mesmo grupo de animais. Como as tramas eram sempre curtas, não tinha como colocar personagens demais, de outras espécies. O resultado? Ela precisava recusar muitos e muitos pedidos da Frederick Warne & Co. para depois de 2 ou 3 anos lançar uma outra história com coelhos. Esta dos Felpudos, por exemplo, foi a que menos quis escrever, a que menos entusiamo colocou e a que mais críticas negativas recebeu, a despeito do enorme sucesso de vendas.

As críticas, porém, não são vazias. Esta trama realmente possui problemas de estrutura, mesmo dentro da ideia de conto infantil. A bobagem das alfaces-sonífero e a sequência nonsense da segunda parte depõem contra a autora. Em que ambiente faz sentido os coelhos permanecerem no jardim do Sr. Severino depois de se verem livres da ameaça? Por que eles foram espiar na janela do velho? Certamente havia um motivo: Potter queria traumatizar para sempre as crianças que pediam histórias de coelho, então colocou coisas desse tipo, num diálogo do casal Severino sobre um saco que acreditam conter os seis Felpudos:

__ Não servem para comer, mas a pele vai ajudar na reforma da minha velha capa.

__ […] Eu vou é vendê-los e comprar um pouco de fumo para mim!

__ […] Vou é arrancar a pele deles e cortar suas cabeças!

É um pouco tarde para sentir pena das crianças britânicas, não é? Mas no fim de tudo, este conto mostra de maneira curiosa a chegada da maturidade e (talvez essa seja a moral da história… até eu fiquei confuso aqui) que a gente não deve dar muita atenção ao que fica para trás, depois de nos livrarmos de uma situação de animosidade. Passado o perigo e o problema, nada de permanecer no “jardim” da situação e seguir para a janela, para ouvir conversas que nenhum bem pode trazer. Quem diria que na história mais fraca e mais macabra da saga, o ensinamento final cairia como uma luva para o leitor adulto, hein?

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A História do Sr. Raposão

A maior de todas as histórias desse compilado, A História do Sr. Raposão (The Tale of Mr. Tod) foi lançado em 1912 e é uma das mais complexas histórias de Beatrix Potter, reunindo novamente Pedro Coelho, seu primo Benjamin (que acabara de se tornar pai dos Coelhinho Felpudos, portanto, meses antes da história anterior), Flocos e os personagens Sr. Saltador (pai de Benjamin), Sr. Raposão e o fedorento e sacana Tomé T. Xugo, estes dois últimos, os protagonistas, embora apareçam e tenham destaque em momentos diferentes, até se reunirem em uma batalha bastante violenta no final.

Aqui temos o Sr. Saltador inicialmente cuidando dos netos, os Coelhinhos Felpudos, enquanto Benjamin e Flocos vão “dar uma volta”. De cara, temos a apresentação do pior avô de todos os tempos, um coelho com um orgulho do tamanho do mundo, que nada faz para encontrar os netos depois que são sequestrados por T. Xugo e levados para uma das casas abandonadas do Sr. Raposão. Existe, como parece ser de praxe nas histórias de Potter, uma linha bastante tenebrosa de acontecimentos, com os filhotes realmente correndo risco de morte, colocados no forno para servirem de café da manhã ao texugo. O desespero de Benjamin e a solicitude de Pedro são os destaques emotivos da história, e é bom aproveitá-lo durante a leitura, porque o enredo não trará muitos desses momentos não.

Existem elementos recorrentes de outras histórias da autora aqui, mas eles não atrapalham o desenvolvimento com ares de repetição. O Universo dos coelhos é bastante charmoso e cheio de possibilidades, sempre havendo caminho para ampliar as ações dos bichos e apresentar outros. O impasse é que diante de acontecimentos às vezes tão complexos e maduros, tenhamos incoerências imensas na história, uma delas, envolvendo a dinâmica das casas do Sr. Raposão; outra, envolvendo o comportamento de Benjamin na hora de salvar os próprios filhotes e, infelizmente, no final, que mesmo não sendo pouco inspirado como na trama dos Coelhinhos Felpudos, não condiz com o peso do drama que seguimos a maior parte do tempo. Esta aqui definitivamente não é para crianças pequenas.

plano critico a história do sr. raposão plano critico pedro coelho As Aventuras de Pedro Coelho (The 23 Tales) — Reino Unido, outubro de 1902 a setembro de 1930
Publicação original: Frederick Warne & Co.
No Brasil: Companhia das Letrinhas, 2015
Autor: Beatrix Potter
Ilustrador: Beatrix Potter
Tradução: Eduardo Bueno
93 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.