Crítica | As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne

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estrelas 4

Esse é o Steven Spielberg que eu gosto. Ainda que eu aprecie seus filmes mais adultos, sentimentais, poucos “eventos cinematográficos” me fazem mais felizes do que a volta desse grande diretor ao estilo do começo de carreira, quando nos brindava com aventuras incríveis com extraterrestres, tubarões ou arqueólogos que usam chicote. As Aventuras de Tintim pode não ser um filme perfeito, mas é muito gostoso de se assistir, com alguns momentos verdadeiramente brilhantes.

Para os poucos que não sabem, Tintim é um personagem de quadrinhos criado em 1929 pelo famoso escritor e desenhista belga George Remi (1907-1983), que escrevia sob a alcunha de Hergé. Os 24 álbuns publicados venderam centenas de milhões de cópias no mundo todo, sendo que o personagem, claro, é especialmente conhecido na Europa. Apesar de nunca ter sido fã do personagem (gostava e gosto mais de Asterix), eu já li todos os livros do garoto jornalista Tintim que percorre o mundo em aventuras detetivescas acompanhado de seu cachorro branco Milu e do Capitão Haddock, um marinheiro barbudo e grosseiro que adora uma garrafa. Escrito em uma época em que o politicamente correto ainda não era tão presente (se é que era presente de alguma maneira), Tintim, apesar da idade tenra, andava de revólver em punho e seus pais nunca apareciam. Hoje, sua relação com o capitão Haddock – apenas amigos, devo deixar claro – escandalizaria os hipócritas vigilantes da correção politica, especialmente pelo fato do capitão ser um bêbado bem mais velho que só fala impropérios. Além disso, um dos álbuns em particular (Tintim no Congo) mostrava Tintim caçando animais que hoje estão em extinção e até tendo uma atitude racista. Não é que eu aprove isso mas, inevitavelmente, Hergé escrevia refletindo o tempo em que vivia pelo que alguma tolerância literária é necessária. Caso contrário, teremos que queimar os livros de Monteiro Lobato (aliás, já até tentaram bani-los das escolas).

Mas, voltando ao filme, apesar de Tintim já ter sido objeto de duas séries de televisão animadas e uma meia dúzia de longas metragens, essa foi a primeira vez que ele foi levado às telonas de forma grandiosa, com grande orçamento e pelas mãos de produtores de peso (Steven Spielberg e Peter Jackson). Como matéria-prima, os dois decidiram fazer uso de três histórias do personagem, Os Caranguejos das Pinças de Ouro, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackham, O Terrível, e utilizar-se da tecnologia de captura de performance, em que atores de verdade atuam e, depois, os magos do computador colocam uma camada de computação gráfica em cima, algo que pode ser mal utilizado.

A boa notícia, porém, é que, nas mãos de Spielberg e de Jackson (esse último um especialista no bom uso dessa tecnologia, vide os personagens Gollum e King Kong), As Aventuras de Tintim era, até seu lançamento, o melhor desenho feito com essa tecnologia. É muito superior a qualquer obra anterior do gênero, mostrando, finalmente, que a captura de performance pode dar certo, ainda que eu tenha dúvidas sobre sua real utilidade em uma animação.

Assim, não só os visuais do filme são incríveis, com a fita apresenta um nível de detalhe que rivaliza qualquer obra em computação gráfica da Pixar, como também os personagens parecem efetivamente vivos e extremamente representativos dos amados personagens no desenho de Hergé. Nada de “olhos mortos” como em Beowulf, nada de movimentos sem movimento como em O Expresso Polar. Sai a desanimação e entra, finalmente, gente que sabe fazer uso da tecnologia.

Sobre a trama, ela conta a história de Tintim (Jamie Bell), um jovem jornalista que, depois de comprar um navio em escala para enfeitar seu apartamento, vê-se perseguido por várias pessoas interessadas em comprá-lo. Obviamente, o pequeno navio, chamado Licorne (ou Unicórnio para usar uma palavra mais conhecida), esconde um segredo valioso que Sakharine (Daniel Craig) quer de qualquer maneira. No desenrolar da narrativa, depois de esbarrar com os investigadores Dupont e Dupond (vividos Nick Frost e Simon Pegg, em escalação inspiradíssima), Tintim acaba fazendo amizade com o capitão beberrão Haddock (Andy Serkis), que o ajuda na aventura. Juntos, eles passam por sobrevoos em desertos, fugas de cidades, tiroteios em navios e duelo de guindastes, tudo isso e mais flashbacks para o tempo das caravelas.

A comparação que imediatamente vem à cabeça é com Indiana Jones. E, de fato, aqueles que levantaram essa bola têm razão. A sensação que o filme passa é daquelas aventuras leves encabeçadas pelo famoso arqueólogo. É, definitivamente, Steven Spielberg voltando aos seus tempos de aventuras descompromissadas, mas com extremo bom gosto, criatividade e qualidade técnica.

Aliás, a mágica de Spielberg se mostra claramente presente na magnífica cena da fuga de Bagghar, no Marrocos. Nessa longa cena quase que feita em uma só tomada, vemos a câmera passear por Tintim, Haddock, Milu, os perseguidores e um falcão (importante nessa parte do filme). É algo de tirar o fôlego. Mas o que faz essa cena ser realmente algo fora desse mundo é a história paralela que ela conta. Prestem atenção na questão da escassez de água forçada pelo rico mercador Omar Ben Salaad (Gad Elmaleh) para manter o controle sobre o povo e como Tintim lida com isso, ainda que sem total consciência do que está fazendo. Esse momento é Cinema em seu mais puro estado de encantamento, algo que poucos diretores conseguem fazer.

A sequência dos créditos de abertura é outro elemento que não se pode perder pela sua simplicidade e eficiência, além de já demonstrar o potencial da trilha sonora de John Williams que funciona muito bem ao longo do filme, sem interferir demasiadamente na história como em Cavalo de Guerra. Aliás, a sequência em seguida à abertura até a chegada dos irmãos Dupont e Dupond é recheada de easter eggs para os fãs do personagem. São tantos que nem dá para contar.

E o trabalho de voz dos atores? Diferente de outros filmes que usam atores conhecidos, as vozes em Tintim não distraem. É difícil apontar para a tela e dizer “ouve só, é o Daniel Craig”. E é assim que os trabalhos de voz têm que ser: discretos e que não chamem atenção para si mesmo além do que é necessário para a trama.

No entanto, o filme não é só triunfos. Talvez por ter se baseado em três livros de Tintim (ainda que O Tesouro de Rackham, o Terrível seja continuação de O Segredo do Licorne), o roteiro, escrito a seis mãos por Steven Moffat (Doctor Who), Edgar Wright (Scott Pilgrim Contra o Mundo) e Joe Cornish (Ataque ao Prédio) não deixa de ser confuso e muito cheio de detalhes desnecessários para seu desenrolar. O diretor, por mais gabaritado que seja, acaba se perdendo no terço final por causa disso. Além desse aspecto, o desespero do roteiro para forçar uma continuação faz com que os minutos finais sejam desnecessários e forçados, literalmente marretados na estrutura narrativa sem propósito maior. Afinal, para que deixar tão claro assim que se quer uma continuação? Por acaso algum filme da franquia Indiana Jones precisou recorrer a isso para que a continuação se justificasse? É Spielberg deixando os maneirismos hollywoodianos infectarem sua obra.

Por último, fica uma pergunta e o pensamento: qual é a razão de se usar a tecnologia de captura de performance em desenhos animados? Entendo perfeitamente que ela seja usada em filmes que mesclam realidade com computação gráfica como na trilogia O Senhor das Anéis, King Kong ou Avatar. No entanto, em animação ela não se justifica plenamente, pelo menos não em minha cabeça. Afinal, se alguém procura fotorrealismo em um desenho, talvez seja mais interessante fazer um filme com atores reais logo de uma vez. Essa tecnologia, nesse caso, acaba criando um monstro híbrido que não tem outra razão de ser que não a vontade dos produtores e/ou diretor de simplesmente usar a tecnologia porque ela existe. Mas chega de reclamação, pois o filme é diversão garantida e esse fator não pesa em sua análise.

As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne é aventura pura com um Spielberg em sua plena forma clássica. Um mestre da Sétima Arte trazendo vida à obra de um mestre da Nona Arte. Não se pode querer muito mais do que isso, não é mesmo?

*Crítica originalmente publicada em 18 de dezembro de 2013. Atualizada e corrigida para republicação.

As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintin, EUA/Nova Zelândia – 2011)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish (baseado em obra de Hergé)
Elenco: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost, Simon Pegg, Daniel Mays, Gad Elmaleh, Toby Jones, Joe Starr, Enn Reitel
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.