Crítica | As Aventuras de Tom Jones (1963)

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estrelas 3

Em 1749, o escritor Henry Fielding, considerado como um dos pais do romance romântico trouxe ao público o romance Tom Jones, monumento literário repleto de personagens e situações típicas de narrativas épicas, tamanha a grandiosidade dos elementos que gravitavam em torno do personagem título. Apesar de referenciado em diversos filmes, séries, músicas e demais espaços de expressão do mundo contemporâneo, foi na adaptação de 1963 que a obra literária encontrou a sua tradução mais interligada com os elementos do texto impresso.

Apesar de ter escrito muito coisa durante a sua vida intelectual, o reconhecimento maior para Henry Fielding foi a publicação de Tom Jones, romance picaresco construído através de uma meticulosa estratégia narrativa com tons farsescos. Tal tom está presente com riqueza de detalhes nas grandiosas imagens da adaptação cinematográfica. Dirigida por Tony Richardson, a produção ganhou o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 1964, além de levar os prêmios de Melhor Diretor, Trilha Sonora e Roteiro Adaptado.

Um verdadeiro sucesso de crítica e de bilheteria, hoje um pouco datado, pois para a contemplação do espectador contemporâneo torna-se necessário um mergulho contextual para compreensão das estratégias narrativas que beiram ao burlesco. Com roteiro de John Osborne, As Aventuras de Tom Jones começa com o nobre Allworthy (George Divine) descobrindo um bebê abandonado. O aristocrata assume a criança que anos mais tarde se tornará o sedutor Tom Jones (Albert Finney), um mulherengo que vive tranquilamente o ócio da riqueza, conquistando corações e aventurando-se sexualmente com as mulheres que almeja.

Mais adiante, com a morte do seu mentor, o rapaz decide mudar o seu comportamento, principalmente pelo fato de estar apaixonado pela recatada Sofie (Susannah York). A partir daí, o filme focará as suas atenções nesta jornada de transformação do personagem, com direito a todas as idas e vindas típicas de narrativas deste quilate.

No que tange aos aspectos técnicos, a produção pode ser considerada como uma construção carnavalizada da linguagem cinematográfica. É anarquia audiovisual do começo ao fim. Há alguns momentos de referencia ao cinema mudo, com os fades, movimentação no espaço da câmera e cartelas que nos remetem aos tempos áureos de Charles Chaplin. Assim como a obra literária que serve como ponto de partida, o filme possui todo o arsenal de personagens e seus conflitos.

Ainda no quesito linguagem, As Aventuras de Tom Jones não investe numa crítica dramática aos costumes da época, período cheio de idiossincrasias. O roteiro de John Osborne aposta na sátira aos costumes, através de muitas cenas exageradamente bem humoradas, diálogos no mesmo nível e personagens bem caricaturais. Irreverente e debochado, o filme aloca-se muito bem ao seu período histórico, uma fase de profundas transformações sociais, principalmente na linguagem artística rebelde e inconformada.

Enquadramentos abertos valorizam os espaços e a direção de arte cuidadosa. A trilha sonora, ganhadora do Oscar, também consegue fazer o espectador adentrar bem ao espaço narrativo: a Inglaterra em pleno século XVIII, cheia de valores e padrões satirizados de maneira nada sutil, tanto pelo autor do romance como pelos criadores da versão cinematográfica.

Voltando ao roteiro, há alguns elementos da Odisseia, de Homero, presentes na jornada de Tom Jones, principalmente na sua busca pelo amor, devidamente metaforizada pelo roteiro. Ao longo dos seus 120 minutos, As Aventuras de Tom Jones se oferece ao espectador como uma narrativa humorada, mesmo que não tenha mais o impacto de outrora.  Eis um daqueles filmes que envelheceram com o tempo, deslocado e aparentemente “estranho”, sendo visto atualmente como um recurso para resgate memorialístico de uma época transgressora para a linguagem cinematográfica.  Se o espectador puder tirar proveito da situação e divertir-se com o filme, teremos então uma sessão que une o útil ao agradável.

As Aventuras de Tom Jones (Tom Jones) –  Inglaterra, 1963.
Direção:  Tony Richardson.
Roteiro: John Osborne, baseado no romance de Henry Fielding.
Elenco: Albert Finney, Susannah York, Edith Evans, Hugh Griffth, Lynn Redgrave, David Warner, George Devine, Peter Bull.
Duração: 129 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.