Crítica | As Aventuras do Avião Vermelho

estrelas 2,5

Inicialmente prevista para 2012, a animação As Aventuras do Avião Vermelho, quando adiada, já parecia evidenciar sua dificuldade em termos técnicos e artísticos num contexto local onde ainda há pouca especialização na direção e atuação em uma produção animada (vulgo dublagem), ainda mais para um longa-metragem. Enfim lançado, ao menos a qualidade visual do filme foi garantida, ainda que com o já obsoleto 2D (embora bem colorido e reconhecido por sua competência), porém, ainda enfrenta vários problemas.

Baseada na obra infantil do gaúcho Érico Veríssimo escrita em 1936 mas adequada ao atual contexto e acrescida de referências à cultura pop, a produção acompanha Fernandinho (Pedro Yan), de 8 anos, que com a perda da mãe – ponto que o roteiro simplesmente parece se esquecer de desenvolver – vive isolado, arisco, arteiro e tendo um videogame por companhia. O pai (Sergio Lulkin), que vê seu trabalho afastá-lo do menino, tenta aproximar-se, sem muito sucesso. Até que um dia, o homem encontra um de seus livros de infância que narra as aventuras do tal avião vermelho e seu capitão Tormenta mundo afora. O pai presenteia Fernandinho com o livro e, enfim, cria um vínculo com o filho quando este é completamente absorvido pela história. Tão absorvido que, concluída a leitura e descobrindo que o capitão termina preso na península de Kamchatka, decide salvá-lo com um avião de brinquedo que, com sua imaginação, personifica o do livro com voz de Milton Gonçalves – sim, o avião também fala.

Felizmente, a engenhosidade de Veríssimo confere algum encantamento à adaptação, que inclui desde uma queda acidental na Lua e um povo cujas palavras ditas devem ser interpretadas no sentido oposto até o resgate da mítica magia da infância, algum didatismo geográfico e o familiar conflito, embora leviano no longa, entre o que é fantasia e realidade. A trilha sonora de Everton Rodrigues, uma pena, é o exemplo de uma bela composição independente que até ganha ótimos momentos no filme, como a marcante canção cuja letra sã palavras proferidas de trás para frente – com clara inspiração na sonoridade japonesa -, mas que com muita frequência não se aplica bem às cenas, em especial pelo constante exagero no uso da bateria.

Um dos problemas mais sérios, porém, é sem dúvida a dublagem. O desconforto dos atores em não contracenar diretamente uns com os outros parece evidente. Muitas entonações de apelo emocional soam estrondosamente falsas e o pequeno Fernandinho (Yan) chega ao ponto de hesitar em suas falas ou mesmo de parecer que está lendo certas frases, falta grave, que reflete a negligência de um compromisso fundamental da direção: reger seus atores.

O roteiro também deixa a desejar, com personagens mal desenvolvidos e piadas sem graça – ao longo da fita, quase não se ouvem risadas da garotada. Apesar da constante presença dos brinquedos falantes pela visão de Fernandinho, Ursinho (Wandi Doratiotto) e Chocolate (Lázaro Ramos), seus companheiros de aventura, eles parecem estar ali só para preencher um espaço que sobrou, não têm uma história acerca de suas funções na trama, como se escolhidos aleatoriamente para integrar o grupo de personagens, e é mais fácil irritarem o espectador do que o animarem. Por outro lado, os diretores Frederico Pinto e José Maia conseguem dar o tom local (gaúcho) à animação, sem por isso afastá-la em diálogo com o Brasil como um todo.

No mais, o filme representa um experimento local no âmbito da longa animação, que com suas falhas pode abrir portas para um gradual amadurecimento técnico e artístico na área. Afinal, nas asas da imaginação somadas à experiência, não há limites.

As Aventuras do Avião Vermelho (Brasil, 2014)
Direção: José Maia, Frederico Pinto
Roteiro: Camila Gonzatto, Frederico Pinto, Emiliano Urbim (baseado na obra de Érico Veríssimo).
Elenco (vozes): Pedro Yan, Milton Gonçalves, Lázaro Ramos, Fernando Alves Pinto, Zezeh Barbosa, Wandi Doratiotto, João França, Sérgio Lulkin, Geórgia Reck, Sissi Venturin
Duração: 70 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.