Crítica | As Aventuras do Capitão Cueca: O Filme

PLANO CRITICO As Aventuras do Capitão Cueca O Filme (2017)

Iniciada em 1997, nos Estados Unidos, a publicação dos livros do Capitão Cueca pelo autor e ilustrador Dav Pilkey teve uma grande e rápida recepção do público, permitindo que a obra se tornasse uma badalada série literária infanto-juvenil, ganhando versões cada vez maiores ao longo dos anos e sendo traduzida para diversos idiomas. Foi com base nessas histórias que a DreamWorks Animation em parceria com a Scholastic Productions trouxe para os cinemas As Aventuras do Capitão Cueca, sob direção de David Soren (Turbo).

A trama acompanha dois amigos do 4º Ano que se conhecem desde o Jardim de Infância, os inseparáveis George (Kevin Hart) e Harold (Thomas Middleditch). Eles passam o tempo inteiro pregando peças nos professores, colegas e principalmente no enraivecido diretor Krupp (Ed Helms). O principal passa-tempo dos dois amigos, fora as pegadinhas na escola, é criar histórias em quadrinhos (George é o roteirista e Harold o artista) que vão desde coisas como “A Minhoca que Era Triste” e “A Sra. Que Foi Colocada na Chamada de Espera” até a grande e incomparável produção da dupla, o Capitão Cueca.

O roteiro de Nicholas Stoller (com inputs do diretor David Soren), que escreveu obras como Os Muppets (2011), Muppets 2: Procurados e Amados (2014) e Cegonhas (2016), sabe organizar muito bem um enredo que agrada tanto ao público infantil, com um humor meio bobo e recheado de situações que arrancam riso fácil pelo apelo físico, normalmente funcionando como representação exagerada dos adultos, umas das coisas que sempre funcionam como gatilho cômico para as crianças; quanto ao público mais velho, que encontrará piadas (ou uma crítica dura mesmo) ao sucateado e vergonhoso sistema de ensino que se sustenta hoje na maior parte do mundo, com situações sobre o tipo de aula maçante e cheia de “coisas para decorar” até o baixo salário e o cada vez menor valor social dos professores diante dos desmandes dos governos e condições cada vez mais difíceis de trabalho.

Esta boa relação de temáticas ganha mais valor e faz o filme ser ainda mais divertido à medida que as quebras da Quarta Parede acontecem. Isto e a ótima alteração de técnicas de animação. O filme é majoritariamente em 3D, com desenhos de formas bastante arredondadas, normalmente marcados por simpáticas distorções no tamanho dos personagens, tornando-os fofos e ao mesmo tempo fazendo com que o cenário seja bastante aproveitado nos momentos certos, quando acontece de algumas coisas aumentarem demasiadamente de tamanho… Mas aqui e ali aparecem momentos em 2D imitando desenho infantil, ou até mesmo fantoches, cabendo em cada um desses blocos um diálogo com o espectador, seja congelando uma cena para introduzir alguma narração (aplausos para a excelente interpretação de Hart e Middleditch, dublando os protagonistas); uma observação jocosa ou mesmo elementos metalinguísticos, especialmente no primeiro ato.

A partir do momento em que o grande plano dos garotos é realizado, a obra vai perdendo um pouco o vigor. Ela não deixa de ser divertida, mas o ritmo e até mesmo o bom entrosamento entre os tipos de piada, a exposição dos diálogos e a grande marca de amizade e “loucuras de infância” do enredo passam a inchar, ganhando ares destoantes do que a fita apresentou no começo. Desses impasses, o problema de ritmo é o que mais pesa, todavia, é impossível se desconectar por completo do filme quando temos aqui e ali referências cinematográficas e televisivas deliciosas e bem empregadas, saltando aos olhos as indicações a Metrópolis (com as crianças alinhadas, entrando na Escola como se fosse na boca de Behemoth); Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (com a narração de “há muito tempo, em uma Galáxia muito, muito distante…“); e a elementos visuais e textuais de Ursinho PuffOs SimpsonsOs Padrinhos Mágicos.

Apesar da falha no ritmo e no tipo de grandeza destoante que a história mergulha aos poucos, As Aventuras do Capitão Cueca: O Filme é daquelas obras que deixa adultos e crianças felizes quando termina a sessão. A mensagem de amizade, a forma honesta com que o texto trabalha a solidão de algumas pessoas e a maneira inteligente como a trama fala sobre a tolerância, o bom humor e a capacidade de rir de si mesmo são contagiantes, assim como a simpática canção sobre os laços de fraternidade que acompanha os créditos finais, A Friend Like You, de Andy Grammer. Desde Megamente (2010) a DreamWorks não fazia nada que abordasse o mundo dos super-heróis. E que bem-vindo foi este mergulho no gênero, tratado de forma diferente, com um roteiro que se aproveita do rico Universo de faz-de-conta das crianças para criar um herói quase à margem, um grandão estúpido e de comportamento infantil controlado por pequenos traquinas. Que tal este para salvar o mundo?

As Aventuras do Capitão Cueca: O Filme (Captain Underpants: The First Epic Movie) — EUA, 2017
Direção: David Soren
Roteiro: Nicholas Stoller (baseado na obra de Dav Pilkey e com material adicional de David Soren)
Elenco (vozes de): Kevin Hart, Ed Helms, Nick Kroll, Thomas Middleditch, Jordan Peele, Kristen Schaal, DeeDee Rescher, Brian Posehn, David Soren, Mel Rodriguez, Susan Fitzer, Lynnanne Zager, Tiffany Lauren Bennicke, James Ryan, Leslie David Baker, Sugar Lyn Beard, Lesley Nicol, Chris Miller, Coco Soren, Brianni Walker
Duração: 89 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.