Crítica | As Boas Maneiras

“Dorme no chão, dorme no feno, dorme cavalinho, aproveita que é pequeno.”

A vida possui diversos pontos de virada, que drasticamente mudam a nossa realidade como, até então, a conhecíamos. Neste longa-metragem de Juliana Rojas e Marco Dutra, o amor é uma constante dos dois filmes, consideravelmente distintos, que moldam As Boas Maneiras como o excelente exemplar de cinema de gênero que é. A ruptura entre um filme e o outro, acontecimentos que destroem e então reconstroem, é este ponto de virada. Todavia, o maior apreço do trabalho do roteiro não é nem com o amor, mas com a liberdade em si, entrelaçada com a narrativa e composta em camadas de variadas nuances, seja a liberdade por escolher, seja a liberdade por não se ater a moral da sociedade. As Boas Maneiras, desse modo, é bastante contrário ao caráter fabular das narrativas, embora este seja apresentado de diversas formas na estrutura da obra, seja na composição visual da abertura, seja em falas que remetem a histórias clássicas da literatura. No filme – cuja trama, primeiramente, nos apresenta a Clara (Isabél Zuaa), contratada para ajudar Ana (Marjorie Estiano), uma mulher grávida, nos serviços de casa e, futuramente, nos cuidados com o bebê -, as etiquetas sociais são subvertidas. Diante de um trabalho que mapeia tantas disfunções com a ordem vigente, um dos maiores sucessos da dupla é conduzir uma visão que torna o espectador empático aos personagens, não os entendendo como imorais, mas, dentro das características que abraçam um alcance ético, observando-os em sua amoralidade, algo absurdamente livre, porém inalcançável. Também, a visão sobre a maternidade, no final das contas, é uma das mais libertadoras e poéticas do cinema brasileiro.

O distanciamento das boas maneiras, impostas ferozmente por uma sociedade que justificará o comportamento agressivo, o linchamento humano, na desarticulação, por outros, da moral vigente, é acompanhado do crescimento gradativo da tensão propriamente dita, amplificada pelas dicas dadas, durante o filme, acerca das condições da gravidez de Ana, sendo a natureza aterrorizante um pretexto para algo maior, como George Romero fizera em A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968. Mas o cinema de gênero permanece presente em toda a sua glória, sendo a veia central para que acompanhemos uma história sobre licantropia, maternidade e liberdade. Por sinal, até mesmo presenciamos um inacreditável momento de violência gráfica, extremamente perturbador. O gosto elitista é dissolvido ao passo que a primeira parte é requintada, mais soturna, romântica, abordando um amor livre e um mistério proibido. A naturalidade da relação entre as duas mulheres é impressionante. Já na segunda parte, a obra ganha um escopo escolar, sobre bullying, leves interesses amorosos de colégio e amizades despretensiosas. Os assuntos menores tratados são deixados de lado, mas a relação humana entre as figuras centrais permanece forte e vigorosa, com o roteiro tendo novas coisas a apontar. Pode ser que essa quebra forte de ritmo, de tom, prejudique o filme para alguns espectadores, saudosos da excelentíssima primeira parte do longa, mas, dentre tantos fatores, é inegável como torna-se comovente a transposição de uma história para outra, sabendo usar de características desenvolvidas pelo filme – no caso, o gosto de Ana por dança – para pegar o espectador e, talvez, emocioná-lo assustadoramente.

A metrópole de As Boas Maneiras é distinta, levemente futurista, além de solitária, mas remete a muitas das mazelas sociais da nossa realidade, embora nunca denuncie-as de um modo óbvio, sem entrega-las de bandeja ao espectador, algo comum de ser feito através de um texto expositivo. De fato, há algumas notas a serem tomadas do corpo geral, começando com as que se apresentam na superfície da obra. Clara é negra. Ana é branca. Clara é babá – e também empregada doméstica. Ana é patroa. Mas esse não é um filme que quer falar diretamente disso, sendo que tal crítica social, relacionada ao racismo e a desigualdade, portanto, torna-se segundo plano de um belíssimo texto discursivo sobre liberdade. Contudo, as costuras são evidentes, ao passo que nenhuma dessas características são apresentadas como barreiras para as protagonistas, que vão desenvolvendo uma história de amor sem pieguices, extremamente verdadeira. No relacionamento, enquanto Marjorie Estiano expressa abertamente os seus sentimentos, Isabél Zuaa incorpora a sua personagem de uma maneira apática, robótica, como se estivesse presa em um quarto à beira da isenção de sentimentos. Isso muda mais para frente, o que evidencia um excepcional arco dramático para a protagonista. A relação dela com a senhoria também é ácida, transformada completamente na segunda parte da obra, a qual possui conexões renovadas, ainda assim interessadas nas brechas, na capacidade do normal tornar-se caos, ser completamente redefinido. A histeria coletiva, dos últimos segundos, é um misto de fanatismo religioso com moralismo hipócrita.

O cinema de Juliana Rojas e Marco Dutra também não está interessado em amarras. O cinema é livre, e é justamente nessa opção pela liberdade que ambos decidem entregar uma segunda parte mais formal, seguindo diversas das convenções adotadas por obras de natureza similar, como, por exemplo, a criança revoltada com a educação materna. Mas a convenção, aqui, não é facilidade, muito menos uma prisão, mas uma escolha, que permite explorar tanto o gênero trabalhado quanto as discussões sociais. Tanto é que, em momentos específicos, As Boas Maneiras é permitido ser musical, acompanhado por canções belíssimas, e até “animação”, em uma maneira inventiva de se expor o passado. Além disso, o longa-metragem, esteticamente, opta por contrastes entre o que é natural e o que é artificial, como na cirúrgica intervenção digital das paisagens, que expressam o dedo do homem, nos fazem notá-lo, mas nunca nos fazem criticá-lo, visto que o casamento entre a lua e a fotografia é de uma beleza singular. O mesmo acontece com a computação gráfica utilizada na realização da criatura, que, se não perfeitamente acabada, é eficiente, embora uma maquiagem pudesse providenciar mais riqueza ao trabalho da sua forma crescida, visto que a recém-nascida é de um esmero magnífico. Apesar disto, o ator Miguel Lobo é um destaque, embora seja parte de um elenco infantil que poderia ter sido melhor dirigido pelos cineastas. A montagem também é apreciável, parte de uma costura de planos com planos quase artesanal.

Ademais, As Boas Maneiras é uma obra que exala comentários sobre a vida urbana, sobre a desigualdade e, mais do que tudo, sobre como devemos ou não nos comportar. Se devemos ou não nos comportar. Não existem grades para prender os personagens do filme, correntes ou quartinhos. Tudo é desfeito e o homem volta ao seu estado primitivo, mas livre. Nesse mesmo tempo, a hipocrisia daqueles que julgam o deslocamento, mas urgem por exteriorizar um ódio repelido, internalizado, porém presente, é realçada, enfim retornando a um estado medieval, mas duramente distanciado de qualquer liberdade. Aliás, o título casa perfeitamente com a temática abordada nas duas horas de projeção, dada a introdução de inúmeras pontuações, da etiqueta à homossexualidade, que fogem completamente das boas maneiras de uma sociedade composta pelos chamados “cidadãos de bem, parte da família tradicional brasileira“. O exagero do final está mais perto de uma verossimilhança do que pensamos. A tradição cultural também é abordada, seja por inventivos flashbacks,  que dizem mais pelas imagens do que pela narração, seja pela ambientação da segunda parte da obra, passada nas vésperas de uma festa junina, uma das celebrações mais icônicas do país. A fuga dos padrões, da vida dita como correta, é uma constante entre todos os personagens do longa-metragem, desde o princípio, em níveis e níveis que vão se distanciando, mas mantém, na ruptura, um uníssono rugido por liberdade.

As Boas Maneiras – Brasil, 2017
Direção: Juliana Rojas, Marco Dura
Roteiro: Marco Dutra, Juliana Rojas
Elenco: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Andréa Marquee, Felipe Kenji,  Nina Medeiros, Neusa Velasco, Gilda Nomacce, Eduardo Gomes, Germano Melo, Adriana Mendonça, Naloana Lima, Hugo Villavicenzio
Duração: 130 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.