Crítica | As Bruxas de Salem (1996)

estrelas 4

Em 1692, durante o mês de outubro, os moradores de Salem se viram envoltos numa penumbra de superstição. Uma escrava negra conhecida como Tituba, ao contar histórias sobre vodus a amigas e aos filhos do seu patrão, se envolveu numa teia de intrigas que arrastou um numeroso grupo de pessoas pelo tribunal, num esquema que envolveu médicos, juízes, fazendeiros poderosos e membros da Igreja.

Sob a direção de Nicholas Hytner, com roteiro assinado por Arthur Miller, somos apresentados ao seguinte mote: em Massachusetts, em 1692, um homem flagra algumas jovens realizando feitiços numa região sombria. Uma das envolvidas, Abigail Willians (Winona Ryder), havia se envolvido sexualmente com o fazendeiro John Proctor (Daniel Day-Lewis). Na época casado, a moça foi despedida pela matriarca da família, Elizabeth Proctor (Joan Allen). Desta forma, desenvolveu ódio por não ter dado continuidade ao caso e imbuiu-se de uma vingança futura. Este dia, por sua vez, não demora muito a chegar.

Quando investigadas por seus atos de bruxaria, os acontecimentos se desdobram numa histeria coletiva com graves consequências sociais. Várias pessoas são acusadas injustamente por Abigail, entre elas, a esposa de John. A partir deste momento inicia-se um julgamento cheio de oscilações éticas, “verdades secretas”, jogos de poder e alienação típica de uma sociedade dominada por dogmas religiosos. Interessados em arrendar terras vizinhas, pais solicitavam as suas filhas que denunciassem os prováveis envolvidos, ganhando assim mais território, em suma, uma era de traições, desfacelamento de famílias e intrigas.

A obra é baseada na peça de Miller, profissional que também produziu o roteiro para a versão cinematográfica. O filme passeou por diversos festivais, tais como Berlim, Veneza, além das indicações ao Oscar, ao Globo de Ouro, ao BAFTA e ao Satellite Awards. No que tange aos aspectos da crítica, fez sucesso em duas vias: agradou ao público e aos especialistas em cinema.

As performances são inegavelmente muito boas, a trilha sonora sublinha cada imagem adequadamente, o final sutil torna as imagens bem fincadas na memória, sendo o seu único problema a dinâmica estabelecida pela montagem. Há a impressão de que alguns trechos se repetem desnecessariamente, fazendo com que alguns relatos sejam processados ciclicamente, o que impede a narrativa de avançar. Alguns minutos a menos não faria mal.

Um dos aspectos que tornam As Bruxas de Salem estupendo é a alta carga de potencial alegórico do filme, pois é sabido que a trama retrata os males do macarthismo, perseguição anticomunista que prejudicou muitos intelectuais e personagens políticos nos Estados Unidos da década de 1950, entre eles, Arthur Miller, dramaturgo que assinou a peça homônima e o filme, décadas depois.

As Bruxas de Salem é um filme que apesar dos seus 20 anos, não envelheceu, haja vista a sua indústria veloz em que filmes realizados a pouco menos de cinco anos são considerados “velhos”. A alienação presente no discurso dos personagens é atual, marcante e mostra que o nosso mundo continua em constante perigo, pois os fatos históricos apresentados no filme funcionam como resgate de uma memória agonizante, mas também se adequa ao que chamamos de alegoria, pois metaforiza fielmente o nosso contexto histórico contemporâneo.

Publicado originalmente em 27 de novembro de 2016.

As Bruxas de Salem (The Crucible) — EUA, 1996.
Direção: Nicholas Hytner
Roteiro: Arthur Miller
Elenco: Bill Paxton, Bruce Davison, Daniel Day-Lewis, Joan Allen, Paul scofield, Rob Campbell, Winona Ryder, Alexander Streit.
Duração: 124 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.